8 de março de 2016 | Ano 2, Edição #24 | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
De onde viemos: a história dos afrodescendentes no Brasil

Na época em que morei fora do país era comum ouvir os meus amigos e conhecidos falarem com informações bastante detalhadas sobre seus ancestrais. “Meu avô paterno é filho de um austríaco com uma italiana. Ele veio pra América e conheceu a minha avó, que é filha de um russo com uma francesa”, e eu achava essas histórias incríveis. Eu ouvia aquilo tudo muito atenta, impressionada com essas ligações que reportavam às mais antigas gerações. Mas quando chegava a minha vez de falar sobre os meus ancestrais, a única coisa que eu sabia dizer é: “Os meus antepassados vieram da África”. E nada mais.

Sabemos que o início da humanidade remonta ao continente africano, a mais de 150 mil anos atrás, e embora haja no mundo bilhões de descendestes dos povos da África, nós, brasileiros, temos esse sangue correndo nas veias de maneira bem pulsante. Brasileiros, negros e nascidos em Salvador (a cidade com mais negros fora da África), como eu, têm a certeza quase que absoluta que seus ancestrais vieram de algum país da África, principalmente da parte Centro-Ocidental (região que hoje é Angola) ou do Golfo do Benin (que é o litoral que vai da Costa do Marfim até a Nigéria). Esses dados são oriundos de pesquisas diversas que vêm sendo feitas há muitos anos, mas ainda assim é tudo muito vago.

O tráfico de negros africanos para o Brasil na época da colonização durou quase quatro séculos e trouxe para o nosso país, de maneira forçada, mais de 4,8 milhões de africanos escravizados. Vindos das mais diversas partes da África e das mais distintas tribos e etnias, aqui no Brasil eles foram amontoados e obrigados a conviver juntos, apesar das suas diferenças. Nesse sistema brutal que era a escravidão, eles perderam seus nome e suas identidades, tiveram seus documentos destruídos e seu passado apagado. Este foi também o momento em que a ligação entre os afrodescendentes brasileiros e as suas raízes na África foi interrompida.

Há algumas semanas uma matéria exibida na TV aberta mostrou um projeto interessante que vem tentando unir novamente essas suas pontas da história. Com o nome de “Brasil: DNA África” a empreitada, que vai virar um documentário, entrevistou e fez testes de DNA em 150 brasileiros afrodescendentes com o objetivo de traçar as raízes dos ancestrais de cada um deles. Os testes são feitos por uma empresa americana, a African Ancestry, que garante encontrar os ancestrais africanos de quem quiser e tiver cerca de trezentos dólares para bancar o tal exame. Entre os participantes do projeto, cinco tiveram a chance de viajar para o continente africano e reencontrar as suas origens.

A gente sabe que essa não é uma realidade possível para a grande maioria dos afro-brasileiros. E aí, para esses tantos outros continua negado o direito de conhecer as suas raízes?

A escravidão no Brasil foi abolida há 127 anos, mas ainda hoje as consequências desse sistema de servidão afetam a vida de milhões de pessoas pela África e nos continentes americanos que receberam os africanos. São pessoas que perderam a conexão entre si. São gerações de famílias que não sabem de onde vieram, que desconhecem as suas raízes e as suas histórias e que são órfãs de muitas informações.

No entanto, apesar de não saber se os meus ancestrais diretos vieram de Angola ou da Nigéria ou de Camarões, uma coisa eu sei: nós, afro-brasileiros, não somos descendentes de escravos. Somos herdeiros de guerreiros, de reis e rainhas que cruzaram o Oceano Atlântico nas mais adversas situações e sobreviveram. E lutaram! E eu tenho o maior orgulho de ser quem eu sou, da cor da minha pele, dos meus traços e da minha história, ainda que não a conheça inteiramente.

Júlia Freitas
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Júlia Freitas, jornalista em busca do mestrado perfeito, se interessa por tantas áreas que não sabe por onde começar. Típico de libriana. Militante afrofeminista e dos movimentos sociais, morou em Nova Iorque e lá estudou de tudo um pouco. Mas o dendê corre na veia e ela voltou pra Bahia. Por enquanto.

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