20 de maio de 2015 | Ano 2, Edição #14 | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
Da minha boca sai o meu universo

“Eu não quero mais te ver.”

Recebi essa mensagem e fiquei em choque. Como uma amiga minha, de anos, me diria algo assim, tão forte? Depois de algumas poucas mensagens trocadas e algumas reflexões, essa amiga me disse: “Você possui uma energia negativa. Tudo que você fala é algo ruim, é uma crítica, uma reclamação. Parece que não está satisfeita com nada.”

Não era a primeira vez que alguém havia me dito isso. Lembro que já havia explicado que me aliviava fazer isso. Era como se uma energia saísse através das minhas palavras e me tornasse mais leve. Mas por que me sentia suavizada? Por que o ato de apontar defeito para os outros me fazia bem?

Nessa mesma época, alguns pensamentos, daqueles que você foge a vida inteira, me apareceram enfim. Então, olhei para dentro de mim e me perguntei “ o que me fazia desse jeito? O que me fazia ser tão infeliz?”

A conclusão: “Da minha boca sai o meu universo.”

Como poderia falar flores se dentro de mim havia espinhos? Como alguém que se sente ruim por dentro pode sorrir de verdade?

Pela primeira vez senti meu coração pulsando matéria ruim com cometas maiores que minhas veias, por todo o meu corpo. Sorrir doía. Sorrir ainda dói. Meu corpo ainda não está 100% limpo e meu buraco negro ainda não encolheu. Ele ainda está aqui, absorvendo tudo o que vê. Mas a partir do momento que percebi o que acontecia, passei a salvar o que posso, colocando tudo bem longe dele.

E assim como o universo real e físico, o nosso metafórico se expande. Nossas palavras atingem direções e formas que não entenderemos porque não somos de outras galáxias. A minha tem um sol, a do outro tem outro e assim por diante. E cada galáxia tem um movimento diferente. Não tem como se comparar. Não dá para procurarmos algo dentro de nós, não achar igual e ficarmos nos sentindo mal com isso. Cada universo é uma história. O universo do outro, mesmo que vizinho, é diferente. E isso não é ruim. Se seguirmos interpretando assim, o que trazemos para o nosso universo são mais pedras doloridas, prontas para abater nossos planetas quando menos esperamos, destruindo cada partezinha, e o que sobra demora a ser reposto.

Mas como eu posso mudar o que há dentro de mim? Como posso transformar esse universo em algo bom para mim? Como não trazer cometas para destruir nossos mundos? Como falei, o que sai de mim é o que corre pelas minhas veias… Para começarmos a mudar nossas falas precisamos mudar nosso universo dentro da gente. Começar a se focar mais no sol quentinho e nas estrelas com brilho intenso do que nos meteoros doloridos e nos lixos astrológicos que percorrem a gente. Não é algo fácil, já que você passa um tempo assim sem perceber que está desse jeito. Mas de pouquinhos em pouquinhos, tirando tudo isso, nossa fala passa a ter mais leveza e o nosso universo expandido vem com planetas incríveis e borboletas galácticas.

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

  • Nathalia

    É muito engraçado ler isso porque hoje mesmo acordei já xingando e percebi que xingo, julgo mal, sou negativa em relação a tudo, desde o meu primeiro pensamento do dia até o último. Foi meio assustador mas vou trabalhar nisso agora.

  • Nalu

    O melhor jeito de transformar o seu universo é fazendo as pazes consigo mesma

  • Vera

    Q texto bacana, imagino que não deve ter sido fácil pra você reconhecer essa questão, mas você conseguiu expressá-la de um jeito lindo e inspirador! Parabéns!

  • Carol

    Obrigada por esse texto! <3

  • Alex Palomino

    Já ouviu falar de solipsismo?

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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