17 de agosto de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
De Barrados no Baile a Faking it: uma viagem ao mundo adolescente na TV

A primeira série que eu lembro de assistir e gostar muito, do tipo decorar as falas e ver e rever os episódios sem cansar se chamava Clarissa (Clarissa Explains It All, 1991-1994). Ela não era exatamente uma série adolescente, era mais uma série infantil, porém, nos meus olhos de 8 anos, o mundo de Clarissa era adolescente o suficiente, por mais que eu ainda não soubesse o que era isso. A Clarissa era a personagem mais “cool” que eu conhecia até então (e ainda é uma das mais). Eu adorava ver todos os dramas, todas as ideias mirabolantes, todos os medos, todas as felicidades que a Clarissa passava. Ela ainda falava com a câmera, então era de fato como se ela conversasse comigo e me apresentasse a esse mundo incrível que são as séries adolescentes. Fui fisgada para sempre.

Se você vive em uma rocha ou nunca viu um seriado na vida, saiba que existe todo um gênero de programas de televisão dedicados a retratarem esse momento estranho, bizarro e complicado das nossas vidas, a tal adolescência. Eu, antes mesmo de ser adolescente, e ainda agora que teoricamente não sou mais uma, tenho esse gênero como um dos meus preferidos. Apesar de para mim ser muito difícil colocar em palavras todo esse amor, vou tentar explicar esse encantamento neste texto.

Pra mim é muito curioso como as experiências que passamos na adolescência são muito amplificadas — o que é compreensível, pois estamos vivenciando a maior parte dessas coisas pela primeira vez, logo faz sentido ser intenso, faz sentido dar medo, já que é tudo tão novo. Assim, o drama é um dos fatores principais de um bom seriado adolescente. Inclusive há várias séries que elevam isso à quinta potência: não basta apenas ser seu primeiro namorado, ele vai ser um alcoólatra; sua primeira viagem sozinha sem pais? Sua melhor amiga vai ter uma overdose em Tijuana.

Barrados no Baile / Divulgação FOX

Barrados no Baile / Divulgação FOX

 

Falando em dramas intensos, não posso deixar de falar da minha querida e eterna Barrados no baile (Beverly Hills, 9210, 1990-2000). A série contava a história dos irmãos gêmeos Brandon e Brenda, que se mudaram da pacata Minnesota para a badalada Beverly Hills no alto de seus 16 anos. A série teve dez temporadas de muito, muito D-R-A-M-A. Fale um assunto polêmico, teve na série. Drogas, gravidez na adolescência, alcoolismo, distúrbios alimentares, pressões familiares, tudo que pode causar lágrimas e tensão aconteceu em algum momento em Barrados no baile. Nem sempre era tratado da melhor forma, com pouquíssima representatividade, porém estava lá. Foi uma das primeiras séries que eu vi e que foi um fenômeno mundial, e é o pai e a mãe de todos os outros seriados que vou falar aqui.

Dawson's Creek / Divulgação Warner

Dawson’s Creek / Divulgação Warner

 

