5 de novembro de 2014 | Edição #8 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Dançando com as estrelas
MovimentoAstros-IsadoraM

Para ler ouvindo: Blur – The Universal

Se você é como eu e não perde um programinha que apresente astros e estrelas exibindo todo o seu molejo e gingado, tenho a dica perfeita: vá ao planetário. Se você está com raiva de mim por ter clicado neste texto esperando uma ode à Dança dos Famosos, não feche a aba do seu navegador ainda. Vamos conversar sobre a balada – os jovens ainda falam assim? – celestial que está rolando neste segundo acima de nossas cabeças? No espaço, tudo está em movimento. Ainda que você não perceba, galáxias, planetas e estrelas traçam seus caminhos na imensidão de um universo que se expande a cada segundo. É uma coreografia intrincada e calculada que possibilita a nossa existência e a de possíveis vizinhos anônimos. Basta um passinho em falso para voltarmos a ser poeira, então garanto que esse balé é bem radical.

Minhas credenciais de cosmóloga foram conquistadas assistindo ao Neil deGrasse Tyson e procurando artigos legais na internet, portanto não vamos fazer perguntas difíceis para a tia. Hoje estamos aqui para falar sobre o básico; o suficiente para entender um pouco melhor as mecânicas invisíveis que orquestram o universo. Neste momento, esteja você deitado, sentado ou pulando, a Terra está girando em torno de seu próprio eixo e em torno do Sol. Rotação e translação, respectivamente. É graças a isso que temos dias, noites e quatro estações. Deu para ouvir seu bocejo daqui, colega. Acalme-se que eu não vou falar só de coisas que você aprendeu aos oito anos de idade. Você sabia que, além desses dois movimentos, o eixo do nosso planeta ainda oscila periodicamente a curto e longo prazo? Com todo esse sacolejo, por que a gente não sente nada? Simples: porque você, seu quarto, seu prédio, sua cidade e a própria atmosfera estão girando com ela à mesma velocidade constante. Se o movimento parasse repentinamente, ou sofresse uma aceleração brusca, nós cairíamos de costa ou sairíamos voando ou, bem, morreríamos. Nada seria como conhecemos. Esse movimento imperceptível é essencial para nossa sobrevivência no habitat ao qual nos adaptamos.

Mas a Terra não está flutuando sozinha num espaço cheio de gigantes estáticos. Todo mundo entra na roda. A gente costuma imaginar o Sol como uma bola de fogo parada no centro de tudo, um referencial imóvel. Mas não é bem assim; ele orbita em torno da Via Láctea junto com todo o sistema solar. Suas demais irmãs estrelas também se movem em suas respectivas e singulares órbitas. Satélites naturais, como a nossa Lua, rodopiam. Planetinhas órfãos flutuam solitários. Galáxias se deslocam. Partículas de gás dançam dentro das nebulosas. Até a Sandra Bullock se move.

Talvez essa inquietação toda ajude a explicar o próprio surgimento da vida em pontos do universo. A hipótese da panspermia cósmica sugere que as colisões entre planetas e corpos menores em movimento possam gerar escombros que aprisionam formas de vida microscópicas capazes de sobreviver em condições extremas. Esses destroços viajariam pelo espaço e se chocariam aleatoriamente com outros planetas. Se as condições fossem favoráveis, o organismo poderia sair de seu estado latente e se desenvolver. Não é uma teoria comprovada, mas acho o máximo pensar que a vida tenha se propagado dessa forma, como o pólen que viaja até a próxima flor agarrado numa abelha ingênua.

Mas nem precisamos ir tão longe para considerar a importância do movimento dos astros. Práticas milenares levam em conta a trajetória da Terra, da Lua, do Sol na elaboração de técnicas agrícolas. E isso não é coisa de egípcios ultrapassados. O ensino de astronomia no meio rural ajuda a coordenar a poda, a colheita e o plantio de vegetais para aumentar a eficiência e reduzir anomalias. A força gravitacional que nosso satélite natural exerce sobre a Terra varia durante o seu ciclo, influenciando a fixação de raízes no solo, por exemplo. Juntos, o Sol e a Lua também afetam a superfície dos oceanos determinando o comportamento das marés. Alguns cientistas até consideram a hipótese de que o movimento e a influência de planetas como Júpiter no Sol afetam a vida aqui na Terra, motivando picos e depressões nas atividades de nossa estrela. Nem entramos no papo espiritual, mas já podemos afirmar que todos estamos, sim, conectados nessa dança.

E já que o gancho apareceu, vamos tratar de esoterismo. Astrólogos e amantes da prática consideram que esses deslocamentos afetam nossas histórias individuais de forma ainda mais incisiva. Quando Mercúrio realiza um movimento de retrocesso em relação a nós, conhecedores do assunto dizem que acordos e contratos devem ser evitados porque podem resultar em desentendimento. Essa mesma atividade em Vênus poderia afetar os seus relacionamentos amorosos, alterando a dinâmica do convívio por um tempo. Já a retrogradação de Marte nos deixaria mais propensos a demonstrar agressividade. Nada disso é Ciência, com letra maiúscula, mas faz parte de um sistema de crenças compartilhado por vários povos.

Quer conhecer mais? Quer ver tudo isso na prática? Que tal retornar ao meu primeiro conselho e visitar um planetário? Deixo aqui uma lista de locais no Brasil para observar o céu, acompanhada por uma música adorável que poetiza a dança do nosso sistema planetário.

 

Lorena Piñeiro
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Lorena tem 26 anos e mora no Rio, embora tenha crescido nos subúrbios da Internet. Trabalha com análise de roteiros televisivos, avalia manuscritos literários, traduz e revisa obras em inglês e escreve por aí. É igualmente fascinada pelo gracioso e pelo grotesco. Adora filmes de terror, livros de fantasia, arte surrealista e qualquer coisa que não carregue o mínimo semblante de realidade. Tem empatia até por objetos inanimados e queria ser um urso ?•?•?

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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