1 de novembro de 2014 | Relacionamentos & Sexo, Textos Favoritos | Texto: | Ilustração:
A depressão dos outros

Atenção! Esse post fala de depressão e menciona suicídio, o que pode ser um assunto pesado para algumas leitoras.

Não é fácil ver alguém querido sofrer com uma doença como a depressão. Porque é isso que a depressão é: uma doença que, basicamente, bagunça as químicas do nosso cérebro (não sou lá muito apta a falar em termos médicos, então, vamos colocar desse forma, hehehe) e caímos numa tristeza profunda, que parece que nunca vai acabar (mas vai!). É mais do que a tristeza que sentimos de vez em quando, quando choramos sem motivo aparente ou quando terminamos um namoro. Parece que nosso corpo se transforma num buraco negro que vai sugando todas as nossas energias e toda a nossa vontade de fazer coisas que geralmente temos vontade de fazer. Sair da cama? Osso. Ligar para desmarcar o dentista? Tortura (ok que, pra mim, ligar sempre é tortura). Ir comprar pão? Impensável.

Basicamente, é isso. E nem sempre é fácil lidar com quem está passando por isso. Que devo fazer? Que devo dizer? Tenho culpa? Posso ajudar? Essas dúvidas com certeza aparecem e é por isso que eu estou escrevendo esse guia: para te ajudar a ajudar a pessoa querida que está passando por isso.

1. A culpa não é sua. Ou de ninguém, e é muuuuito importante se lembrar disso. Como eu te falei na introdução, a depressão é uma doença muito esquisita, então, não se culpe se alguém próximo estiver deprimido. Esse medo é mais comum quando a pessoa com a doença é o/a parceiro/a. “Será que minha função não era exatamente fazê-lo/a feliz?”. A verdade é que não é uma simples questão de felicidade ou tristeza. Não é porque vocês brigaram que a pessoa acabou ficando triste e, por isso, ficou deprimida. Em geral, há uma propensão para o desenvolvimento dela, e um conjunto de fatores é o que desencadeia esse desenvolvimento. Tente não se sentir culpada por ver alguém passando por isso e, em vez disso, pense em como você pode ajudar (relaxa, vou tentar te ajudar com isso também), se sentir que pode ajudar.

2. Tente não forçar para que a pessoa saia de casa ou faça coisas que normalmente faria. A pessoa em questão não está em seu estado normal, do dia-a-dia. Ao mesmo tempo em que não é legal deixar a pessoa sozinha sem falar com ninguém durante dias em casa mesmo que seja isso que ela queira, não é bom também querer animá-la a ir para a balada, passar o dia fora, ir para uma viagem. Tente encontrar um balanço. Quando eu estava deprimida, era inconcebível, para mim, passar mais do que algumas horas fora de casa sem sentir um desespero e uma necessidade urgente de voltar para a minha casa, que era onde eu me sentia mais segura. Veja se consegue combinar um almoço ou um café à tarde com a pessoa, ou uma visita curta em casa, deixando-a livre para terminar o programa assim que quiser. E nunca diga coisas como “poxa, você sempre é tão feliz, cadê aquela pessoa?” ou “mas você tá triste por que hoje? Ah não, deixa disso, abre um sorriso aí!”. Pode ter certeza de que a pessoa já pensou em sorrir e deixar pra lá, mas não é assim tão simples, e palavras desse tipo podem machucar bastante. Ninguém fica feliz não tendo energia às vezes nem para sair da cama! Mas é uma coisa muito forte que não dá para ser simplesmente superada. Tente não subestimar os problemas e questões da pessoa por eles não fazerem tanto sentido para você.

