19 de agosto de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
Cursinhos populares
Ilustração por Isadora M.

Ilustração por Isadora M.

Como bem sabemos, os vestibulares (o ENEM incluso) funcionam como filtros para selecionar, entre todas as pessoas que fazem a prova, aquelas teoricamente “melhor preparadas”. Isso implica dizer que o sistema de ensino superior brasileiro não é universal e é baseado na meritocracia. Mas o que isso significa? Em primeiro lugar, não ser universal significa que não há vagas suficientes para todas as pessoas que pretendem fazer ensino superior. Pode parecer estranho, mas em alguns países, todo mundo que sai do ensino médio que quer fazer uma faculdade tem este direito garantido, pois há vagas nas universidades públicas. Aliás, a própria palavra universidade deriva de universal. Um exemplo desse sistema é o Uruguai, onde, para entrar na universidade – que é pública-, é preciso apenas comprovar a conclusão do ensino médio, basicamente.

Em segundo lugar, e em decorrência da ausência de vagas para todas as pessoas, o sistema brasileiro é meritocrático, ou seja, é baseado no mérito para selecionar aquelas pessoas que estariam aptas a ocupar as vagas disponíveis de acordo com seu desempenho em provas que testam, vamos combinar, um monte de conteúdos extremamente descolados da realidade da maioria de nós. Por isso, falar em mérito no Brasil é muito complicado. Já parou para pensar que, historicamente, as pessoas escolhidas pelo vestibular são, de uma maneira geral, de uma mesma classe social e também de uma mesma cor? A maioria dos estudantes do ensino superior têm pele branca e são da classe média-alta: é só consultar as estatísticas fornecidas pelas fundações que promovem o vestibular, como a Fuvest, por exemplo.

Como parte da sociedade, as universidades brasileiras refletem a nossa configuração social, onde as pessoas com maior renda são as mais privilegiadas pelo “mérito”. Nesse sentido, é importante a gente se perguntar: onde estão as negras e os negros, as pessoas de mais baixa renda (e nem precisa ser tão baixa, só basta não ser de classe média-alta para encontrar maiores dificuldades), as trans, as pessoas indígenas, nas universidades? Basta fazer um simples exercício de observação para perceber que elas não ocupam os assentos de estudantes, sobretudo nos cursos de maior concorrência como Medicina, Direito, Engenharia, etc. As universidades, principalmente as públicas, são ocupadas, na maioria das vezes, por alunas e alunos provenientes de escolas de elite, caras, que têm como principal objetivo ter a maior quantidade de aprovações nas listas dos vestibulares – o que contribui para aumentar a mensalidade, propagar o ensino baseado no mérito, elitizar a educação, e assim sucessivamente, num ciclo inquebrável de privilégios.

Ainda que seja a situação que prevalece na educação hoje, as escolas de alto padrão e custo não são as únicas na disputa ainda desleal por vagas nas universidades: nesse contexto surgem os cursinhos populares. Voltados para estudantes das periferias e/ou de baixa renda, são organizações sem fins lucrativos, que visam oferecer cursos preparatórios para o vestibular com baixo custo ou até mesmo gratuitamente. Nesses lugares, as pessoas que dão aula são voluntárias, geralmente jovens estudantes das mais diversas áreas, graduados ou não.

Apesar de todas as dificuldades que ainda enfrentam, os cursinhos populares vêm se expandindo pelo Brasil, sendo oferecidos por diversos projetos e entidades, desde coletivos políticos, como a Rede Emancipa e a Uneafro, até pelas próprias universidades. Aqui em São Paulo, surgiu recentemente uma frente de articulação de vários desses cursinhos populares, confira a página deles no facebook! Tem muito material e informação bacana, incluindo um mapa com uma listagem de vários lugares (não só em São Paulo) que oferecem preparatórios e outros cursos voltados para a comunidade de baixa renda.

Se você tem interesse em fazer cursinho pré-vestibular mas não tem condições de gastar uma grana absurdamente alta nesses tradicionais, vale a pena buscar na sua cidade algum cursinho popular. Eles são uma opção certamente muito corajosa para desafiar o sistema excludente e meritocrático ainda vigente no nosso país, rumo à democratização do ensino. E uma boa notícia: não ficam nada atrás em número de aprovações!

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

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