8 de julho de 2019 | Colunas, Esportes | Texto: | Ilustração: Gabriela Nolasco
Depois do choro, vamos sorrir com a Seleção Brasileira de Futebol Feminina

“Não vai ter uma Formiga pra sempre, uma Marta, uma Cristiane. O futebol feminino depende de vocês pra sobreviver. Pensem nisso, valorizem mais. Chorem no começo pra sorrir no fim.” Foi com esse conselho que Marta, nossa camisa 10 da seleção brasileira de futebol, encerrou sua coletiva – e participação – na Copa do Mundo Feminina na França.

O recado era para as jogadoras do país, mas a carapuça serviu para toda nação que não sabia como elas chegaram até o Mundial, só lamentou a eliminação – sem conhecimento nenhum sobre o confronto, quiçá do que estava por trás. E acho que vale a pena pararmos para ouvi-las agora que, enfim, têm holofote, nossa atenção, nossa empatia. 

 

Dentro das quatro linhas

O Brasil entrou em campo sabendo que teria muita dificuldade diante das francesas. Isso porque, além de uma das melhores equipes do Mundial – sendo todas as titulares jogadores da competição nacional do seu país e cinco delas campeãs da Liga dos Campeões pelo Lyon -, havia o fator casa, já que a Copa está acontecendo na França. 

Com uma equipe entrosada e que se conhece bem, a França entrou como favorita em campo, mas se assustou com o ímpeto brasileiro, que jogou muito bem a partida. Um gol bem-anulado das francesas no primeiro tempo fez da nossa Bárbara  (goleira) o alvo da torcida rival. A cada toque que a goleira dava na bola, as arquibancadas a vaiavam.

Ao nosso time, coube foco para deixar o extra-campo de lado e dar a vida naquela partida. Formiga, aos 41 anos, jogou um tempo e meio. Cristiane, nossa centroavante, saiu na prorrogação chorando de dor. Marta, que iniciou a Copa sem jogar sequer uma partida inteira, atuou o tempo todo, até o fim da prorrogação. Jogamos muito, perdemos por pouco. 

 

Nos bastidores 

É que a vontade não venceu a preparação. É fato que o Brasil ganhou a última competição que disputou antes da Copa do Mundo: a Copa América. De lá pra cá, porém, quando o foco era unicamente a preparação para o Mundial na França, foram nove jogos e nove derrotas. O que balançou, mas não derrubou o técnico Vadão, que ainda comandou o time na Copa. 

Mas por que não o derrubou? Porque não havia ninguém com ímpeto de torcedor para pedir sua demissão à CBF. Quando digo ‘ímpeto de torcedor’, quero dizer alguém que torça, de fato, pelo sucesso da equipe, que queira boas atletas, vitórias e, óbvio, títulos. E com isso eu digo que não temos esse histórico em nossa Confederação Brasileira de Futebol. Não há planejamento,investimento e, consequentemente, cobrança. Só agora, depois da eliminação, que seu nome apareceu nos trends do Twitter através da hashtag ‘ForaVadão’. Tarde demais? Apenas para a Copa. Para a seleção em si é uma luz no fim do túnel.  

Para se ter uma ideia, do outro lado do campo nesse domingo, a França era comandada por um ícone do futebol feminino: Corinne Diacre. A ex-atleta, de 44 anos, foi a primeira mulher a treinar um time masculino no seu país e, hoje, a frente da seleção, tem em mãos a equipe feminina mais valorizada por uma nação. 

Enquanto isso, cá estamos: aquém em campo, na beirada dele, na administração e também nos cuidados médicos. Há 15 dias da Copa do Mundo, Marta lesionou a coxa esquerda e quase foi cortada. Sorte dela, mas azar de outras que não se recuperaram a tempo, como as atacantes Adriana e Andressa Alves, e a lateral-direita Fabi Simões. Já se perguntaram como é a preparação física? Não, né. A gente só vê o jogo, e só jogo do Mundial.

 

Frente aos holofotes

Para começar, a Rede Globo, nossa principal emissora de comunicação do país, transmitiu todos os jogos ao vivo e em rede nacional. Esse jogo de domingo, por exemplo, foi no mesmo horário em que a Argentina de Messi decidia sua vida na Copa América do Brasil. Mas era Brasil x França, do Mundial Feminino, que passava na TV aberta.

Outro ponto a favor da emissora, seus seguidores e, consequentemente, do futebol brasileiro, foi a escolha de Ana Thaís Matos para comentar as partidas. Com um olhar interno, não faltou empatia à jornalista para falar sobre as jogadoras, e não faltou conhecimento de causa da mesma para explicar aos telespectadores o que estava acontecendo. Foi uma mulher ocupando seu espaço para falar da realidade feminina. Incrível, não? Ela também não se absteve de criticar o que já falamos acima: Vadão, CBF e a valorização do gênero. 

Colocamos Marta no top dos trends mundial sobre a Copa do Mundo. Colocamos o assunto em todas as dez primeiras colocações do Twitter durante os jogos do Brasil. Colocamos a audiência da transmissão dos jogos no pico. E não podemos deixar essa bola cair. Se o que falta ao esporte para ser valorizado é o apelo social, cá estamos nós para torcer, de verdade, por nossas guerreiras.

 

E agora?

Precisamos nos atentar ao que essa competição nos trouxe e continuar seguindo esses passos que podem ter mudado o patar do futebol feminino no Brasil. Isso porque, a atenção aos jogos, ainda que rápida e involuntária, foi muito para o que tínhamos até então. Agora que as meninas saíram de campo, é a nossa vez de assumir a causa. 

Ajudo vocês informando que, eliminada da Copa, a seleção feminina foca como o seu próximo principal objetivo a Olimpíada de Tóquio-2020, competição para a qual já assegurou classificação ao conquistar o título do Copa América no ano passado. 

Vamos cobrar uma melhor comissão técnica, a começar pela renovação do treinador. Vamos cobrar um espaço de trabalho sério e integral de base, porque o futuro está logo ali, sem Marta, Formiga e Cristiane – como nossa camisa 10 bem falou. Vamos também cobrar uma boa preparação física e em campo. Vamos buscar consumir marcas que valorizem o esporte, para incentivarmos seu consumo. E, aí sim, sorriremos no/com o final. Posso apostar que ele será diferente. 

Queka Barroso
  • Redes Sociais
  • Colaboradora de Esportes

Nascida na geograficamente pequena, mas amorosamente imensa, Barroso/MG, Queka quis homenagear sua cidade colocando-a como sobrenome - o nome, aliás, é Jéssica, mas isso só no RG. Moradora de Belo Horizonte desde os cinco anos, foi na capital mineira que se formou jornalista e exerce e estuda a profissão na área esportiva - sua maior paixão. Nasceu em fevereiro, é amante do carnaval e é do signo de Peixes. Embora não tenha conhecimento sobre astrologia, sabe que tudo que falam sobre pisciano bate com sua personalidade. Queka agora escrever e transcrever as escritas de Rubem Alves (no blog Sou Muitos) e Nelson Rodrigues (em um livro ainda em construção). Na cozinha, o que não sabe fazer, sabe comer. Se for uma boa comida mineira ou coxinha então... Quando não tem jogo, certamente está assistindo Padrinhos Mágicos, Matilda ou Frozen. "Você quer brincar na neve?"

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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