23 de abril de 2017 | Educação | Texto: and | Ilustração: Ana Maria Sena
Dá pra aprender de outro jeito, sim!

O conhecimento é uma coisa fascinante. Aprender nos transforma, transforma nossas histórias, nos faz tomar rumos que nunca imaginamos. Tentar entender, nem que seja um pouco, o que nos cerca faz com que sejamos melhores pessoas, mais compreensivas com nós mesmas e com o mundo.

Infelizmente ligamos automaticamente o conhecimento e o aprendizado ao modelo escolar com o qual estamos acostumadas: livros didáticos caretas e a figura de um mestre centralizador. Nesse modelo, não temos protagonismo em nosso próprio processo de aprendizado, vamos à escola esperando receber de nossos professores todo o conhecimento necessário para nossa formação. Assim, esquecemos que existem, ou não damos a devida atenção a outras formas de aprendizado que nos são expostas. Listamos nesse texto algumas dessas outras formas que podem (devem!) ser exploradas:

Livros “não-didáticos”

 

Como na escola aprendemos muita coisa em muito pouco tempo, os livros precisam ter um resumão de muitos assuntos e nem sempre conseguimos ir muito além disso ou do que o vestibular exige. Essa dinâmica nem sempre faz com que a história seja interessante. A ficção e livros não didáticos podem ser um caminho para aprofundar alguns assuntos e uma oportunidade para aprender um assunto por relatos, estudos históricos, etc. “O Diário de Anne Frank” (Anne Frank, 1947), por exemplo, é a reprodução do diário da adolescente judia e holandesa Anne Frank, que por dois anos viveu escondida dos nazistas em cima da fábrica de seu pai. Não é o relato dos horrores dos campos de concentração (apesar de ter morrido em um aos 15 anos), mas de uma menina se tornando adolescente no meio de uma guerra.

Histórias em quadrinhos também são importantes representantes de livros não “didáticos”, apesar de muitas vezes não serem levadas a sério ou serem encaradas apenas como “diversão sem propósito” (não há problema nenhum em ser apenas isso, mas esse não é nosso ponto). Temos inúmeros exemplos de HQ’s que tratam momentos históricos marcantes, utilizando a ilustração como uma ferramenta adicional de um jeito fantástico. É o caso dos livros de Joe Sacco, um cartunista maltês que transforma suas investigações jornalísticas em histórias em quadrinho. Em “Uma história de Saravejo”, por exemplo, Sacco retrata a vida em Saravejo, capital da Bósnia, após a guerra civil que assolou o país do ano de 1992 à 1995, através da conversa com um guia/ex-guerrilheiro. O livro faz os leitores imergirem no leste europeu, conhecendo melhor os conflitos étnicos e morais que permeiam a mentalidade das pessoas daquela região sem a frieza, a distância e os preconceitos de um livro de história do colégio.

  • Filmes e vídeos

 

“Professor que passa filme em sala de aula é porque não quer dar aula.” Tu já deve ter ouvido isso ou ter até falando isso, mas um filme bem escolhido pode ser uma ótima maneira de aprender mais sobre algum assunto. O problema é quando os professores esquecem de situar o filme ou os demonizam sem fazer as ressalvas necessárias. A gente sabe que os filmes são cheio de erros históricos que vão desde as narrativas até uma direção de arte que pecou na pesquisa, só que nem sempre esses erros são erros, mas escolhas feitas por aqueles que trabalharam no filme. E são esses detalhes que devemos pensar ao escolher uma produção ou vídeo para usar como referência.

Os filmes não tem obrigação nenhuma em serem informativos e coerentes com a história, mas com suas próprias narrativas. Os elementos fora de época encontrados em “Maria Antonieta” (Sofia Coppola, 2006) provavelmente não foram colocados lá por acidente, e o retrato da esposa de Luís XV fala mais sobre as personagens de Coppola do que a história do reinado francês. Outras vezes vamos ter que checar o outro lado para entender como algumas coisas aconteceram; esse é o caso do “Triunfo da Vontade” (Leni Riefenstahl, 1935), documentário feito a pedido de Adolf Hitler sobre o Congresso Nazista de 1934. Como uma parte da sociedade foi capaz de concordar com o massacre do povo judeu e outras minorias? Os nazistas eram ótimos na propaganda e o “Triunfo da Vontade” nos ajuda a entender isso.

Os documentários ainda carregam a ideia de que são mais dotados de verdade do que, por exemplo, a ficção, mas a partir do momento em que uma câmera é posta em cena, as pessoas agem de outra maneira, se projetam de determinadas formas; é complicado agir naturalmente ao ser observado. Os documentários também não são isentos da visão de mundo de seus diretores.