Outro ponto marcante nas séries adolescentes é o romance. Nossa, os romances (insira aqui um suspiro). Muito porque também são nossas primeiras experiências com amor, os romances adolescentes tendem a ser superintensos. Do primeiro beijo ao primeiro término, achamos que tudo vai ser para sempre ou o fim das nossas vidas (novidade: nem é). De qualquer forma, casais fictícios adolescentes têm uma maneira muito especial de derreter meu coração. Não teve triângulo amoroso mais bem-feito do que Dawson, Joey e Pacey. Aqui estou falando de Dawson’s Creek (1998-2003), uma série que se passava em uma cidade de interior, centrada na vida de Dawson, um jovem que sonhava em fazer filmes como profissão. Sua melhor amiga, Joey, era secretamente apaixonada por ele e, a partir daí, são diversos momentos de fofura, tristeza e muitos sentimentos. Lá para a terceira temporada (a partir daqui tem spoilers, se você não quer saber, pule para o próximo parágrafo), Pacey, que também era melhor amigo de Dawson, acaba se apaixonando por Joey, que a essa altura já teve diversas idas e vindas no relacionamento amoroso com Dawson. Ela fica extremamente confusa em relação ao que quer ou ao que sente — e nós, que estamos assistindo, também —, culminando com a cena em que Dawson pede para que Joey siga em frente e vá passar as férias com Pacey, porque ele sabe que é isso que ela quer e não tem coragem de fazer. Então, ele a ama o suficiente para colocar a felicidade dela na frente do desejo de ficar com ela. Cara, como não chorar nessa cena? “Você quer ele como eu te quero, você ama ele como eu te amo, a diferença é que ele te ama também.” Choro todas as vezes que vejo (testei agora e vi a cena no YouTube, chorei de novo). Vale falar que Dawson’s Creek tem um jeito muito especial de falar de amor. É inocente quando tem que ser, é dramático quando tem que ser, é delicado, é meigo. Foi uma das primeiras séries com um casal gay que eu vi, e aprendi várias lições sobre o amor a assistindo.

Nessa viagem ao universo adolescente televisivo, precisamos passar pelos grupinhos, as panelinhas, as tribos que inevitavelmente acontecem dentro da dinâmica escolar. Isso pode ser bem prejudicial e triste, com a supervalorização dos populares e a depreciação dos que não são. Ainda temos que lidar com a necessidade de sermos encaixadas em algum canto e não necessariamente ser o canto que queremos estar. Séries como Freaks and Geeks (1999-2000), sobre a qual já falamos aqui, falam muito principalmente dos grupos que são considerados menores e piores dos que eu falei ali em cima. A série o tempo todo nos mostra que não é aqui que vamos ver a história da líder de torcida, que geralmente é mais retratada nos filmes e séries, e sim a história dos nerds, dos fracassados. Aqui vamos mostrar o quão complexos e especiais eles são, muito mais do que esses rótulos. My Mad Fat Diary (2013-2015) é outra série sobre a qual já falamos aqui e que também retrata como é fazer parte de um grupo de amigos, como é complicado essa coisa de querer fazer parte de algo, mas também como amizades podem ser uma forma de apoio importante quando estamos passando por um período difícil. Vale lembrar que outro ponto extremamente positivo de My Mad Fat Diary é a representatividade e o impacto que é ter uma menina gorda como protagonista — coisa que quase todas as outras séries que eu falo aqui falham bastante, tendo somente protagonistas magras e brancas.

My So-Called Life / Divulgação ABC

My So-Called Life / Divulgação ABC

Outra coisa que Freaks and Geeks e My Mad Fat Diary têm em comum é que nenhuma das duas idealiza a adolescência, ambas retratam essa época da vida como complexa e difícil — como ela de fato é. Eu adoro as outras séries que falei, mas quando você vê Barrados no baile, os problemas deles estão um pouco mais distantes do seu mundo e você acaba sendo seduzida pelas praias, sorrisos e gente bonita, até acabar esquecendo quão complicada essa época pode ser. My So Called Life (1994-1995) é mais uma série que era bem pautada na realidade. Claire Danes era Angela, uma jovem de 16 anos que vivia a vida de ter 16 anos e era isso, era complexa pra caramba. Angela tem que lidar com diversas mudanças no seu corpo e também de interesses pessoais, pressão familiar, boatos maldosos na escola e por aí vai A série também lidou com problemas mais pesados, como homofobia e alcoolismo — coisas que Barrados no baile retratou, mas aqui era diferente, era mais real. Em My So Called Life, Angela não está feliz, se sente vazia a maior parte do tempo, reflete sobre questões existenciais constantemente e acabamos refletindo com ela. Uma das minhas falas preferidas da série, e que resume muito o que eu estou falando, é “As pessoas vivem me dizendo que nós temos que ser nós mesmos, como se ser nós mesmos fosse essa coisa única e sólida e como se a gente soubesse o que é isso”.

