22 de junho de 2014 | Ano 1, Artes, Edição #3 | Texto: | Ilustração:
Sobre dançar
Ilustração: Bárbara Fernandes.

Ilustração: Bárbara Fernandes.

A dança acompanha os humanos desde muito muito muuuuuuuuuuito cedo. Várias vezes já foram encontradas pinturas rupestres com pessoas dançando nas paredes das cavernas, o que nos leva a achar que dança fazia parte de diversos ritos e cerimônias antigas. Existem muitos tipos de dança: balé clássico, jazz, dança contemporânea, muuuuuitas danças folclóricas, sapateado, dança do ventre, disco, salsa, tango, e eu poderia ficar aqui falando mais um monte dessas. E mesmo que você nunca tenha feito aula de nenhuma dessas modalidades, ou até se você nem sabe do que eu estou falando com esses nomes, você com certeza já dançou ouvindo sua banda favorita quando ninguém estava vendo. Porque a gente não necessariamente aprende a dançar. Dançamos porque é mais forte que a gente. Porque parece que tem algo que precisa sair do nosso corpo e que gera movimentos que, por mais horríveis que sejam, fazem todo o sentido pra gente.

Eu, por exemplo, comecei a fazer balé por acidente, aos oito anos. Queria mesmo fazer teatro, mas os horários das aulas não batiam com o horário da escola, enquanto os horários do balé batiam, além do que o teatro em que eu tinha as aulas era perto da escola, e bem, eu não queria ficar sem fazer nada. Sinceramente, eu não tinha muita vontade de fazer balé, porque eu não me sentia atraída por aquele universo de meninas que tinham que se vestir de rosa da cabeça aos pés e geralmente estão ali porque os pais mandaram ou porque alguém (bem sem noção, diga-se de passagem), disse que ali era “lugar de menina”.Por sorte, a minha professora era uma mulher maravilhosa e me ensinou que o balé não precisava ser esse mundo quadrado e cor de rosa, se eu não quisesse assim. Eu continuei fazendo aulas com ela até, mais ou menos, 11 anos, quando eu fui para uma escola de nível mais alto, da qual acabei saindo depois para uma outra escola, que era mais perto de casa, onde eu fiquei até os 14 anos. E até hoje eu não sei muito bem porque parei aí, mas desconfio de que o discurso que as professoras faziam para as minhas amigas que estavam acima do peso (acima de que peso? Quem definiu um peso que a gente não pode estar nem acima nem abaixo? Oi?) sobre como elas tinham que emagrecer para dançar bem –sendo que algumas meninas ali eram maravilhosas dançando com o corpo que tinham – e também o preconceito que os meninos que dançavam comigo sofriam todos os dias, me fizeram querer me afastar desse mundo, por mais que a minha vontade fosse viver ali e só ali para sempre.

Enfim, tudo isso pra dizer pra vocês que a dança é algo bonito e importante demais para que a gente coloque os padrões que a gente inventou (ou você acha que na Pré História só podiam dançar mulheres que vestiam calça 36?) no meio disso tudo, dizendo quem pode ou quem não pode dançar. A dança, assim como toda forma de arte, não pode se limitar a essas barreiras do nosso mundo doido da cabeça.

Uma das mulheres que entendeu a importância que a Dança tem foi a Pina Bausch. Ela começou a dançar com 15 anos (um tapa na cara de quem diz que só se pode começar a dançar quando criança) e praticamente “inventou” uma nova linguagem na dança, que tem muita presença de elementos cênicos e teatrais. Se inspirava muito nas relações e nos sentimentos humanos para criar coreografias e, em algumas peças, a coreógrafa critica o balé clássico e todas as suas “frescurinhas” Recentemente foi lançando um filme sobre ela.

                     Pina Bausch

Das companhias de dança nacionais e atuais, provavelmente a que mais se destaca é o Grupo Corpo. Tentei descrever pra vocês em palavras a importância que eles têm e a revolução que eles fizeram na dança brasileira, mas acho que a Helena Katz (crítica de dança e professora da PUC), descreve melhor do que ninguém:

“Quando se vê o GRUPO CORPO dançando, é como se as questões do trânsito entre a natureza e a cultura estivessem sendo bem respondidas. São os diversos Brasis, o passado e o futuro, o erudito e o popular, a herança estrangeira e a cor local, o urbano e o suburbano, tudo ao mesmo tempo sendo resolvido como arte. Arte brasileira. Arte do mundo.”

O grupo é mineiro, foi fundando em 1975 e sua primeira criação foi baseada na música “Maria, Maria” do Milton Nascimento – que aliás é linda, já apareceu nas nossas playlists e fala sobre uma mulher muito forte. Eles estão na ativa até hoje, com um espetáculo mais lindo que o outro, dançando dentro e fora do Brasil.

Agora, você provavelmente nunca tinha ouvido falar da Pina Bausch, nem sobre o Grupo Corpo, né? Na realidade, você conhece alguma companhia de dança importante na evolução da dança, ou algum outro bailarino ou bailarina que tenha feito história? Alias, você já chegou a ir no teatro para assistir um espetáculo de dança (a apresentação de balé da sua priminha não vale, viu)? Provavelmente não, né.

A gente normalmente tem o costume de ir a shows das nossas bandas e ir ao teatro ver alguma peça, mas é muito raro mantermos contato com a dança. E sinceramente, acho que expressar-se através do próprio corpo, sem usar palavras nem instrumentos que não nós mesmos, de carne e osso, é lindo demais para que a gente não dê a devida importância.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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