19 de junho de 2014 | Ano 1, Edição #3 | Texto: | Ilustração:
Deficiência física e autoestima
Ilustração: Jordana Andrade.

Ilustração: Jordana Andrade.

Todos temos defeitos, porém alguns são escondidos. E quando o seu “defeito” é aparente, bem visível aos olhos de todos? Aí o julgamento alheio fica menos disfarçado – e eu sei bem do que estou falando. Talvez não seja a regra, talvez as pessoas com deficiência física não tenham demorado tanto pra passarem pelo processo de aceitação própria quanto eu – e eu realmente torço por isso –, mas eu sei que há pessoas que vão se identificar com a minha experiência.

Eu sou cadeirante desde pequena e tenho escoliose. Sofri muito, grande parte da minha vida, com isso. Se for completamente sincera, ainda não me aceitei totalmente. Se, pra quem anda, a imposição do padrão de beleza já incomoda e, por muitas vezes, afeta a autoestima, pra quem não anda isso vem ainda pior.

Eu tinha problemas para escolher roupa. Eu ficava caçando o que menos revelaria minha escoliose; quanto menos eu mostrasse meus defeitos, melhor. Eu me sentia estúpida usando salto alto. Eu me sentia forçando a barra ao me arrumar para sair porque… bem, de que adiantava? O que eu esquecia é que havia uma cadeira de rodas embaixo das minhas pernas e isso não tem como ser disfarçado. E daí vieram todos os meus problemas, por anos e anos da minha vida. Enquanto eu não me aceitasse, pouca diferença faria se os outros aceitavam ou não.

Eu nunca tive segurança alguma em relação a minha aparência, principalmente na fase da adolescência, onde tudo é mais dramático. Talvez se as meninas da minha idade, na época, soubessem o que era sororidade, eu teria sofrido menos. Vivia tentando esconder, sempre tentando disfarçar. Eu passei a me vestir de forma diferente. Eu usava apenas preto, minha maquiagem era pesada nos olhos, eu usava peças rasgadas, meu cabelo era colorido e sempre bagunçado. Tudo o que as meninas consideradas bonitas não usassem, eu usava. Dessa forma, eu sentia que se, por exemplo, o menino que eu gostava não me queria, não era pela cadeira de rodas e sim pelo meu jeito. Era uma forma de tentar amenizar. Funcionou por um tempo.

Para piorar, eu ouvia coisas sobre como nenhum cara iria querer casar comigo porque seria o mesmo que casar com um problema; sobre como eu não poderia dar filhos; sobre como talvez eu nem sequer pudesse ter relações; sobre como se eu pudesse ter filhos, poderiam vir igual a mim – um horror, imagine só!; sobre como eu não era gostosa, mas era oh-tão-inteligente; sobre como onde me levassem, teriam que levar a cadeira junto; sobre como a minha saúde é frágil, então pensa no problema que eu vou forçar meu companheiro a passar; sobre como era melhor eu não usar nada muito colado, nem cabelo curto, porque aparecia a escoliose. Eu já ouvi de tudo que podem imaginar, inclusive de pessoas que me “amavam”, tudo que poderia me afundar e destruir qualquer tentativa de autoestima. E destruiu por um bom tempo.

Somente após começar a estudar o feminismo – e isso tem cerca de 1 ano e meio – é que percebi que eu não deveria passar por nada disso. Eu não tenho que ouvir ninguém. Sabe por quê? Essas pessoas têm reais defeitos e são no caráter. São pessoas vazias, que vivem de aparências e eu não queria ser assim. E eu comecei a então notar que, mesmo que eu não siga um padrão, eu tenho tanto a oferecer! Se ninguém me quiser, não tem problema, eu me quero assim como sou. Não acredito mais em “metade”, eu sou completa sozinha, não vou esperar uma vida por alguém que me preencha. E foi aí que a liberdade começou. Eu me libertei de tudo que ouvi a vida inteira. Eu me libertei de tudo que me impuseram até então. Se eu gostar de uma saia, pode ter certeza que eu vou usar. Eu passei a me aceitar, ainda que aos poucos.
Trago uma passagem do livro O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres, de Naomi Wolf, que me ajudou bastante a entender o motivo de toda essa história de padrão de beleza não significar algo importante:

“A “beleza” é um sistema monetário semelhante ao padrão ouro. Como qualquer sistema, ele é determinado pela política e, na era moderna no mundo ocidental, consiste no último e melhor conjunto de crenças a manter intacto o domínio masculino.

Ao atribuir valor às mulheres numa hierarquia vertical, de acordo com um padrão físico imposto culturalmente, ele expressa relações de poder segundo as quais as mulheres precisam competir de forma antinatural por recursos dos quais os homens se apropriaram.

A “beleza” não é universal, nem imutável, embora o mundo ocidental finja que todos os ideais de beleza feminina se originam de uma Mulher Ideal Platônica. O povo maori admira uma vulva gorda, e o povo padung, seios caídos. Tampouco é a “beleza” uma função da evolução das espécies, e o próprio Charles Darwin não estava convencido de sua própria afirmação de que a “beleza” resultaria de uma “seleção sexual” que se desviava da norma da seleção natural. O fato de as mulheres competirem entre si através da “beleza” é o inverso da forma pela qual a seleção natural afeta outros mamíferos. A antropologia rejeitou a teoria de que as fêmeas teriam de ser “belas” para serem selecionadas para reprodução.”

Basicamente, o padrão de beleza é algo inventado e somente entre nós humanos (os “racionais”). Então, por que segui-lo? Se podem inventar que aqui cintura fina e peitos grandes é o bonito, lá podem inventar que pés pequenos são atraentes, acolá inventam que peitos caídos são sensuais, eu posso inventar que o padrão é ter peitos pequenos e usar cadeira de rodas. Certo? Certo. Mas eu não faria isso justamente porque a criação de um padrão significa excluir todas as outras irmãs de gênero (não de sexo) do que identifico como belo. Melhor é desconstruir qualquer padrão e abraçar todas as belezas.

Absolutamente nada no mundo pode te fazer menos bonita. Quem você é, a sua essência, reflete a sua beleza. Se você usa uma cadeira de rodas, prótese, se você não tem uma parte do corpo, dane-se o que pensam, se aceite! Por favor, se aceite e enxergue o quão linda você é. Se aceite e não deixe que a desaprovação de ninguém pese em ti. Ninguém está na sua pele e nem todo mundo saberia estar, pois você está e sabe o quão difícil é em muitos momentos da vida. Então faça essa pele valer a pena, faça essa vida valer a pena e se aceite.

Priscylla Piucco
  • Membro do Conselho Editorial
  • Coordenadora de Relacionamentos & Sexo

Priscylla. Apaixonada por seriados, kpop, reality show ruim, Warsan Shire e as Kardashians. Odeio o Grêmio e cebola. Prazer, pode chamar de Prih agora.

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