20 de julho de 2014 | Estilo | Texto: | Ilustração:
Curadoria de guarda-roupa com Wes Anderson

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Neste último dia 3, estreou aqui no Brasil o mais recente filme do diretor, roteirista, produtor, faz-tudo Wes Anderson, “Grande Hotel Budapeste”. Para quem nunca ouviu falar nem de um, nem de outro, uma breve sinopse: a produção segue a história de Zero Moustafa, dono do outrora célebre Hotel Budapeste, por meio de seu relato ao escritor interpretado por Jude Law dos acontecimentos fantásticos por ele vividos em seus tempos de mero mensageiro do hotel. Acontecimentos que envolvem um concierge completamente obcecado pela perfeição em seu trabalho, um (ou vários) assassinatos, uma sociedade secreta e, claro, uma história de amor.

Já Wes Anderson é um cara de 45 anos nascido no Texas, Estados Unidos, amigo do ator Owen Wilson desde os tempos de faculdade e criador de ótimos filmes.  Certo, avaliação um pouco tendenciosa da minha parte, mas o menino é bom mesmo. Ele tem o incrível dom de transformar roteiros aparentemente banais – menino e menina em fuga pra viver um romance, família bagunçada pelo pai ausente, raposa que rouba galinhas – em histórias completamente únicas, com os melhores diálogos do mundo e trilhas sonoras de um bom gosto sem igual.

Mas acho que, acima de tudo, suas produções são conhecidas por sua impecabilidade técnica. É tudo minimamente estudado, feito e refeito – o que já lhe rendeu a fama de cri-cri, com fofocas de que chega a filmar uma mesma tomada mais de 50 vezes, até chegar ao enquadramento completamente perfeito. Wes tem bem definida sua assinatura visual, com fontes, paletas de cor e fotografia muito característicos, o que torna possível reconhecer um filme seu só de bater os olhos.

E essa obsessão visual toda se estende aos figurinos, claro. Seus personagens todos têm guarda-roupas que não só refletem suas histórias e personalidades, como os complementam perfeitamente, sendo impossível imaginar seus filmes com tanta força narrativa sem pensar em seus looks com cara de uniformes que beiram o caricato, só que de forma legal. Então deixo aqui pra vocês a minha listinha de favoritos:

 

MAX FISCHER – Rushmore (1998)

1. max fischerVivido por Jason Schwartzman, Max é um estudante de colégio interno, então boa parte de seu vestuário se resume a seu uniforme escolar – calça cáqui, camisa clara, paletó azul marinho -, que por si só já é bem legal, mas são os pequenos complementos esquisitos que me fazem querer roubar suas roupas, principalmente aquela maravilhosa boina vermelha que o segue por todo o filme. Mas Max também não faz feio após ser expulso do colégio, tanto em seus momentos casuais com jaqueta de tactel (sim, daquele tipo que sua mãe te fazia usar na infância) com recortes geométricos e chapéu felpudo, quanto em seu look mais formal, composto pelo incrível terno de veludo meio esmeralda.

 

TODO MUNDO – Os Excêntricos Tenenbaums (2001)

2. tenenbaumsSério, não tem um erro de figurino nesse filme. Desde os terninhos e vestidos em tons pastel da mãe, Etheline, até o visual cowboy de Eli Cash, o escritor best-seller que se agrega à família Tenenbaum, passando pelos ares esporte-grunge do tenista aposentado Richie e pelos conjuntos Adidas vermelhos esportivos de Chas e seus filhos, Ari e Uzi, é tudo impecável.

Vemos também Dudley Heinsbergen, um cara cujo visual se baseia em chapéu de pesca e camiseta, e seu psicólogo interpretado por Bill Murray, Raleigh St. Clair, que faz a combinação gola alta e terno se tornar terrivelmente atrativa.

