4 de agosto de 2015 | Edição #17 | Texto: and | Ilustração: Lila Cruz
Da fábrica à mesa

De uns tempos para cá, nós criamos um tabu sobre comida processada e sua indústria. Ao comer uma comida considerada processada, por exemplo, com certeza você tem alguma noção de que o que está fazendo é ruim para a sua saúde e, às vezes, chega até a pesar um pouquinho na consciência. De fato, as comidas industrializadas de hoje em dia realmente tendem a não ser lá muito saudáveis. É só ler a lista de ingredientes que compõem certos alimentos; nós vemos a adição de químicos, como corantes, espessantes, gorduras industrializadas, sabores artificiais, conservantes e sal, muito, muito, sal. Basicamente o que a indústria vem fazendo é tirar todos os bons nutrientes de muitas comidas, e substituir e adicionar muitos outros químicos, te oferecendo, por fim, um alimento mais barato, mais gostoso, mais fácil de comer, porém, menos, mas muito menos, saudável. O que nós esquecemos, entretanto, é que comida processada nem sempre veio carregada dessa mensagem ruim e que, sim, ela pode ser saudável.

O alimento processado é, por assim dizer, tudo aquilo que não pode ser encontrado na natureza. Assar uma carne na fogueira, por exemplo, técnica desenvolvida pelos homens das cavernas, foi um dos primeiros alimentos processados da história. Isso aconteceu aproximadamente há 1,8 milhões de anos! Hoje você acreditaria se te falassem que qualquer carne feita no fogo pode ser considerada um alimento processado? Imagino que não. Isso porque uma carne passada somente no fogo pode facilmente ser considerada saudável. E é exatamente aí que nós nos confundimos. Existem muitos alimentos saudáveis que são, sim, processados. O pão, o queijo, o azeite de oliva, chocolate, mostarda, tofu, café, tudo isso é comida processada. Mas também podem ser adicionados à lista o suco em pozinho, os nuggets de frango, os refrigerantes e a salsicha. Então como decidir o que é saudável e o que não é?

Acontece que hoje em dia existem os alimentos denominados ultraprocessados. Isso mesmo, como se fosse o chefão do mal das comidas processadas! Esses alimentos são todos aqueles que passaram por diversos processos industriais. O seu propósito é substituir o alimento como nós o conhecemos, e estão longe de ser o seu equivalente encontrado na natureza. Mas por que são ruins para nós? Esses alimentos geralmente possuem uma quantidade muito grande de sal, açúcar e gorduras não saudáveis. Possuem muitas calorias, porém, zero energia boa para o corpo. Não possuem fibras, então, são absorvidos muito facilmente pelo nosso sistema digestivo, além de confundir o nosso controle da fome e serem muito, mas muito, gostosos. Não é por acaso que quando abrimos um saco de Doritos, nós não vamos parar de comer até lamber o farelo alaranjado dos nossos dedos. A comida processada, assim como uma droga, é feita para o vício. E isso tudo é muito bem bolado pela indústria.

Dia desses, li em algum lugar um fato bastante curioso: em apenas um delicioso nugget de frango quentinho existem mais de trinta ingredientes diferentes! O que deveria ser um bolinho de frango empanado com farinha de rosca tem de tudo, mas a maior parte dele não é o frango, e sim, o milho. E esse ingrediente fundamental do nugget entra na receita desde a dieta da galinha que, antes de ser levada para corte, assim como os bois, vivem de comer milho e soja na sua ração, juntamente com outros componentes criados em laboratório para deixar os bichinhos mais gordinhos – alimentos que, no caso dos bovinos, não fazem parte do seu cardápio normal, causando várias complicações digestivas que podem acabar matando o animal. Aí é que entram os criadores que combatem esses problemas, dando remédios que, mesmo sendo incrivelmente fortes, uma vez que o animal tenha criado resistência, podem ter sua eficácia reduzida, e aquelas bactérias super-resistentes que estavam se criando no organismo do boi vão parar na nossa mesa.

Todo esse papo foi para chegar num ponto: a gente não faz ideia de onde vem a comida que comemos e nem como o processo de chegada dela até nós influencia o mundo.

Como já foi dito lá em cima, a gente não larga um saco de Doritos enquanto ele não estiver vazio. Isso porque “quem” dá a palavra final sobre estar satisfeito ou não não é a nossa barriga. A grande indústria alimentícia se move em torno do que mais sacia a fome do nosso cérebro. Essa estratégia de produção começou lá no século XIX, com a revolução industrial, quando vegetais, como milho e cana-de-açúcar, foram refinados até que não restassem mais proteínas, fibras ou coisas que interessam para o nosso corpo de modo geral. O que resta interessa apenas o nosso cérebro, elementos como energia hipoconcentrada e carboidrato puro, que se juntam aos conservantes e restos de animais que, de alguma forma, deixam nossa comida muito gostosa e viciante. Entramos num ciclo. Buscamos mais comidas “porcarias” porque estamos viciados, e a indústria faz a sua parte, estudando o que mais nos dá prazer e enchendo as prateleiras dos mercados.

