23 de setembro de 2015 | Ano 2, Edição #18 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Deixe que a gente conte nossa própria história

Vamos agora dar uma paradinha e olhar em volta, olhar as séries a que assistimos, os filmes que estão em cartaz, os livros que a gente lê, os quadrinhos que estão na estante. A maioria deles conta histórias em que o personagem principal é homem, branco, cis e hétero. Claro que se der uma pesquisada a mais na internet, sair do eixo principal — o que recomendo muito, aliás — você encontra histórias mais ricas e personagens femininas mais complexas, só que o mais acessível para a maioria das pessoas, o que nos é bombardeado, não são essas histórias, são as dos homens. Tem outro problema aí, inclusive. Se você pegar gêneros que são considerados especificamente “para mulheres”, como comédias românticas ou histórias de adolescentes, eles são tidos como menores; são “young adults” que não são literatura de verdade, são “filmes de mulherzinha”. Para ser sério, o protagonista tem que ser masculino. Se pegarmos o Oscar, o tal grande prêmio do cinema, veremos que todos os filmes indicados a melhor obra esse ano, sem exceção, eram histórias com protagonistas homens, e apenas um deles era negro.

Claro que se olharmos para o próprio mundo dos quadrinhos, principalmente de heróis, percebemos que estamos vivendo uma era de mais mulheres e mais representatividade, com várias heroínas surgindo e conquistando espaço, mas ainda não é suficiente. Até porque, se você pegar os filmes da Marvel, verá que um guaxinim teve tanto protagonismo quanto uma mulher. O que tudo isso acaba nos mostrando? Que mulheres sendo vistas o tempo todo como coadjuvantes, como personagens que estão ali para assessorar o personagem principal (o homem) a chegar em algum lugar. Nós, mulheres da vida real, ao assistir a isso a vida inteira, acabamos acreditando que esse é nosso lugar mesmo, até porque, quando existem obras de ficção que nos colocam como tema central, elas são consideradas menores, sem valor, sem importância. Além dos grandes estereótipos de personagens femininas em que acabamos caindo, a femme fatale, a workaholic, a manic-pixie-dream-girl, assim elas ficam presas, nunca são complexas e nem bem desenvolvidas.

Até agora ainda nem saí do padrão de beleza vigente. Por que quem são essas mulheres que aparecem na ficção? Exatamente o padrão, a branca, magra, cis e hétero. Afinal, se fosse diferente, do que serviria ao homem?Agora eu vou falar como mulher gorda que nunca se encontrou nessas personagens, que nunca sentiu que existia. As poucas mulheres gordas que vemos na mídias são as amigas engraçadas. Existe uma necessidade extrema de associar uma pessoa gorda a uma pessoa engraçada. Se você for gordo, tem que fazer piada, tem que divertir os outros, para eles meio que perdoarem a sua existência, como um bobo da corte. Mesmo usando um raro exemplo em que uma gorda é protagonista, como a série Mike e Molly, que mostra um casal hétero de gordos se apaixonando, os corpos eram constante alvo de piadas. A batalha dos dois para emagrecer também era algo frenquente, e não de forma positiva. O grande fracasso deles em não conseguir resistir a um sorvete era o que gerava as gargalhadas e chegou a um ponto em que ficou tão ofensivo pra mim que parei de ver. Mas nem tudo está perdido, migas! Sei que em todos os textos da Capitolina acabo falando dessa série, mas não tem como evitar, lá vou eu de novo para My Mad Fat Diary. Essa foi a primeira série em que eu me vi, e foi tão importante pra mim. Ela conta a história de uma adolescente de 16 anos que é gorda e enfrenta uma depressão em grande parte devido à dificuldade que ela tem de se amar e à forma como lida com seu corpo. Rae até é engracada e divertida, mas nunca é um humor auto-depreciativo. Suas crises de baixa autoestima e sua difícil relação com a comida não são motivo de gargalhadas e sim de lágrimas, porque passar por isso, amigas, não é nem um pouco engraçado. É triste e difícil pra caramba.

Temos esse imenso problema de representatividade, mas a falta de dela não está apenas na frente da tela ou nos protagonistas de um romance. Quem são as pessoas que estão contando essas histórias? Quem são as pessoas que controlam os estúdios, as editoras e as empresas de entretenimento de forma geral? De acordo com um estudo do Centro de Estudos de Mulheres na Televisão e no Cinema de San Diego, publicado na revista Variety, apenas 22% dos profissionais do mercado de audiovisual dos Estados Unidos são mulheres. Sendo apenas 9% diretoras, 11% roteristas, 5% diretoras de fotografia, 18% editoras e 23% produtoras. Com números assim em um dos maiores mercados de audiovisual do mundo, conseguimos ver que nosso espaço é muito pouco, quase nada. Não estou falando que os homens não são capazes de falar do outro. My Mad Fat Diary, por exemplo, foi escrita por um homem. Porém, o natural é que a gente gravite em torno da nossa própria historia, é o que a gente conhece melhor. Enquanto a mídia for esse clube do bolinha, seremos sempre os acessórios, os objetos, e não as locutoras. O ponto de vista nunca vai ser o nosso.

Com muito orgulho quero encerrar falando de um filme nacional que muda essa cara, que vai contra a maré e mostra o que acontece quando temos uma equipe de mulheres em um filme sobre mulheres. Que horas ela volta?, de Anna Muylaert, conta a história de Val, uma mulher nordestina que se muda para São Paulo para tentar uma vida melhor, deixando sua filha e indo cuidar do filho da patroa. O filme também conta a historia de Jéssica, a filha de Val que vai para São Paulo anos depois tentar o vestibular e entra em conflito com a forma como sua mãe é tratada. Porque Val é da família, mas dorme no quartinho dos fundos, não pode entrar na piscina e nem comer o sorvete especial do Fabinho. Eu chorei o filme inteiro porque foi triste ver a história dessas duas e saber que ela se repete em muitas casas desse Brasil, que as sensalas e as casas grandes ainda existem e que a ideia de uma menina pobre do Recife passar para um faculdade de arquitetura em São Paulo ainda é completamente surpreendente.

Porém, uma emoção muito forte veio em mim, quando o filme acabou e os créditos subiram. Direção: Anna Muylaert, roteiro: Anna Muylaert, direção de fotografia: Barbara Alvarez, edição: Karen Harley, todas mulheres. Não é nenhuma surpresa que o filme tenha todo esse olhar feminino e isso me encheu de esperança. Porque pra mim, uma mulher que trabalha com cinema, que lida com machismo diariamente, que trabalha em uma empresa onde é a única mulher em uma equipe de dez pessoas, é difícil não me desmotivar constantemente. Por isso essa é uma obra inspiradora. Ainda mais porque o filme está ficando cada vez mais popular e agora é a indicação do Brasil ao Oscar. O mesmo Oscar que eu falei lá em cima, aquele que só indicou filmes com protagonistas homens esse ano. Independente de prêmios, pra mim a maior conquista desse filme foi mostrar não só para mim mas para outras meninas e mulheres que podemos e temos sim que ocupar esses espaços midiáticos. A conquista desses lugares é importantíssima, porque sim, eles também são nossos e temos muita história pra contar.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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