28 de março de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: , and | Ilustração: Bia Quadros
Desmistificando a menstruação

Menstruação costuma ser um tema polêmico. Muita gente tem nojo e muita gente tem vergonha — quem nunca foi pedir um absorvente para alguém e fez isso cochichando no ouvido? — e, por ter nojo e vergonha, um monte de gente não fala sobre isso. Essa ausência de discussão sobre o assunto faz com que a gente fique muito insegura sobre ele (não temos com quem falar sobre isso, e agora, como saber se coisa x ou coisa y são normais?), e insegurança nunca é bom! Pensando nisso, algumas Capitolinas desmistificaram três grandes mitos sobre o tema. Tem mais dúvidas sobre o assunto? Conta pra gente nos comentários!

Menstruação não é nojento  Brena O’Dwyer

Nem todas as mulheres menstruam, visto que muitas mulheres não possuem útero e tantas outras possuem pênis; ainda assim, muitas menstruam, uma vez por mês (em média), todos os meses (em média) por muitos anos de suas vidas. Então, vamos falar sobre isso. Menstruação é um assunto sobre o qual não se fala muito, mas deveríamos, levando em consideração que é um fenômeno que ocorre em media doze vezes por ano, durante trinta anos na vida de metade da população mundial. Menstruar não é nojento, não só porque é algo normal e frequente, mas porque não é nada de mais mesmo. Uma vez por mês, por mais ou menos quatro dias, saem sangue e pedaços de parede de útero pelo seu canal vaginal. Você usa o absorvente de sua preferência, e quando ele estiver chegando na sua capacidade máxima, o joga no lixo ou o lava pra usar de novo. Às vezes mancha a calcinha, o lençol, a calça ou a saia, mas todas essas coisas podem ser lavadas. Então, e daí? Qual o grande problema? Nenhum. Pensamos em menstruação como algo nojento porque corpos femininos são mais vigiados que corpos masculinos (“Ela não se depila? Eca!”, mas e todos os caras peludos por aí?). O padrão de beleza imposto às mulheres é inalcançável. Isso significa que as regras de higiene também são. Mulheres só podem ter cheiro de rosas, não podem ter “cêcê”; não soltam pum; não têm nenhum pelo e não ficam menstruadas — ou escondem direitinho quando ficam. Esse padrão de beleza — que além de impossível é racista é transfóbico — impõe que as mulheres têm que ser perfeitas — e mulheres perfeitas não sangram todo mês! Achar que menstruação é algo nojento é uma atitude que só nos leva a ter medo de nossos corpos, a ter restrições em relação a eles, corpos que habitamos e habitaremos, corpos que em vez de desprezados podem ser amados, do jeito que são, com um pouco de sangue de vez em quando. Ninguém precisa amar ficar menstruada — porque é algo que pode causar desconforto —, mas não precisamos sentir vergonha e nojo. Vamos falar abertamente sobre isso, não precisamos esconder o absorvente no caminho pro banheiro. Menstruar não é nojento. É tranquilo, de boas, na moral. Não tenhamos nojo e falemos mais sobre isso!

Pode transar menstruada sim! Natália Lobo

Muita gente tem nojo da própria menstruação. Por ter nojo da própria menstruação, muita gente pressupõe que a pessoa com quem transa também tem esse nojo. E pior: por causa de todo esse nojo, muita gente deixa de transar quando menstruada, mesmo tendo vontade — e tem gente que tem até mais vontade quando está nessa fase do mês, por questões hormonais. Eu entendo que toda relação sexual tem que ser baseada no respeito dos limites do outro. Então, é claro que não é nem um pouco legal obrigar alguém a fazer sexo se existe alguma questão que incomoda rolando — e essa questão pode ser exatamente o sanguinho saindo da pepeca. Mas aí temos duas questões:

1) Há muitas formas de se fazer sexo. Se essa situação está rolando, a pessoa que tem nojo pode, por exemplo, não querer fazer sexo oral em você, porque isso exigiria um contato muito direto com o sangue. Mas será que não rola transar de camisinha, de uma forma que nem teria tanto contato assim com o sangue? Será que não rola colocar um absorvente interno ou coletor menstrual para a pessoa fazer sexo oral? Existem muitas formas de dar e de receber prazer! Ter criatividade, em uma situação dessas, é fundamental.