Para mudar os parâmetros que guiam a indústria, por mais utópica que pareça ser essa intenção, precisamos pensar em novas formas de substituir os nossos pequenos prazeres. Escolher melhor o que comemos. Na hora da feira, optar por fruta no lugar das balas e sucos naturais (lembre-se, esses sucos de caixinha são quase tudo açúcar e nada fruta!) no lugar dos refrigerantes, e prestar atenção! Não se deixar enganar pela maçã enorme e vermelha, que pode parecer bonita e gostosa, mas deve estar cheia de agrotóxicos.

O jornalista e ativista Michael Pollan criou algumas regrinhas divertidas para ajudar a gente a escolher a nossa comida na hora de comer. Uma das mais importantes é: “não coma nada que a sua avó não reconheça como comida”. A comida mudou muito de tempos para cá, a geração dos nossos avós ainda está acostumada a comer uma comida mais tradicional, mais regional, mais real, menos industrializada. Quando se trata de comida, quanto mais tradição presente, mais saudável ela será. Acontece que, aos poucos, estamos perdendo essa tradição e cedendo a nossa fome para comidas mais rápidas de serem preparadas, mais gostosas, com uma variação de alimentos cada vez menor, embora o mundo seja tão diverso quando o assunto é comida (o milho, por exemplo, reina nas prateleiras dos supermercados). Porém, todos nós sabemos que, às vezes, é muito difícil voltar à tradição quando não temos tempo para isso. Mas entre as comidas industrializadas, ainda existem algumas que podem se salvar e, aos poucos, podemos criar um hábito um pouco mais saudável. Porém, uma coisa é certa: coma vegetais, um monte deles.

Uma outra dica importantíssima é: “não coma nada industrializado que tenha mais de cinco ingredientes”. Por exemplo, caso você queria fazer uma maionese em casa, tudo que irá precisar é gema de ovo, azeite, vinagre e sal a gosto. Ao pegar uma dessas maioneses industrializadas, a lista de ingredientes é essa: óleo de soja transgênica, água, ovos pasteurizados, vinagre, açúcar, amido modificado de milho transgênico, sal, mostarda, suco de limão, acidulante ácido lático, estabilizante goma xantana, conservador sorbato de potássio, aromatizantes, antioxidantes BHA e BHT, sequestrante edta cálcio dissódico, corante sintético idêntico ao natural betacaroteno e corante natural páprica. Os quatro ingredientes originais se passaram a, calma aí, vamos contar, 17 ingredientes! Sendo que a maioria deles são coisas que nunca ouvimos falar. Sem contar que nós vemos duas vezes um dos maiores vilões, aquele que não deve ser nomeado… Eles mesmos: os alimentos transgênicos.

É claro que viver uma vida completamente saudável é muito difícil. Além dos alimentos não industriais serem mais caros, o preparo deles também requer mais tempo. Ou seja, um combo de características que dificilmente faz sentido no molde capitalista que estamos inseridos. Mas mudando um hábito aqui, outro dali, já faz bastante diferença.

Aqui na Capitolina, na sessão de Culinária e FVM, temos várias receitas maravilhosas que podem muito bem substituir os nuggets, miojos e biscoitos recheados. Além da parte legal de fazer a sua própria comida, você cozinhará uma refeição muito mais saudável e com muito mais sabor do que aqueles congelados prontos. Sem contar que você pode aproveitar o gancho do “faça você mesma” e montar a sua própria hortinha para colher os temperos na hora de cozinhar, inclusive para economizar um dinheirinho. E não precisa ter um quintal no fundo de casa, existem várias formas alternativas de montar a sua própria horta!

Ana Gabriela
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Audiovisual

Ana nasceu na Bahia em 1992. Ainda não descobriu o que vai ser quando crescer, mas aprendeu que isso não é motivo pra preocupação. Quanto mais tempo se descobrindo melhor. Gosta de ler a internet, escrever listas sobre tudo, de gatinhos e da sua cama.

Dora Leroy
  • Coordenadora de Quadrinhos
  • Ilustradora

Dora Leroy tem 21 anos e acredita que o universo é grande demais para não existir outras formas de vida inteligente por aí. E, enquanto espera uma invasão alienígena acontecer, gosta de ler livros que se passam em universos mágicos e zerar séries do Netflix.

  • http://pirlimpsiquice.blogspot.com Filipe Chamy

    boa reflexão!

    sobre esses remédios dados a animais que consumimos, eu, que tenho pavor a medicamentos (nunca tomei uma aspirina na minha vida), não chego perto do tal cupim porque sempre me falaram que é nessa “cacunda” do boi que injetam tudo que é podridão química…

    eu ando seguindo um método meio empírico: como de tudo, vejo se me sinto bem, continuo comendo, vou de tempos em tempos ao clínico geral, faço exames e vejo se tá tudo ok ou preciso mudar algo

    e agradeço se vocês postarem alternativas a esses sucos de caixinha. eu os consumo praticamente todo dia, e, como aposentei o refrigerante há anos, não encontro alternativa cotidiana melhor…

    (ah, discordo sobre Doritos: hoje eu acho esses salgadinhos de saco bem enjoativos, dificilmente consigo comer muito. exceção feita aos gloriosos OVINHOS DE AMENDOIM)

    • Dora

      uma boa substituição pro suco de caixinha é polpa de fruta! bate no liquidificador com água e pronto! ai põe numa garrafa e só! rapidão você consegue um suco bem mais saudável!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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