17 de maio de 2015 | Estilo | Texto: | Ilustração: Laura Viana
Dad bod: quem pode não ligar?

Já imaginou que louco seria se você acordasse um dia e descobrisse que ter uma barriga generosa e umas celulites se tornou algo ok? Na verdade, melhor que ok – decidiram que é até sexy! Pois bem, se você é homem, fique feliz em saber que não será necessário uma carona de Delorean de volta ao Renascimento para viver essa moleza. O Dad Bod tá aí para garantir o seu conforto.

Mas o que diabos é isso?

Basicamente, é mais uma dessas vezes – como já vimos com o normcore e com as fashionistas de perna de fora no inverno – em que resolveram catalogar como tendência algum conceito meio ridículo que já estava por aí desde sempre. Mesmo que existam pessoas com barrigas peludas proeminentes desde que a humanidade é humanidade (não, eu não tenho dados científicos para comprovar), foi só em abril de 2015 que decidiram que é trendy ter uns quilos a mais e uma carinha de quem não tá ligando muito para a própria aparência. E foi a isso que deram o nome de dad bod (body sem o ‘y’ mesmo, pra soar ainda mais tosco), ou, na minha tradução livre, corpitcho de pai.

Pense em Seth Rogen, ou Zach nome-obviamente-googlado Galifianakis ou até mesmo Leo DiCaprio uns 15 anos após Titanic: esse é tipo de corpo de que estamos falando. Aparentemente, segundo o artigo que deu origem a todo hype em torno do termo, é o que as garotas curtem, já que indica que o cara é bom de garfo, não é tão intimidador e é menos bonito que a parte feminina do relacionamento. Ironicamente, fica o cheirinho de gordofobia – a gente só gosta de caras acima do peso porque eles fazem com que a gente se sinta menos feia, né? – justamente num conceito que, em sua definição, dá uma desmontada no padrão pré-imposto, ainda que de leve, bem leve, afinal, a aceitação toca apenas os gordinhos, ninguém falou nada sobre obesidade.

Além disso, é preciso deixar bem claro que esse negócio de barriguinha, celulite e estria só funciona se você for um rapaz. Afinal, é um dad ali da primeira metade, não um mom, e ele não tá lá de graça. Apesar de, ironicamente, não ser realmente necessário ser um pai – ter um filho, e tal – para se encaixar no conceito, a parte de ser menino é indispensável.

E é bem por isso que o conceito não é bonitinho, e sim um tapa em nossas carinhas de mulher. Seria muito legal essa flexibilização toda do padrão de beleza se não fosse o fato de que a mesma mídia que celebra o corpinho de pai não poupa comentários crueis às mães. A barriguinha do Seth Rogen dá um charme a ele, um ar de cara da vizinhança, né? Mas a Kim Kardashian ficou uma baleia depois da gravidez, fez foi bem em se esconder até perder o peso! E assim seguem os padrões duplos, com as gordurinhas e a barba por fazer masculinas sendo tratadas como fofas, enquanto os pelos corporais e dobrinhas femininas são, na melhor das hipóteses, desleixo.

O que acontece com esse novo termo é, basicamente, a oficialização daquilo que já estamos cansadas de experimentar. Para eles, dad bod, beba cerveja à vontade e não se preocupe. Para nós, bikini body, dieta pré-verão, dieta pós-parto e dieta para a vida inteira, só por garantia. O que se espera de uma mãe recém-parida – e nem precisa ser celebridade para isso – é que o ponteiro da balança volte o mais rápido possível para onde estava antes de toda aquela chuva de hormônios e de, bem, um ser humano se desenvolvendo dentro do corpo em questão, ao mesmo tempo em que, meu deus, que horror aquela mãe que vai à academia com um bebê pequeno em casa, que desnaturada! Como vocês já devem ter percebido, não dá pra vencer, né? E não precisa nem falar que a cobrança não fica só pras mães – infelizmente, uns quilinhos a mais, quem dirá vários, não são exatamente o que alguma revista feminina vá colocar na lista ‘Dicas de como se tornar uma solteira cobiçada’.

É óbvio que ninguém defende que os homens passem pelo mesmo padrão cruel que a gente. Nada contra a liberdade para a barriguinha de cerveja, e para todos os tipos de corpos, muito pelo contrário – afinal, mesmo que em escala bem menor, eles também são afetados pelas cobranças físicas sociais. Mas estamos falando de um mundo em que notícias como essa, e essa, e essa são consideradas perfeitamente comuns, então não tem como negar que é um baita privilégio poder ser visto como bonitinho sem ter que cortar as batatas fritas.

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Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • itismesomeone

    Mom Bod>>>>>>>>>Dad Bod

  • http://kisuki.me Thaïs Gualberto

    Fiquei muito injuriada quando vi que tinham inventado mais essa.

  • Mafalda Luxemburgo

    Mana,você é tão lacradora e maravilhosaaaaaaaaaaaa!!!

  • http://bloglucicaroline.wordpress.com Luci Caroline

    Pra mulher sempre é mais complicado.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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