3. margot tenenbaumMas o prêmio de “me dá tudo isso, por favor!” fica certamente com Margot  Tenenbaum, a filha (adotiva, como Royal, o pai, gosta de ressaltar) interpretada por Gwyneth Paltrow. A prodígio da dramaturgia passa o filme inteiro com praticamente uma única combinação de roupas – um casaco de pele caramelo (que a vegetariana que vos escreve gosta muito de acreditar ser sintético), um vestido listradinho de corte reto e gola polo e um singelo tic-tac prendendo a franja de seu cabelo chanel reto. Tão único e descolado que está na minha lista de looks preferidos de todo o cinema, não só de filmes do Wes Anderson.

 

ALISTAIR HENNESSEY – A Vida Marinha com Steve Zissou (2004)

4. alistair henesseyUm único look. Uma única peça, na verdade. O que é essa maravilhosa echarpe rosa? Com esse fundo branco total, é quase uma obra de arte, sem dúvida.

 

ASSISTÊNCIA SOCIAL – Moonrise Kingdom (2012)

5. assistencia socialO uniforme da personagem-instituição vivida pela deusa Tilda Swinton é a representação visual perfeita da palavra “sobriedade”. Até mesmo de “rispidez”, quem sabe. Um belíssimo casaco reto e sem detalhes, azul escuro quase roxo, com um vermelho escondido em seu interior para fazer charme, e uma combinação igualmente azul-arroxeada por baixo, finalizados com um chapéu cujo modelo não faço ideia, só sei que parece um potinho adorável.

 

SUZY BISHOP – Moonrise Kingdom (2012)

6. suzy bishop copyEla tem 12 anos e um senso de estilo muito mais legal que eu terei durante toda minha vida. Suzy é praticamente uma releitura de Anna Karina, a atriz-musa dos filmes do diretor Jean Luc Godard, com sua sombra azul e delineador preto (nunca achei que ficaria tão obcecada com um detalhe de maquiagem, mas fiquei) emprestados de Uma Mulher É Uma Mulher.

Acho muito legal que haja o toque de infância em suas roupas – tipo a calcinha grandona em que ela dança ouvindo Françoise Hardy na beira do lago –, sem que isso diminua a importância delas. São belos vestidos de gola arredondada e mangas encurtadas combinados com meias ¾ e sapatos boneca, que poderiam facilmente se escorar no clichê enjoativo (e bem perturbador, devo dizer) de Lolita, mas há algo, seja nas cores ou na personalidade de Suzy, que o fazem passar bem longe disso.

Pontos bônus para a fantasia incrível de corvo.

 

AGATHA – Grande Hotel Budapeste (2014)

7. agathaVestidos de tecidos levinhos, de tons clarinhos e românticos, que muito lembram os doces delicados que a própria Agatha faz na confeitaria Mendl’s, onde trabalha. Gosto mais ainda quando essa leveza e doçura toda é combinada ao casaco camelo rústico e o cachecol azul puído usados por ela para fazer as entregas de doces de bicicleta.

Mas o que me ganha mesmo é seu penteado de trancinhas. Fiquei tão apaixonada que parei para testá-lo em meu próprio cabelo enquanto escrevia esse texto. Dificuldades de atenção? Talvez. Mas prefiro enxergar como esforço jornalístico.

 

WES ANDERSON8.wes

Sim, o próprio. Afinal, quando vemos suas roupas, ficamos em dúvida se ele adota os looks dos personagens, ou se os personagens adotam seus looks. Seus ternos de veludo e suas cores que fogem do tradicional preto-azul-bege relegado às roupas masculinas, acompanhados de echarpes e cachecóis ou algum outro acessório descolado de ar quase bobo, como as gravatas borboleta,  sempre dão a impressão de já ter aparecido inúmeras vezes em suas criações. Com um guarda-roupa pessoal tão incrível, já era de se imaginar que seus personagens teriam o mesmo privilégio, não é mesmo?

E você, se pudesse escolher alguém pra fazer a direção de arte das suas roupas, quem seria?

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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