Veronica Mars / Divulgação The CW

Veronica Mars / Divulgação The CW

Eu não gosto muito de mistura de gêneros em séries adolescentes. Como falei no parágrafo anterior, ser adolescente já é difícil o suficiente, não precisa ser vampiro também, não precisa ser bruxa. Para mim, essas coisas só atrapalham, não precisa. Só que de vez em quando surge uma série que mistura gêneros tão bem que não me importo, acabo amando. É o caso de Veronica Mars (2004-2007). A protagonista que dá o nome à série vai junto com Clarissa pro hall dos personagens mais “cool”: ela é sarcástica, divertida e tão interessante. Veronica tem 16 anos e era popular, tinha um namorado atraente, até que sua melhor amiga morre e seu mundo vira de cabeça pra baixo. Seu pai é um detetive particular e Veronica acaba trabalhando como sua assistente e usa as habilidades que aprendeu com o pai para desvendar pequenos mistérios na escola e ganhar um dinheiro extra, tudo isso junto com o fato de ser uma adolescente. A série é uma ótima mistura de investigação e adolescência. Outra série que fez uma ótima mistura, dessa vez de sci-fi com adolescência, foi Roswell (1999-2002). Pegou-se todos os rumores e teorias da conspiração de que nessa cidade houve um contato com extraterrestres e contaram a história de três jovens. Eles iam para a escola, viviam a vida e também eram aliens. Assim, tinham que lidar com poderes sobre-humanos, o FBI os perseguindo e todos os problemas da adolescência também. Com personagens multifacetados, é uma mistura boa e saudável para acompanharmos.

Faking It / Divulgação MTV

Faking It / Divulgação MTV

Acabou que esse texto ficou cheio de séries dos anos 1990 e início dos anos 2000 (entregando a garota anos 90 que realmente sou!), mas quero falar agora de duas séries atuais que eu vejo e adoro: Awkward (2011) e Faking It (2014). A primeira é sobre Jenna, uma garota desajeitada e meio invisível na escola. Ela passa a ser notada depois de uma série de eventos bizarros que fazem todos acreditarem que ela tentou se matar, quando a verdade está longe disso. A segunda fala sobre Karma e Amy, duas melhores amigas que estudam em uma escola onde o diferente é abraçado. Em uma loucura para serem populares e notadas, elas resolvem fingir ser um casal de lésbicas. Estou falando das duas séries juntas porque elas têm a mesma vibe, falam de assuntos supersensíveis. Jenna é extremamente insegura e se autossabota o tempo inteiro; Amy acaba se confundindo nesse teatro e começa a questionar sua própria sexualidade, no entanto, o assunto é abordado de uma maneira muito leve e divertida — mas nunca tirando o peso que essas coisas têm. O mérito das duas séries é justamente esse: o equilíbrio, te fazer rir e chorar tudo ao mesmo tempo em uma mesma cena. É um tom bem diferente do que eu estou acostumada em séries adolescentes.

