24 de abril de 2015 | Ano 2, Edição #13 | Texto: | Ilustração: Nathalia Valladares
De volta para o futuro mais próximo e mais ultrapassado que futuramente será

Não sei se vocês, assim como eu, são viciadas em entretenimento alimentado com fatos históricos e mundos futuros, distópicos e alienígenas. Analisando tecnologia ontem, hoje e amanhã, me peguei pensando sobre como esses conceitos evoluíram ao longo do tempo e foram se entranhando na nossa sociedade com tanta facilidade, geração por geração. Pensei também sobre a velocidade como tudo está se transformando e o que isso representa para nós enquanto humanidade.

Dando início, vou citar um livro, que se tornou também série de TV, chamado Outlander, a Viajante do tempo, que tem muitas questões difíceis e problemáticas ao longo de sua história, mas que não dizem respeito ao ponto aonde quero chegar. Claire Beauchamp é uma mulher londrina do pós-segunda guerra que em uma ocasião particular acaba voltando para meados do século XVIII. A protagonista, durante a época na qual vivia, trabalhou como enfermeira na guerra e tem um conhecimento muito avançado de medicina e cuidados médicos comparado aos dos escoceses que a acolhem, que chegam a achar que ela é um tipo de bruxa ou feiticeira.

Na realidade, é apenas surpreendente como nossos conhecimentos tecnológicos, medicinais e de tantos outros nichos evoluem em um ritmo tão fatorial. Ouso até dizer que o século XX foi um gatilho e tanto na aceleração da nossa produção e processamento de conhecimento. Em praticamente um século, vimos o nascimento da penicilina, da energia nuclear, de motores a jato, da linha de produção em série, do avião, televisão, radar, do primeiro computador de Alan Turing… e isso tudo só nos seus cinquenta primeiros anos! Podia ficar horas aqui discutindo as evoluções da segunda metade do século: pílula anticoncepcional (dando às mulheres o poder de decisão de quando e se querem ter filhos e de controle sobre suas próprias vidas e carreiras), videogames, a expansão espacial (com a corrida de quem chegava primeirono espaço), microcomputadores, internet, celulares, disquetes, CD, VHS, DVD etc.

Com essa explosão de novas coisas, novas tecnologias, o encurtamento de distâncias e a globalização, começamos a procurar qual seria a nossa nova invenção. Começamos a imaginar como seria nosso futuro, o que mais de excelente e exuberante a humanidade iria completar. Em 1949, George Orwell escreveu 1984, uma história distópica sobre como seria o nosso mundo num futuro próximo. Devo confessar que acho extremamente perturbadora a semelhança com o que realmente temos hoje, o que me leva a crer que: ou Orwell é um exímio profeta ou, no nosso senso comum, adoramos a ideia perturbadora de seu livro e nos encaminhamos propositalmente para onde estamos hoje.

Não só temos 1984, citei o mais, digamos, real. Tem também tantos outros filmes e livros, como: Guerra nas Estrelas, V de Vingança (que, diga-se de passagem, também me parece muito real e até próximo), Tabuleiro dos Deuses, Laranja Mecânica, Matrix, Jogos Vorazes, Blade Runner, Estranhos Prazeres, Divergente, Admirável Mundo Novo, Mad Max, Filhos da Esperança, Nausicaä do Vale do Tempo etc. Na real, eu podia também passar horas falando sobre meu gênero favorito de ficção (a distopia), mas não é bem pra cantar a pedra do apocalipse que estou aqui.

Nem só de trevas é feito nosso mundo tecnológico. Temos que ressaltar, elevar e focar no lado bom da evolução do tempo e da tecnologia. Afinal, segundo nosso grande amigo Marty McFly, vamos ter hoverboards em menos de seis meses. Com a evolução da medicina, temos uma melhora na qualidade de vida. Tratamentos nunca antes pensados acabam sendo mais comuns a cada dia. Como na história de Claire, pessoas com inflamações bacteriais morriam em pouquíssimo tempo, era mais que comum morrer com menos de 40 anos. No ínicio do século XX, começamos com o primeiro antibiótico: a Penicilina, que nem é mais usada com a mesma frequência hoje em dia. Temos a Amoxicilina, a Azitromicina, a Arsfenamina e isso porque eu nem fui pra letra B. Com a evolução medicinal, temos como nos proteger de doenças e de predispocições genéticas que podem nos assolar mais para a frente. Exames para descobrir o que temos, como tratar, qual a intensidade. Facilidade e rapidez de nos tornar saudáveis de novo.

O hoverboard de Marty McFly.

