2 de abril de 2015 | Artes | Texto: and | Ilustração:
Dançarinos do CCSP: a juventude refletida nas vidraças públicas

Transcrição por Ana Gabriela

Muita gente que vive em São Paulo ou na região metropolitana já foi ao Centro Cultural São Paulo. O espaço é acessível, grande e público, cheio de pessoas, é o ponto de encontro de muitos grupos de dança jovens e independentes. Nós, que às vezes frequentamos o lugar, sempre ficávamos curiosas sobre esses dançarinos que sempre nos pareceram tão descolados. Quem são? Onde vivem? O que comem?

Queríamos muito saber. Os grupos de jovens são muitos, e se organizam à sua maneira, mas olhando de fora, não conseguíamos entender totalmente. Não sabíamos direito nem qual tipo de música eles dançam! Achamos então que este mistério precisava ser resolvido. Fomos ao CCSP em um domingo ensolarado e cheio de gente, e lá entrevistamos três grupos de dança diferentes. O resultado, interessantíssimo e descoladíssimo, está aí embaixo.

Grupo 1: KNRG

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Capitolina: Sem um intuito muito filosófico, quem são vocês?
Grupo: KNRG.

Capitolina: Vocês têm quantos anos?
Grupo: Entre 17 e 20 anos.

Capitolina: Como se conheceram?
Grupo: A maioria foi por conhecidos, um apresentando o outro.

Capitolina: E como descobriram esse lance da dança em comum?
Grupo: Acho que em eventos de anime, a maioria curte pelo menos um pouco. Daí foi misturando, uns gostavam de anime, outros gostavam mais de k-pop, e assim foi juntando.

Capitolina: E por que vocês resolveram vir dançar aqui no CCSP?
Grupo: Como aqui é um espaço público, é bem mais aberto e mais livre pra gente poder dançar onde a gente quiser. A gente tem muito mais contato com as pessoas daqui, podemos nos encontrar com nossos amigos que também dançam e é de fácil acesso.

 Capitolina: Vocês não se sentem envergonhados? Porque como vocês mesmo falaram, é um espaço público, pessoas aleatórias passam por aqui e veem vocês dançando…
Grupo: Eu imagino que 70% das pessoas que estão aqui dançam alguma coisa, então ninguém olha e fala “nossa, que estranho”. A maioria das pessoas que vêm de fora pra assistir alguma peça ou qualquer coisa do tipo olha e fica “nossa! o que eles estão dançando?”, meio que admirando. Elas chegam até a perguntar o que a gente está dançando, se a gente tem grupo, página no Facebook.

Capitolina: E o que vocês estão dançando?
Grupo: A gente dança k-pop, que é meio que cover de grupos coreanos, e é basicamente isso. A gente faz apresentações, participa de competições.

 Capitolina: Mas são eventos mais específicos pra esse tipo de dança?
Grupo: É, são eventos mais específicos por causa do estilo.

 Capitolina: Como vocês veem a mulher na dança?
Grupo (meninas): A gente toma mais como exemplo. Quando a gente faz um cover, a gente tenta fazer o nosso melhor para que fique tão bom quanto elas fazendo.

 Capitolina: Mas vocês sentem que tem um espaço legal pras meninas?
Grupo: Na verdade, a gente vê que, principalmente em grupo feminino, a maioria das coreografias são muito sexualizadas. A gente vê as coreografias masculinas e são melhores trabalhadas e, em comparação com os grupos femininos, tem uma diferença, sim. Tanto que a gente também faz cover de grupo masculino.

 Capitolina: E por que dançar? Qual a vibe?
Grupo: Dançar é um hobby incrível, dá um sentimento maravilhoso, dá uma sensação de que a gente tá vivo, sabe? Dançar, subir num palco, o sentimento de estar num palco apresentando com seus amigos, uma música que você sente, uma batida muito boa… Não tem como explicar, é uma coisa maravilhosa. Não se trata só de escutar a música, mas de sentir a música.

 Capitolina: Vocês se sentem descolados fazendo isso?
Grupo: Eu acho que não, é um estilo que a gente faz que as pessoas veem de uma forma diferente. Mas no momento que a gente dança, eles percebem que não é uma coisa tão simples, a gente realmente tem um nível de dificuldade, não é uma coisa comum que se aprende em um dia, a gente ensaia muito e o que a gente mais tenta fazer é com que fique bonito pra se apresentar em uma competição. Mas sem essa de ser descolados.

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Grupo 2: Dribblet Dance Cover

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 Capitolina: Quem são vocês?
Grupo: A gente é o grupo Dribblet Dance Cover. A gente faz covers de k-pop e a gente tá começando a fazer de alguns tipos de música americana. A gente é um grupo de cinco meninas, de 17 e 20 anos. Nosso grupo existe desde 2009, mas começamos a pegar firme mesmo em 2013, mas a gente vinha tentando mesmo desde 2009. Como a gente ainda era muito nova, ainda não levava tanto a sério ensaio, gravar…

 Capitolina: Onde vocês se conheceram?
Grupo: A gente estudava na mesma escola, só que a gente não se falava muito, mas aí a gente fazia aula de inglês na mesma sala e eu mostrei o k-pop pra ela, apresentei esse mundo e a gente decidiu criar um grupo, só que não tinha muita gente ainda. Daí tem uma que nós conhecemos pela internet, outra foi indicação de uma amiga e outra a gente conheceu dançando aqui sozinha, ela dança muito bem e decidimos chamá-la.