2) Pensar de onde vem esse nojo. Ok, ninguém é obrigado a fazer nada que não queira fazer. Mas talvez seja um exercício legal pensar o motivo pelo qual estamos sentindo nojo de menstruação. Será que não é um reflexo de anos e anos de criação em uma sociedade machista, que sempre ensinou a todo mundo que menstruação era suja e tinha que ser escondida? Olha, na maior parte das vezes é por isso mesmo. Então, é sempre bom se propor a desconstruir essas coisas bobas. Agora, de verdade, não tem n a d a de errado em transar menstruada! Se você quiser e a outra pessoa também, vai fundo! E, assim como em quase todas as questões que envolvem sexo: sinceridade, comunicação e respeito mútuo são essenciais.

Quais são os tipos de absorventes que existem? Quais eu posso usar? Beatriz Quadros

Absorvente externo noturno com abas: este é o que eu uso, desde que, com muitas tentativas, descobri o que melhor se adequa à minha menstruação (que é forte). Quando comecei a menstruar os nomes e os tipos de absorventes me confundiam. Qual era a diferença entre o “com abas” e o “sem abas”? Por que existe o “noturno” e o “médio”? Por que o “noturno” é maior que o “médio”? O absorvente diário precisa ser diário? Ele também serve para menstruação? Se eu usar o absorvente interno eu perco a virgindade??? Enfim, são muitas questões para a quantidade e variedades de absorventes que existem. Vamos lá:

O absorvente externo com abas é ideal para não ficar “sambando” pela calcinha e, assim, evita o vazamento de sangue na roupa. O absorvente sem abas é mais adequado às pessoas com pouco fluxo ou no início da menstruação, pois existe menos risco de grudar na calcinha e deixar uma marca de adesivo por um bom tempo.

Cada tipo de absorvente é relacionado ao fluxo, então, quanto maior o fluxo, maior e mais largo será o absorvente. Isso também funciona com o interno: se seu fluxo é como o meu, forte, o ideal é o noturno. Se seu fluxo é normal, o médio é o ideal. Este tipo de percepção vai sendo observado de acordo com a sua menstruação. O início dela é irregular, então você vai observar uma regularidade apenas com o passar dos anos e, assim, verá o tipo de absorvente ideal para ti.

O absorvente diário (que é bem pequeno) é ideal para o início e o final da menstruação (para não manchar a calcinha). Não é indicado usá-lo todos os dias, já que a vagina precisa respirar e o absorvente diário acaba abafando-a, podendo gerar complicações com o PH vaginal.

O absorvente interno, como o próprio nome já diz, deve ser inserido na vagina e ficar lá dentro durante no máximo quatro horas. Muitas meninas o preferem porque não causa alergia como o absorvente externo (pelo contato com o algodão e adesivo com a pele) e ele não vaza com a mesma facilidade que o externo pode vazar. Você não perderá a virgindade (e seu hímen não irá romper) ao usá-lo.

Claro que não há apenas a opção dos absorventes descartáveis para serem usados. Há os absorventes de panos externos, como este aqui (que duram bastante e basta lavar no chuveiro e deixar secar para usá-lo novamente) e o coletor menstrual, que já falamos aqui na Capitolina. Estas opções são ótimas para não poluir mais a natureza (já que os absorventes descartáveis demoram bastante tempo para sumirem no mundo), economizar dinheiro (já que você só precisará comprar um desses novamente depois de anos) e ajudar o seu corpo a lidar melhor com esta fase que passamos todo mês (no caso do coletor há relatos de que a cólica melhora, e também é ótimo para lidar bem com o sangue que sai da gente, já que por causa dos aditivos químicos e do contato com o oxigênio ele acaba ficando com aquele cheiro ruim. Sem contar que, para as meninas que possuem alergia, é ótimo — e bem bonito, esteticamente falando.

Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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