7 de maio de 2015 | Edição #14 | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
De n00b pra n00b, um tour guiado pela WWW

Se estamos nos comunicando neste momento, cara leitora, é apenas graças a essa incrível prova de que o ser humano não é lá de se jogar fora chamada “internet”. Não que você, nascida nestes últimos vinte anos, não saiba muito bem do que estamos falando – não é minha intenção, de maneira alguma, menosprezar seus conhecimentos sobre essa grande névoa de wi-fi que cerca nossas vidas neste 2015.

O que acontece é que, imensa como é, essa terra de ninguém que é a rede mundial de computadores pode guardar algumas ciladas. Então nós da Capitolina, nascidas e criadas nos cantos mais estranhos da web, estamos aqui para te ensinar a diferenciar meme de mene (spoiler: é igual, mas é diferente), a dificultar a vida do estagiário da ABIN que quer dar uma lida nas suas conversas de Facebook e a descobrir por onde pisar por esses solos pantanosos. Sente-se de forma confortável, prepare os tendões do pulso e procure a parte da casa em que a conexão fica com cinco barrinhas de qualidade, que vamos começar nossa jornada:

 

Quem é esse Pokémon?

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Em seu solitário começo, lá por 1960, o projeto do que hoje é nossa querida internet era uma ferramenta de troca de informação entre militares estado-unidenses durante a Guerra Fria. Por um bom tempo, eles mantiveram essa belezinha só pra eles, até que, no início dos anos 1990, nós, gente comum, recebemos a dádiva de também poder conectar nossos computadores – não que existissem muitos computadores com que se conectar no início dos anos 1990, né?

Desde então, muita coisa foi mudando: passeamos pela finada AOL, vimos o html tosqueira das páginas do Geocities, frequentamos chats da Uol e do Terra, ouvimos muita discagem de conexão aos fins de semana (e sofremos muito quando algum familiar tirava o fone do gancho no meio do download). Passaram mIRQ, ICQ, MSN e Google Talk, o Orkut nasceu, o Orkut morreu, e os jogos do site do Cartoon Network foram ficando cada vez mais refinados, até que chegamos ao nosso ponto atual: Facebook, Wikipédia, Tumblr, YouTube, memes, conexão banda larga e internet móvel de verdade (e não aquele WAP sem vergonha) e, acima de tudo, um amontoado imenso, mais vasto que o universo, de informação.

 

Meme? Mene? Quando foi que descartamos o ‘viral’?

Parece que, lá pra 2006, com o primeiro grande surto de popularidade do YouTube, todo mundo que quisesse fazer alguma análise sobre “blá blá rapidez e eficiência das novas mídias” se via forçado a falar sobre viralização. Era tão impossível escapar do termo que chegou uma hora que ninguém aguentava mais. Mas depois de alguns anos, o viral foi ficando mais tímido, sendo substituído por uma nova palavra-chava: meme. Criação de Richard Dawkins em seu livro “O Gene Egoísta”, o termo é uma espécie de apelido para mimeme, uma palavra grega que remete a imitação, mímica, e ganhou popularidade com imagens de reação que eram lançadas, normalmente, pelos chans, e depois replicadas por Tumblrs e perfis do Twitter.

Assim, meme e viral são basicamente o mesmo conceito: alguma coisa que é repetida exaustivamente e se espalha de forma maluca. Tipo o clássico Choque da Uva ou as piadinhas recentes com o vestido usado por Rihanna no baile do Met.

Já um mene é uma piada feita com a ideia de meme, ou seja, é, de certa forma, a transformação da ideia de meme em um, isso mesmo, meme. Loucura, né? De acordo com um dos criadores do brilhantíssimo Site dos Menes, qualquer coisa pode ser um mene, e um mene pode acabar virando um meme, como é o caso do Processinho ou do Chihuahua da Turma do Deixa Disso, com os quais você certamente já andou esbarrando por aí.

 

4Chan, 55Chan, BRChan, 73Chan e outros inferninhos

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Esse é o tipo de lugar em que a internet começa a ficar esquisita. Se você, como eu, passou as tardes da infância em lugares como o saudoso Ogrish, o choque vai ser um pouco menor, mas, ainda assim, chans são ambientes que pedem que você deixe sua sensibilidade na porta ao entrar. A era de ouro desse tipo de fórum ficou lá por 2010, mas ainda existe atividade – como mostra o caso recente de ataques à jornalista Ana Freitas – em alguns desses espaços. Os chans são boards de discussão em que os usuários – que aqui no Brasil se chamam carinhosamente de “anões” – permanecem anônimos. Cada fórum conta com várias boards menores sobre assuntos específicos –que vão de música a sobrenatural –, que muitas vezes são fontes de boas discussões, e apresentam coisas bastante incríveis, como bandas, filmes e artistas. Há, porém, o lado mais feio da coisa, que normalmente se esconde na board Random, popularmente conhecida como /b/: apesar de atitudes misóginas, racistas e violentas serem comuns na cultura dos chans como um todo, é por lá que a situação se torna mais absurda, com usuários que se escondem por trás do anonimato para espalhar ódio gratuitamente por aí.

 

É “guif” ou “jif”?

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É “jif”, amiga, por mais horrível que soe. Pelo menos é o que diz o criador do formato, Steve Wilhite.