 Capitolina: E como é que vocês se organizam pra vir pra cá ensaiar?
Grupo: Geralmente a gente faz os nossos ensaios no domingo porque tem muita gente dançando aqui, então a gente tá entre pessoas que gostam da mesma coisa. A gente procura dançar uma música que todo mundo goste, daí, quando todo mundo pode, a gente vem, às vezes a gente faz em três… Aí vem quando dá pra vir.

 Capitolina: E por que vocês resolveram vir dançar aqui no CCSP?
Grupo: É tradição aqui, todo mundo vem pra cá. E a questão de ter essa parte de vidro mais ou menos espelhada… é o que a gente consegue. Grupo que não tem condição de alugar um espaço pra ensaiar, é muito difícil. Qualquer prédio que for espelhado, a galera se junta lá e vai ensaiar.

 Capitolina: Como é que vocês se sentem dançando num lugar público, com várias pessoas aleatórias passando?
Grupo: No começo a gente ficava um pouco tímida, de verdade. Mas a gente vê como um treino porque, como grupo, a gente também se apresenta, então se a gente tem vergonha de se apresentar pra pessoas aleatórias, a gente não vai conseguir subir num palco e fazer o que a gente gosta de fazer. Então no começo incomodava um pouquinho, mas como tem muita gente dançando e é k-popper, a gente acostumou.

 Capitolina: Vocês fazem muitas apresentações?
Grupo: Como a gente ainda tá no começo, não tem muita apresentação. Mas geralmente tem concurso que o próprio pessoal daqui organiza. Tem o Lucas, que é o cara que organiza todos os eventos daqui, ele organiza um concurso na parte de dentro, às vezes tem festival coreano, festival de comida que chama a gente pra apresentar. Tem também festivais de anime, onde acontecem concursos mundiais.

 Capitolina: Como é que vocês veem as mulheres nesse ambiente da dança e principalmente do k-pop?
Grupo: A maioria dos grupos são femininos, grupo masculino é mais difícil, e até os masculinos fazem coreografias femininas.

Capitolina: E grupos femininos fazem coreografias masculinas?
Grupo: Fazem. É mais difícil, mas fazem. Pros meninos, se afeminar é mais fácil do que uma menina fazer um movimento mais forte, masculino. Mas dá pra fazer. Em geral, grupos de meninas que dançam coreografia masculina estão mais focadas em coreografias masculinas. Nosso grupo é só coreografia feminina porque a gente não consegue, mas estamos trabalhando nisso.

Capitolina: E por que dançar? Qual a vibe?
1 – Eu danço porque eu me sinto muito bem dançando, quando eu tô com raiva ou qualquer coisa, eu danço e já me liberto disso. Acho que eu não tenho outro jeito de expressar o meus sentimentos sem ser a dança.
2 – É meio como se fosse uma terapia, a gente se sente bem dançando. E une o útil ao agradável, porque a gente também gosta de k-pop, e aí une com a dança.
3 – Eu faço dança desde que nasci, fiz ballet, fiz dança do ventre, fiz jazz, gosto de todos os estilos, fiz até dança clássica. Então a gente veio mais pela dança, não foi muito pelo k-pop em si.

Capitolina: Vocês se sentem descolados fazendo isso?
Grupo: não! sério, a gente tem até vergonha, às vezes, de fazer isso em público e de achar que as pessoas tão falando “meu! o que é isso?! para! tá feio!”

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Grupo 3: YMV

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Capitolina: Quem são vocês?
Grupo: O nome do nosso grupo é YMV. Eu sou a líder, Vanessa, e nós somos covers de grupos coreanos. Nós somos covers dancers, então nós só pegamos a parte da dança, não cantamos, só dublamos e dançamos. Nós participamos de competições, apresentações, participação especial em eventos culturais. Nosso grupo até agora só dançou boyband, ou seja, grupos masculinos. Eu tenho de 19 anos. (O restante do grupo está entre 17 e 19 anos)

Capitolina: Hoje em dia vocês só fazem covers de grupos masculinos, por quê?
Grupo: Porque é o que chama atenção, geralmente, as coreografias masculinas são muito melhores do que as femininas.

