20 de junho de 2014 | Ano 1, Edição #3, Relacionamentos & Sexo | Texto: e | Ilustração:
Demonstrações físicas de afeto
Ilustração: Mariana Trigo.
Ilustração: Mariana Trigo.

Ilustração: Mariana Trigo.

Texto de Beatriz Trevisan e Laura Pires.

Quando gostamos de alguém, seja um “gostar” amoroso ou num nível de amizade, é normal a gente demonstrar isso por meio do nosso corpo. Claro que a expressão dos sentimentos por meio das palavras e atitudes é natural e muito importante, mas o corpo também faz transparecer nossas emoções, de maneira consciente e inconsciente.

Será que tem como evitar essas demonstrações? Será que devemos evitá-las? Será que existem ambientes em que devemos calar nosso corpo, ou pelo menos restringir suas declarações? Será que todas as pessoas e culturas vêem a linguagem corporal do mesmo jeito?

Apesar de termos relatos históricos de que o ser humano tem expressado afeição por meio do beijo há muito tempo, os toques nem sempre foram interpretados da mesma forma como interpretamos hoje. Se atualmente para nós um beijo na bochecha e um abraço é um ritual de cumprimento a um amigo ou pessoa próxima (como um parente), e o beijo na boca em geral é ligado ao amor e/ou ao sexo, em outra época se beijava em sinal de respeito a pessoas superiores dentro de um contexto específico. Houve um tempo na história das sociedades ocidentais em que o beijo nem era considerado uma maneira de demonstrar amor entre um casal!

Entre culturas também há uma diferença em relação a como nos comportamos quanto às expressões físicas de afeto de uma forma geral. No Brasil, tocamos muito uns nos outros, abraçamos, beijamos e fazemos carinho. Mas nem em todas as culturas isso é aceito. Na China, por exemplo, é difícil ver pessoas demonstrando seu carinho física e publicamente por pessoas com quem não têm tanta intimidade. Para as pessoas de lá, o contato humano é mais reservado para pessoas e momentos mais íntimos. Enquanto aqui nós apertamos as mãos ou damos um ou dois beijos na bochecha de alguém para cumprimentar, lá é mais comum um simples aceno, ou, mais tradicionalmente, aquela reverência em que as pessoas ficam retinhas e só curvam as costas de um jeito que as cabeças chegam perto e o resto do corpo não. Isso não quer dizer que não tenham sentimentos: eles só têm, culturalmente, uma forma diferente de mostrar que gostam uns dos outros.

E não é assim só na China: em alguns países, determinadas expressões públicas de afeto são consideradas crime! Na Índia, os atos de beijar e abraçar são considerados tabus, e a lei é pouco específica quanto ao que seriam tais demonstrações (se restringem a beijar? dar as mãos e fazer carinho conta?). Na Indonésia, por outro lado, a lei especifica que não se pode dar, além de “beijos apaixonados”, o que chamaríamos aqui de “amassos”. Em alguns países do Oriente Médio, considera-se o beijo como uma ofensa à decência pública, e casais já foram presos por beijar em público. E você aí reclamando que não pode beijar na escola…

Você já deve ter presenciado ou ouvido falar de algum casal que estava junto, se beijando ou abraçando na escola, e levou bronca de um(a) professor(a) ou diretor(a). Pode ser difícil pra gente entender qual é o problema de dois ou duas adolescentes sinalizando afeição fisicamente na escola ou em algum lugar público. Mas, se hoje beijo e outros gestos são naturais e normais para nós, antigamente não era assim.

As pessoas mais velhas em geral estranham essas manifestações por serem de outras épocas e não estarem acostumadas com isso da mesma forma que nós. Esse estranhamento é tanto que, em uma escola nos Estados Unidos, abraços de mais de dois segundos foram banidos (infelizmente, não achamos a notícia em português)! Dá pra acreditar?

Da mesma maneira que a expressividade do afeto varia de cultura para cultura, ela também varia ao longo do tempo. Algo que é considerado normal agora pode ter sido muito diferente há alguns ou muitos anos atrás. Parece que o que tem acontecido ao longo do tempo é que estamos nos tornando mais liberais e muito do que não pegava bem antes agora não tem problema nenhum (eba!).

O que precisamos é saber onde e quando é adequado ou inadequado demonstrar afeição publicamente. Por exemplo, será que podemos ter na escola o mesmo nível de intimidade física com nossas(os) parceiras(os) que temos quando estamos a sós com ela(e)? E no shopping ou em uma festa? É a mesma coisa? Para a sociedade, não é. E, cá entre nós, muito melhor guardar esses carinhos para momentos a sós, não é mesmo? Em espaços como shoppings e festas, é melhor sermos mais discretas, até para evitar problemas, e, em espaços como escolas ou cursos, devemos seguir as regras da instituição. Mas hoje poucos lugares são tão rígidos quando se trata de simples abraços e beijos (pelo menos na bochecha), apesar de ainda existir certo conservadorismo – tipo aquela escola nos Estados Unidos que nos deixou pasmas!

O problema é quando a sociedade tenta impor tratamentos diferentes para as pessoas. Apesar de no Brasil sermos mais abertos em relação às demonstrações públicas de afeto (guardadas as diferenças entre as gerações e entendimento sobre locais adequados), ainda existe muito preconceito quanto ao modo como se expressam os casais que a sociedade considera não tradicionais. Há quem ache que os casais tidos como “comuns” (casais entre pessoas de sexos opostos, de idades parecidas) têm mais direitos de contatos físicos em público do que casais de pessoas do mesmo sexo.

Enquanto um casal heterossexual pode andar de mãos dadas livremente na rua, ainda há quem condene a mesma ação por um casal homossexual, o que pode gerar até agressão física ou verbal! Se só o ato de dar as mãos já é motivo para o escracho de alguns, imagine como poderiam ser vistos gestos como abraços e beijos…

Mesmo que não seja o seu caso, é importante defender direitos iguais para quem fica com alguém do mesmo sexo – em todas as esferas, embora estejamos tratando especificamente do contato físico feito a vista de todos. Não é fácil viver em uma sociedade que discrimina casais por sua orientação sexual. Além da sensação horrorosa de não pertencimento, as vítimas desse preconceito correm o perigo real de serem agredidas. Todo apoio é fundamental!

E aí, o que você acha? Demonstrar carinho tem lugar certo? Ou será que depende do tipo de demonstração? Você sabe de mais alguma curiosidade sobre como esse assunto é tratado em outras culturas? Conta pra gente!

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Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

Laura Pires
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Vlogger

Usa seu vício em séries e Facebook como inspiração para os textos, para a vida e para puxar assunto com os outros. Adora ouvir histórias e conversar sobre gênero, sexualidade, amor e relações amorosas – gosta tanto desses temas que deu até um jeito de fazer mestrado nisso. É professora de inglês, cantora e pianista amadora de YouTube, fala muito, ri de tudo e escreve porque precisa. Ama: pessoas e queijo. Detesta: que gritem.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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