O hoverboard de Marty McFly.

Todo o caminho evolutivo traçado pelos transportes também é motivo de grande admiração. Hoje podemos fazer em metade de um dia uma viagem que durava meses em um barco sem saneamento algum. Aviões cada vez mais preparados para rodar continentes sem abastecer, metrôs com capacidade, velocidade e conforto aumentados, trem-balas e, por que não?, espaçonaves, que num futuro bem mais próximo que imaginamos, poderão nos levar para conhecer nossos amados amigos alienígenas.

E, por último, pelo menos neste texto, mas não menos importante: as tecnologias de informação. O que dizer dessa internet que mal saiu das fraldas e eu já amo de paixão? Como não amar algo que me faz estar em um espaço virtual, totalmente não-paupável e não-mesurável ao lado de alguém que está geograficamente a milhares de quilômetros de mim? A globalização sem dúvidas foi algo muito positivo para a humanidade. Eu consigo encurtar distâncias, me comunicar em tempo real com pessoas que nem estão no mesmo fuso horário que eu, posso partilhar minhas opiniões, ouvir ideias, trocar figurinha sobre qualquer assunto, com qualquer pessoa, em qualquer sociedade, que tenha quaisquer crenças diferentes das minhas.

Entretanto, a evolução sempre é uma faca de dois gumes. Você pode fazer coisas incríveis com a tecnologia, pode ajudar a quem precisa, pode fazer da vida algo melhor e do mundo um lugar perfeitamente utópico. Infelizmente, com tudo que é bom, vem algo de ruim. Essa é a perigosa força fundamental oposta e complementar da vida, nossa terceira lei física de ação e reação. Tudo que tem a capacidade e expectativa de ser algo promissor e sensacional, pode ser usado para fins dúbios e nem tão nobres assim.

A energia nuclear que pode impulsionar uma nação é a mesma que pode ser transformada em uma bomba e destruí-la. O avião que nos leva para visitar parentes e amigos na Europa em meras 12 horas pode ser o mesmo que leva uma tropa de exército desconhecida para destruir vidas no mesmo continente onde quem amamos está. O conhecimento sobre drogas biológicas pode ao mesmo tempo curar e matar indivíduos. E a internet pode ser tanto um local para proliferar o amor e o conhecimento, quanto um local para disseminar o ódio e a intolerância.

No final, a escolha é exatamente de quem usa o que tem ao seu alcance. Devemos lembrar que o desenvolvimento é involuntário e não tem escapatória. O nosso mundo tem tendência a querer sempre mais de tudo e de todos. O que hoje é novidade, amanhã vai ser obsoleto. Não que esse desejo seja um erro, ele é apenas audacioso e descontrolado demais. Talvez com a evolução do jeito que está, embebida em ódio, na busca para nos tornar melhor, não teremos o futuro que queremos, quiçá teremos um futuro. O que eu menos quero é deixar uma noção de que estamos fadados ao fracasso e que tudo é ruim e destrutivo. Muito pelo contrário. O que eu quero é alertar a nós mesmas, nós, que somos o início do futuro próximo, nós, que temos tanto querer e tanto poder em nossas mãos, que podemos fazer a diferença entre o bem e o mal. Vamos exaltar as coisas positivas e evitar que coisas ruins sejam multiplicadas e se tornem o status quo. Cabe a nós transformar nosso mundo distópico na utopia que sempre sonhamos e sempre vamos sonhar para nós mesmas.

Nathalia Valladares
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora

Sol em gêmeos, ascendente em leão, marte em áries e a cabeça nas estrelas, Nathalia, 24, é uma estudante de Design que ainda nem sabe se tá no rumo certo da vida (afinal, quem sabe?). É um grande paradoxo entre o cult e o blockbuster. Devoradora de livros, apreciadora de arte, amante da moda, adepta do ecletismo, rainha da indecisão, escritora de inúmeros romances inacabados, odiadora da ponte Rio-Niterói, seu trânsito e do fato de ser um acidente geográfico que nasceu do outro lado da poça. Para iniciar uma boa relação, comece falando de Londres, super-heróis, séries, Disney ou chocolate. É 70% Lufa-Lufa, 20% Corvinal e 10% Grifinória.

  • Leandro de Souza

    Excelente texto. Eu podia dar exemplos de coisas negativas, como Stephen Hawking alertando sobre I.A., mas quero deixar o mundo mais feliz e falar que a previsão do Mcfly está quase lá… procurem por Hendo Hoverboard, uma campanha que começou no Kickstarter. E dessa vez (parece) não ser hoax.

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