 

Pirataria, digo, apropriação revolucionária sem fins lucrativos

Se você é meio dinossauresca como eu, são grandes as chances que sua primeira ilegalidade tenha sido um download de “Complicated”, da Avril Lavigne, pelo Kazaa. Por sorte, hoje em dia não precisamos mais esperar o dia inteiro para conseguir uma única música ruim, e o crime passou a compensar muito mais: agora dá pra baixar o mundo, o universo e tudo mais, desde que tenha alguém servindo de seeder para o seu arquivo. O volume de dados disponível atualmente é muito maior, mas o método ainda é o mesmo dos compartilhadores de arquivos de antigamente – o peer to peer, que é o mecanismo engenhosamente solidário por trás dos seus downloads por torrent, em que um mesmo arquivo raramente está centralizado em uma única fonte, e sim espalhado entre diversos outros computadores que já o baixaram, que funcionam como seeders (algo como ‘semeadores’, olha, que bonitinho!). Então, basicamente, usando algum programa (como o ?Torrent) como intermediário, você vai pegando de cada pessoa uma partezinha do que está sendo baixado, e, quando terminar, pode (e deve, é parte da etiqueta da internet, viu?) servir como fonte também.

O p2p é muito esperto não só do ponto de vista prático, mas também pelo lado legal da coisa: o Pirate Bay, por exemplo, se safou de ações de direito de propriedade intelectual durante muito tempo por não hospedar efetivamente os arquivos pirateados, e sim os arquivos de torrent, que são apenas caminhos para o que está sendo compartilhado.

 

Big Data ou a história de como, em algum lugar por aí, alguém está vendendo a palavra que você acabou de googlar”

ME DÁ MEUS DADOS, PEDRO! ME DÁ O QUE É MEU!

Uma vez alguém falou que, se um serviço online não é pago, significa que o produto é você. Meio assustador, né? Mas é bem por aí. Acho que você já deve ter notado que, ao pesquisar “poltrona” no Google, todos os sites passam misteriosamente a mostrar inúmeros anúncios de ofertas incríveis dos mais variados modelos de sofás, certo? O que acontece é que essas grandes corporações ganham uma bela grana vendendo nossas informações – buscas, likes, interações – para outras corporações, que descobriram nesse negócio de publicidade direcionada uma forma muito mais eficiente de te fazer querer comprar coisas. O Big Data ali de cima, na verdade, pode se referir a qualquer quantidade imensa de dados – vendáveis ou não –, mas o uso mais comum do termo tem sido para se referir à forma que Google, Facebook, Twitter e afins acumulam o que você coloca por lá.

Existem várias formas de reduzir os danos nessa situação. Eu, particularmente, não gosto, por exemplo, de fazer compras online, porque acho muita moleza pros marketeiros simplesmente entregarem meus hábitos de consumo de presente. Mas você também pode sumir magicamente com os anúncios por aí com um plug-in chamado AdBlock – é maravilhoso, tipo quando você descobriu o primeiro bloqueador de pop-ups e pode finalmente ter um horizonte limpo –, trocar o Google por mecanismos de busca como o DuckDuckGo, que não guarda dados, e dar uma olhada para onde os sites que você visita estão enviando informação com outro plug-in, o Lightbeam.

 

Não quero o Obama xeretando minhas fofocas, e agora?

Barack Obama

Como a gente já andou falando aí em cima, basicamente tudo tem alguma brechinha para enviar informações suas para algum outro lugar. O Windows, por exemplo, tem nos termos de uso um item que permite que a Microsoft extraia qualquer dado que quiser do seu computador, e, ao usar o Facebook, você também concorda com coisa parecida. Ou seja, apesar de eticamente duvidoso, não tem nada de ilegal no que eles estão fazendo.

Se suas preocupações com o uso dos seus dados são realmente grandes, o primeiro passo é migrar para um sistema operacional de código aberto, em que você consegue saber exatamente o que está acontecendo no seu computador – as inúmeras distribuições de Linux, por exemplo, fazem bem o serviço e são completamente gratuitas. Depois, você até pode continuar no Facebook ou usando o Gmail, mas saiba que esses serviços também interceptam o que você envia. Se a informação for muito sensível, o ideal é utilizar provedores de e-mail seguros, como o Riseup, e criptografar as mensagens – coisa que você pode fazer usando o Enigmail, que tem alguns passos chatinhos, só que não é tão difícil usar, mas só funciona se a pessoa com quem você estiver se comunicando também adotar a criptografia, ou o TextSecure, que serve de substituto para o WhatsApp. Já se você quer realmente ser uma superninja invisível, junte todas essas dicas e ainda apele pro Tor, um navegador-extensão do Firefox que não só permite o acesso às terras sombrias da Deep Web – das quais falaremos daqui alguns dias –, como dá um jeito de confundir sua identificação, fazendo com que sua navegação seja praticamente anônima.

 

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Como já falamos lá pra cima, a internet é como as segundas-feiras e a Fossa das Marianas: aparentemente infinita. Assim, o post é mais um dicionário de iniciante para essas várias coisas que a gente ouve falar por todo lado, mas nunca realmente descobre como funciona. Obviamente, muita coisa ficou de fora, então sinta-se à vontade para, aqui nos comentários, sugerir ou explicar algo que negligenciamos.

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • Gabriela S. Padilha

    Simplesmente não consigo falar “jif”, haha. Tenho anúncios no meu blog, acho que seria até meio incoerente eu usar o adblock no meu computador, rs. http://www.alemdolookdodia.com

  • nice

    Laura, te amo.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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