8 de novembro de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração:
Da série: você não é obrigada

No mês que vem, dezembro, o tema da edição aqui da Capitolina vai ser família. Em um espírito de adiantamento, vou começar as discussões em novembro mesmo.

Quantas vezes você já ouviu que “família é a coisa mais importante” e que “são eles que ficam”? Eu já ouvi milhares de vezes. E, em parte, eu concordo. Acho que ela é muito importante na nossa vida mesmo, é lá que aprendemos nossos primeiros valores (a gente discordando deles depois ou não), é lá que somos sustentadas por uma boa parte da vida.

Mas a família, assim como a escola e o Estado, é uma instituição que foi inventada pela humanidade. Ou seja, é uma das bases centrais de organização da nossa sociedade, e funciona através de certas regras. Por exemplo, quem é considerado da sua família são pessoas que tem o “mesmo” sangue que você, ou alguém com quem você casa, e em geral, as pessoas que a gente mora. E também nos disseram que são pessoas que a gente ama.

Por isso, na maioria das vezes, quando falamos de família, falamos de aceitação, harmonia, amor no seu sentido mais puro. Imagine um comercial de margarina com uma família sorrindo no café da manhã; um filme de natal onde, por mais que haja brigas, no final todos estão juntos para o que der e vier; os cartões que fazemos na escola nos dias das mães e dos pais.

Tudo isso reforça a ideia de que a família é um local de aceitação máximo, onde você pode ser você mesma e vai ser amada de qualquer forma. Talvez isso aconteça dentro da sua, e você tenha uma relação ótima e de afeto com aquelas pessoas. E se esse for o caso, valorize isso!

Mas e se não for assim? E se, na sua, tiver alguém de quem você não gosta? Essa é uma pergunta forte, que pode até causar desconforto. Também pode fazer a gente pensar sobre o que significa gostar e amar os outros. O amor e o gostar são vínculos positivos com outras pessoas, gente que te faz bem e pra quem você faz bem também. São vínculos que a gente cria, ninguém nasce gostando de nada nem de ninguém.

Acaba sendo mais difícil admitir isso dentro da própria família. É bem mais fácil dizer que não gosta do professor de geografia do que dizer, por exemplo, “eu não amo meu pai”. Isso acontece justamente pela forma como pensamos a família, como uma entidade de acolhimento e amor, como algo pra vida, como algo de sangue. Por ela ser um polo organizacional muito importante, nossa fonte de valores primários e porque vemos em todos os lugares que o “normal” é amar seus familiares. Mas eu ja falei lá em cima que família foi uma invenção da humanidade, né? Pensando assim, então, não tem nada intrínseco a nós que nos faça amar todos os nossos familiares. No geral a gente gosta deles, sim. Mas é porque crescemos com ele, porque (na maior parte das vezes) eles cuidaram da gente, porque nos alimentaram, etc; e não porque tem algo em comum dentro dos nossos organismos que faz com que a gente se ame, independente de tudo.

Então, às vezes tem pessoas nela que a gente não ama e não gosta. Se tem algum familiar que tem crenças e ideias totalmente diferentes das suas, que te trata mal (e isso acontece muito! Bem mais do que a gente gostaria), que vive te botando pra baixo, que só te cobra, você não é obrigada a ama-lo. Dividir material genético com alguém, dividir uma casa, uma “história”, não te obriga a amar essa pessoa.

Agora, claro que justamente por ser a família que sustenta a gente por um bom tempo, é bom ter uma relação pelo menos cordial com essas pessoas. Até porque não amar não significa que você precisa odiar, existe meios-termos entre o amar e o odiar. Eu aconselho a cordialidade por um simples motivo: facilita sua vida.

Família é muito importante. Importante não significa bom, nem precisa significar. Você não precisa se sentir mal se não gostar de algum familiar, mesmo que seja alguém muito próximo de você como sua mãe ou sua irmã.

Amar os outros é maravilhoso, mas melhor ainda é quando amamos quem gosta e cuida da gente de volta.

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Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

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