Pedro e Bianca / Divulgação TV Cultura

Pedro e Bianca / Divulgação TV Cultura

Só falei até o momento de séries americanas e britânicas, que são as mais populares e difundidas, portanto, acabam sendo as que mais consumimos. Porém, há duas séries nacionais excelentes que quero falar aqui, ambas da TV Cultura. A primeira é Tudo o que é sólido pode derreter (2009). Na verdade, ela é uma minissérie de apenas treze episódios, que foi inspirada em um curta do mesmo nome. A série conta a história de Theresa, uma menina de 15 anos que está iniciando o primeiro ano do ensino médio. Theresa é apaixonada por literatura e todos os livros que lê acabam sendo transportados para os acontecimentos de sua vida. Cada episódio é nomeado como um livro clássico que Theresa está lendo no momento. No início da série ela tinha acabado de perder seu tio, só que ele resolve aparecer para ela em diversos momentos. É com ele que ela tem os diálogos e reflexões mais interessantes, tanto sobre os livros quanto sobre sua vida. A outra série é Pedro e Bianca (2012-2014), na qual conhecemos a história dos irmãos gêmeos que dão nome ao programa. Eles também começam a série no primeiro dia de aula do ensino médio em um colégio estadual de São Paulo, com todas as dúvidas, inseguranças e medos de adolescentes de 15 anos. O nascimento deles é conhecido como um milagre, pois Pedro é branco e Bianca é negra. Já em seu primeiro episódio, o seriado aborda muito bem questões raciais, com todo um arco de Bianca rejeitando e depois aceitando seu cabelo crespo. Outro ponto forte da série é o relacionamento dos dois protagonistas, cheio de brigas e implicâncias naturais entre irmãos, mas também é repleto de amor, proteção e cumplicidade. A série também dá uma aula de representatividade; além de a protagonista ser negra, há uma personagem bissexual, uma aluna imigrante boliviana e um personagem cadeirante. A série tenta de fato dar voz aos diferentes tipos de jovens que existem, não só ao padrão básico que conhecemos em todas as séries.

Agora, já que estamos falando sobre representatividade, quero me alongar um pouco mais nesse assunto. Não podemos deixar de notar que de todas as séries faladas aqui até agora, todas as protagonistas são brancas (com exceção de Bianca), são magras (com exceção de My Mad Fat Diary), são héteros (com exceção de Faking It) e todas também são cis. Claro que este texto tem um recorte para os produtos que eu consumi, mas é impossível negar que a maior parte das produções audiovisuais, não só séries e não só para adolescentes, falham demais em representar os diferentes tipos de meninas, mulheres e pessoas que existem. Representação por si só é importante, mas quando falamos de produtos para adolescentes, isso é ainda mais importante, pois é nessa fase que estamos nos construindo mais intensamente. Olhar para a TV ou para o cinema e não se encontrar é muito problemático, passa a sensação de que você e suas questões particulares não importam, de que você não existe.

As visões de Raven / Divulgação Disney Channel

As visões de Raven / Divulgação Disney Channel

A Amanda falou neste texto aqui sobre a importância da representatividade negra no mundo das séries, e quero fechar falando de mais uma das poucas protagonistas negras que achamos nesse mar de meninas brancas, a Raven de As visões da Raven (That’s So Raven, 2003-2007). Assim como Clarissa, a série tem um tom mais infantil, mas não deixa de retratar o mundo adolescente de Raven, que é uma jovem com o dom de prever o que vai acontecer no futuro próximo. Assim, para evitar que as premonições aconteçam, ela acaba se metendo em situações complicadas e bem divertidas, vivendo também sua vida de adolescente. Raven é uma excelente comediante, é sarcástica e inteligente, e a série é mais leve e tem esse foco na comédia, sendo bem gostosa de assistir, além de ser muito interessante e importante termos uma protagonista e uma família negra para variar. Infelizmente só conseguimos citar neste texto essas poucas protagonistas diferentes do padrão. Se você conhece outras, fala pra gente nos comentários.

Faltou um monte de série, de cabeça já consigo pensar em Gilmore Girls (2000-2007), Glee (2009-2015), Buffy (1997-2003) e a lista segue muito longa. No entanto, acho que deixei minha mensagem de que o mundo das séries adolescentes é gigantesco e tem muito a ser explorado. Existe um preconceito muito grande, principalmente de críticos (ou de pessoas psedoentendedoras de tudo), que acreditam que séries adolescentes (ou produtos direcionados a adolescentes de modo geral) são de qualidade inferior, o que é totalmente abobrinha. Olha só a quantidade de pontos que abordei só neste texto — e se deixassem, falaria mais e mais. As pessoas têm uma dificuldade de entender que a vida de um adolescente, principalmente se for mulher, é superconfusa e complicada. Parece que o tempo passou e elas simplesmente esqueceram o quão difícil foi essa fase e quantos produtos bons podem sair daí. Agora que falei de um monte de séries, você já pode pegar a pipoca e entrar nesse mundo mágico.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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