3. Esteja lá. O apoio das pessoas queridas é inexplicavelmente importante quando a depressão se manifesta. Não é para todo mundo, mas algumas pessoas querem desabafar em momentos difíceis durante a depressão. Sem forçar, tente se mostrar disponível, deixar claro que estará lá para a pessoa se ela precisar desabafar. Se a pessoa não é muito de se abrir (ou não está conseguindo no momento), você pode descobrir jeitos de fazer a pessoa se sentir melhor sem que ela tenha que falar alguma coisa. Às vezes, só ficar vendo TV debaixo das cobertas com a pessoa já é de uma ajuda imensa, ou seja, às vezes você nem precisa falar nada. Eu tenho muita dificuldade em me expressar em situações assim, então, não se sinta mal se você não for muito do tipo de ter palavras bonitas e de ficar cheia de “eu te amo”s e “vai ficar tudo bem”s, eu te entendo se dizer palavras assim é difícil para você. Às vezes só fazer programas simples sem muita conversa, que ainda assim demonstram carinho e amor, já pode ser de grande ajuda. Se você não se sentir bem com conversas longas ou com expressões físicas de afeto, não se torture, pois, como eu disse, há outras formas de mostrar que você se importa. Quando eu estava deprimida, eu tinha um esquema com meu namorado, de que, se eu me sentisse mal, eu mandava uma mensagem pra ele pedindo pra ele me contar alguma coisa legal, e daí ele me falava coisas legais, contava uma curiosidade sobre animais (“Você sabia que vacas têm melhores amigas? :DDD”) ou me mandava fotos de gatinhos e coelhos. Isso não resolveu meu problema, mas ajudava bastaaaaante nesses momentos. Fotos de gatinhos não são antidepressivas, mas deixam qualquer pessoa com o coração quentinho!

4. Conheça seus próprios limites. Acho que isso eu já deixei bem explícito no item anterior. Você não tem a obrigação de se prejudicar para ajudar uma pessoa com depressão. E se você não consegue demonstrar de uma determinada forma que você se importa, não se torture, pois há outras. Você deve conhecer suas próprias fragilidades e limitações. Se os problemas do seu amigo ou amiga despertam em você sentimentos ruins que te prejudicam por dentro e você não consegue ouvi-los, você não é uma monstra por causa disso. Você pode estar disponível de formas diferentes.

 5. Não se magoe se perceber que não é a primeira opção da pessoa. Essa doença é maluca e às vezes seleciona as pessoas em quem veremos segurança. Tente não se magoar se a pessoa se afastar de você durante esse período, ainda mantendo os esforços para estar em volta e mostrar que se importa.

 6. E se ele/a mencionar suicídio? Nesse caso, a primeira coisa a fazer é contatar alguém. Converse com um familiar da pessoa, com um professor da escola ou orientador. Esta é uma situação muito delicada e todo cuidado é pouco. Claro que você jamais terá culpa se não perceber sinais de que a pessoa está com esse tipo de pensamento ou se não souber como agir, não é fácil mesmo! Por isso que é importante contatar um adulto responsável que possa encaminhar a pessoa para o tratamento necessário. Enquanto isso, existem algumas linhas de prevenção ao suicídio que você pode indicar para a pessoa. No Brasil, há a possibilidade de contatar a organização Como Vai Você, que pode ser alcançado pelo número 141 ou online no site.

 7. Lembre-se: você, sozinha, não vai tirar uma pessoa da depressão. Então, não crie essa obrigação para si mesma. Porque depressão é uma doença. A pessoa precisa, de forma geral (há pessoas que conseguem se curar de outras formas), de um tratamento profissional para que melhore. Você, como amiga, irmã, filha, namorada ou qualquer outra coisa, pode dar apoio e ajudar pontualmente. Pode facilitar as coisas e se mostrar disponível. Você pode, e muito, fazer a pessoa se sentir melhor e acelerar o processo de recuperação. Mas não se sinta mal se, mesmo com seus esforços, estiver demorando para a pessoa se recuperar, porque não é da noite para o dia que isso acontece. Ainda assim, você não imagina o quanto uma mensagem no final da tarde perguntando como a pessoa está, se precisa de algo, ou simplesmente mostrar o vídeo do panda espirrando, pode ser significativo nesse processo.

Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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