25 de setembro de 2017 | Ano 4, Edição #37 | Texto: | Ilustração: Raphaela Corsi
Curar-se

Eu preciso que você coloque a mão no lado esquerdo do peito e sinta de fato pra que serve teu coração. Conseguiu sentir? Eu sei que é difícil acreditar nos clichês das revistas, e que tudo às vezes parece irreal, mas esse órgão cardiovascular bombeando sangue para todas as pequenas partes do teu corpo é teu motivo mais bonito pra se manter viva. Ter a capacidade de sentir é viver.

 

Lembra as festas? Os finais de semana, os domingos de cama, os amores e amigos. Lembra o que teve de mais bonito em tudo que a gente já viveu? A sensação do afeto. Se sentir afetada. As pessoas que nos compreendem através dos nossos olhos, os pequenos momentos de encantamento, e as dolorosas desilusões. Sentir é entender o mundo sem alguém precisar explicar. Reparar nos detalhes e recolher a verdade que há na vida. Mas só é capaz de entrar em contato com o que há em si e ao redor quem se escuta. A natureza da gente parece com todas as outras forças vivas. Nos esquecemos diariamente que somos bichos, seres racionais que construíram tendas, prédios, que estipularam códigos, regras. Que circulam entre sentimentos de alegria, euforia, ódio e rancor. Nós somos reativos ao mundo, ao outro, e invariavelmente a nós mesmos.

 

O universo vivo que somos, com suor, mãos, cérebro e coração, erra e acerta todos os dias. Sabemos, enquanto seres conscientes, quem somos e o que fazemos. Sabemos sobre nossos acertos e erros. Somos bons, somos maus. Nós estamos vivos e viver é sempre sobre ser ou estar. Quando somos só nossos, estamos em casa. E quando somos dos outros, corremos perigo. E então te pergunto: você já se magoou? Seu coração adormece? Eu preciso que você coloque sua mão e sinta que tudo ainda continua batendo. Eu preciso que você levante dessa cama agora e se dê conta de que suas pernas ainda sabem caminhar. Eu preciso que você valorize suas mãos e faça algo de útil com elas. Que toque seus cabelos, e seja grato pelos seus olhos. Você já me entende? Você já sente a raridade que é conseguir? Você sabe ler. Você tem internet. Você já viveu coisas boas, e provavelmente já comeu coisas gostosas. Eu sei que é difícil acreditar que nós valemos a pena, porque quando erramos, sentimos e acreditamos que estamos obrigatoriamente carregando esse corpo, representando-o ao mundo, e só. Mas se alguém o machucou, cabe a ti mesmo a cura. As soluções surgem do sentimento de que nós ainda estamos vivos, e por isso podemos tudo, inclusive errar. Curar-se é um gesto de autoamor. Curar-se é uma próxima chance. Mas nós só amamos o que conhecemos. Você se conhece? Você valoriza tudo que ainda tem? Você precisa começar a reparar em todas as coisas que te cercam e sentir suas emoções rememorando os porquês de estar vivo.

Escute uma música bonita, e pense que ali houve histórias. Compre umas flores e lembre- se que o mundo ainda é um lugar bom. Escute suas demandas. Respeite suas necessidades. Vá em direção ao que o teu peito exige. Tua natureza é sábia, e teu coração bate só pra você poder continuar. As coisas ao redor respiram. Aprenda a se reconhecer no mundo com elas. É natural. Eu preciso que você nunca mais se ignore, e seja fiel a si mesmo, porque se assim fizer, após te machucarem você sairá ileso. Compreender que só nós mesmos podemos nos destruir ou reconstruir é diretamente o caminho para cura. Se construa. Tire de si o peso do comprometimento com a armadura que a gente cria pra que o mundo não nos invada e destrua, e vá de peito aberto pra tudo que há de vivo em cada coisa. Não tema o prazer e a dor das sensações. E quando esquecer o porquê de sermos apenas seres vivos aprendendo a viver, rememore o ato de tocar o peito, e de se agraciar com a habilidade delicada de se afetar com a vida. Você aguenta ser você mesmo, e sentir todos que devastaram, ficaram, ou passaram por você, porque você se ama. 

Gabriela Nolasco
  • Ilustradora

Eu? aff. eu invento tudo que não posso ter, eu sonho alto, eu corro muito, eu choro no ônibus, e eu falo de amor. Ilustradora, carioca, feminista, mulher-negra-maravilhosa, um tanto quanto gata, felina e fatal. mentira. prefiro cachorros. meio contraditória. um coração e um raio. única de pai e mãe que se amam. neta de costureira. amiga das mulheres mais fodas do mundo. survivor. brava, sensível, facão na botina. mulher.

  • Sabrina Santos

    Estava precisando de uma leitura como essa. Gratidão!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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