O cinema surgiu somente no final do século XIX; antes disso, não temos como fugir de releituras do passado. Mas o século passado e o nosso estão registrados em película e digitalmente. Escolher bons filmes como fonte depende também de entender um pouquinho de cinema e o contexto em que o filme é feito.

  • Documentos, jornais e cartas

 

É fácil olhar para o passado através de uma linha do tempo durante a aula e ver todos os acontecimentos, como um influenciou o outro. Mas quando vivemos o dia-a-dia, nem sempre conseguimos ver a grandeza das coisas. O interessante em acessar documentos antigos é montar esse quebra-cabeça da história e ter visões diferentes sobre um mesmo assunto. Uma guerra, por exemplo, se torna mais do que dois países lutando por determinado pedaço de terra; ela acaba sendo uma condição terrível que atinge a vida de milhares de pessoas comuns como eu e você.

Essa proximidade gerada pela interação com os registros de pessoas que viveram antes de nós é um privilégio; podemos ter acesso ao olhar os arquivos históricos de um jornal em uma biblioteca pública, ao ver fotos dos nossos pais quando eram adolescentes ou ao ler algumas cartas de nossos avós. Tudo isso são pequenos fragmentos da história, registrados por pessoas que estavam apenas vivendo e refletindo seu próprio momento histórico.

 

  • Artes

 

Da mesma forma que os documentos históricos nos inserem no cotidiano de pessoas de outras épocas, as composições artísticas, de músicas a esculturas, dizem muito sobre a sociedade na qual seus autores e autoras viveram. Podemos olhar para uma parcela de quadros da mesma época e entender qual era o padrão de beleza valorizado durante aquele período, por exemplo, ou escutar determinadas músicas e perceber quais eram as preocupações da maioria dos jovens daqueles anos.

É interessante pensar também que aquilo que artistas escolhem retratar pode estar diretamente ligado às lutas e desafios históricos que foram enfrentados pela humanidade. É o caso de mulheres como Orlan e Niki de Saint Phalle, artistas plásticas que dedicaram suas carreiras a causa feminista, inserindo suas performances, que retratavam nuances do universo feminino, em ambientes de preponderância masculina. Na mesma linha, temos Nina Simone, mulher negra que utilizou sua visibilidade para defender os direitos civis dos negros estadunidenses; ela costumava dizer que era uma obrigação artística refletir o seu tempo, e suas letras chocaram os E.U.A na década de 1960.

Nesse ponto o que vale é se manter atento, procurar mais sobre os artistas que admira e suas obras, saindo dos pontos óbvios e entendendo seus contextos. No começo pode parecer difícil, mas aos poucos a gente percebe que essa procura nos faz conhecer ainda mais músicas/quadros/artistas legais.

  • Escutar pessoas mais velhas

 

Nem todos os relatos vão estar registrados e todas as pessoas são parte dos acontecimentos que as rodeiam, independentemente de seus papéis. Podemos pegar um evento dos últimos trinta anos, como o Plano Collor do início dos anos 90, que confiscou todas as poupanças acima de 50 mil cruzados novos (equivalente a mais ou menos seis mil reais hoje em dia). Seus pais e avós certamente lembram disso. Que tal perguntar pra eles como foi? Como passaram por outros momentos históricos ou como viviam diariamente algumas coisas?

Ninguém duvida do valor das instituições de ensino. Ter uma educação formal num país como o Brasil é ter uma oportunidade de ter uma vida melhor. O acesso à educação ainda é restrito ou precário, e muitas famílias tiveram acesso à educação superior apenas há uma ou duas gerações atrás. Com este adendo, achamos importante sempre lembrar que o conhecimento pode ser adquirido de diversas maneiras, e nunca devemos menosprezar aqueles que não possuem uma educação formal.

Essa nossa lista é uma pequena amostragem de maneiras diferentes de aprender. Existem muitas outras que podem se encaixar melhor com seu estilo e assunto de interesse. Como, por exemplo, jogos e dinâmicas que podem ser interessantes para quem não consegue ficar concentrado sentado em uma cadeira olhando para frente.

Nem todas as pessoas aprendem do mesmo jeito e reconhecer a melhor maneira de te deixar interessado por um assunto é ótimo para a escola e fora dela. E nem sempre os professores vão ter tempo de colocar nossas dicas em prática, mas são coisas que vocês podem tentar fazer em casa na hora de estudar.

Ester Borges
  • Colaboradora de Educação

Desde 1997, Ester anda pelo mundo e o experimenta de forma curiosa. Talvez seja por isso que estuda relações internacionais na USP e tenta se convencer que é uma pesquisadora. Frequentemente considerada otimista, ainda não tem grandes conquistas, porém acredita que descobrirá entre o amor ao próximo e a militância política algo que fará a humanidade se relacionar melhor. Provável que já tenha lido ficção demais.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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