Capitolina: E por que acham isso?
1- Porque elas têm um maior impacto, os passos são muito melhores.
2- Isso é uma opinião sua, porque eu não acho isso. Uma coreografia como “Mamma mia” que tem um impacto muito feminino, com certeza é muito melhor do que muitas coreografias masculinas. Não vamos generalizar. Há grupos masculinos muito bons, nossa preferência é masculina porque o nosso estilo é mais voltado para esse lado, porém, a gente não deixa de aprender as coreografias femininas, porque isso também ajuda muito a gente.
3 – As coreografias femininas ajudam muito pra pegar leveza nos passos, ajudam a marcar muito mais e a ter noção de tempo também. A maioria delas é muito mais delicada e tem os passos muito marcados, e isso ajuda numa coreografia masculina, que é rápida, tem passos muito fortes e marcados.
2- Além da estética do movimento, coreografias femininas são muito ligadas a esta questão de beleza dos movimentos.
3- Na Coreia, claro que existem as exceções, mas na maioria dos grupos, se você pesquisar, vai perceber que os grupos extremamente fofinhos são femininos e a parte masculina é realmente “eu sou homem!”, então ela quer mostrar isso. É uma música muito mais forte, e até nas músicas femininas têm o canto e a parte que para pra entrar o rapper, e no grupo masculino isso é muito mais frequente, tem grupos que são praticamente todos rappers, pra ter até uma coreografia mais forte, uma batida mais forte na música.

Capitolina: vocês acham que existe então esteriótipos marcados no k-pop? Homem é tal coisa, mulher é tal coisa, e aí não existe uma coreografia que não é de nada, por exemplo.
1- não. A mulher vai servir como mais sexy ou fofa e o homem vai ser sempre o bad boy.
2- Mas claro que tem todas as suas exceções, a gente nao pode generalizar. Porém, elas são muito raras e toda essa esteriotipagem é muito marcada.
3- E assim, como o k-pop é muito esteriotipado, o grupo que tenta se diferenciar são menos conhecidos e fazem menos sucesso, porque eles não fazem o que a moda pede.

Capitolina: E por que vocês resolveram vir dançar aqui no CCSP?
Grupo: além de ser um ponto em comum para todas as pessoas, porque, por exemplo, eles moram em São Paulo, nós três moramos em Guarulhos, então é um ponto em comum, mesmo que nao seja perto. Além disso, tem um bom espaço, as relações entre os grupos é uma coisa importante, a gente arranja novos amigos e, até mesmo, ajuda.

Capitolina: como vocês se conheceram?
Grupo: a maioria foi aqui. A gente se conheceu aqui, dançando uma música em comum. Eu tava dançando uma música, ele entrou no meio… acontece muito… eu trouxe ele, que era seu melhor amigo, apresentou, a gente gostou e virou do grupo também. Ele ajudava a treinar o nosso grupo, a ver as coreografias, a sincronizar… mas é assim mesmo, em ponto de encontro de k-pop acontece muito isso, de você acabar encontrando pessoas que gostam das mesmas bandas, então isso faz com que haja uma aproximação maior. Gostos em comum montam um grupo melhor.

Capitolina: como é que é ser a única menina do grupo, dançando coreografias masculinas?
Vanessa: eu sou a única mulher do grupo, mas inicialmente eu não era, tinha outras garotas. Antigamente era só um menino e o restante era de meninas. Mas como uma vai estudar, a outra trabalha, acaba não tendo tanto tempo, há desencontro mesmo de horário. Acaba que um vai ter que sair e outro vai entrando. Então nao foi uma coisa proposital, desde que eu conheci o k-pop, eu passei três anos só dançando em grupos femininos, meu primeiro contato com boy band foi aqui. Pra mim é normal, temos uma amizade e, além disso, os gostos em comum. As pessoas olham pra você de diversas maneiras: ou [falam que] você é lésbica, ou [falam que] você pega todo mundo do grupo, e realmente não é isso que acontece.

Capitolina: rola esses preconceitos?
Vanessa: rola! mesmo que não seja aparente, acaba rolando nas entrelinhas. É uma coisa muito falada por trás. As pessoas que assistem ao nosso grupo, às vezes, realmente dão aquela olhada meio “ou acontece alguma coisa ou é homossexual” e não é o que acontece… a gente não se sente mal por isso.

Capitolina: vocês se sentem descolados dançando?
1- olha, de vez em quando. Na verdade, ajudou a ficar, mas descolado no sentido de “desinibido”.
2- na minha opinião, eu encaro como se fosse um exercício, um treino, não só físico, mas social, eu era muito timido há um tempo, eu tinha pouca facilidade de lidar com pessoas estranhas e isso é bom porque tem me ajudado muito. Além do que, é um exercicio legal e eu tô fazendo com meus amigos, que é uma coisa muito legal pra mim.

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***

Extra 1:

Estávamos já indo embora quando encontramos este rapaz de fones de ouvido dançando m-u-i-t-o. Não tinha como passarmos reto sem falarmos com ele. Descobrimos que se chama Hiago da Silva e dança House Dance.

***

Extra 2:

Estávamos de novo seguindo nossos rumos, indo embora do rolê, quando pensamos: mas e nós? Se a ideia é que, nas vidraças do CCSP, todo mundo pode dançar, parecia inconcebível que nós, justamente nós, saíssemos sem dar uns remelexos. O resultado não deu muito certo mas, como não temos noção do ridículo (ainda bem!), aí está:

Nos divertimos muito e incentivamos todas as meninas a deixarem a vergonha de lado e dançarem – seja k-pop, seja como uma alga no mar – muito pelas vidraças que encontrarem mundo afora!

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Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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