22 de março de 2015 | Ano 1, Edição #12 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Despatologizando identidades trans
Ilustração: Gabriela Sakata.

Todas as vezes que a transexualidade é debatida em programas de TV’s, obrigatoriamente, nós vemos psiquiatras ou psicólogos naquele espaço. Sempre com seus discursos patologizantes, estarão lá nos colocando como pessoas que possuem um transtorno apenas por não se identificarem com uma designação feita pela sociedade. Ou seja, se não corresponder às expectativas de terceiros em relação a como, supostamente, eu deveria ser, logo, estou sofrendo um transtorno.

Grande parte das vezes, esses discursos patologizantes vêm acompanhados de frases que banalizam nossas identificações. Nos colocando como pessoas que se “fantasiam”, que se “vestem”, que “acham” que são, que “querem” ser. Assim, também sedimentando a já marginalizada condição de subumanos que grande parte da população T vivencia em seu dia a dia.

Nós, pessoas trans, precisamos estar em constante embate para legitimar nossas identidades. Por mais que muitos usem o discurso da patologia para se construir enquanto trans, precisamos ver que esse discurso se tornou arma de terceiros para tentar nos provar, de forma pífia, que não somos assim e que tudo isso é por conta do transtorno que vivenciamos ao não nos vermos dentro das caixinhas que esperam que nós ocupemos.

Enquanto a sexualidade hoje não é mais patologizada, a identidade de gênero ainda crava batalhas para se ver livre das correntes da medicina.

Durante pesquisas de transfeministas em busca de material para criação de artigos sobre a despatologização, foi-se encontrado que psiquiatras gays foram de extrema importância para a homossexualidade deixar de ser vista enquanto patologia. Porém, quando existirão psiquiatras transexuais para ter a mesma abertura e legitimar seus posicionamentos dentro do âmbito da medicina, quando um número ínfimo de nós conseguem entrar na universidade? E se, infelizmente, não estamos lá, onde estão esses psiquiatras gays para estender seus esforços e agora lutar pela despatologização das identidades? A empatia seletiva do movimento LGBT sempre se fez presente. Dentro de um movimento umbiguista e onde os homens gays cisgêneros desde muito tempo recebem mais atenção em suas demandas, a invisibilidade do T é real, demarcando nossa marginalidade não só na sociedade como um todo, mas também dentro do próprio movimento dito como LGBT.

A luta pela despatologização é pela autonomia. É por pautarmos, finalmente, que assumir sua transexualidade não é uma doença, mas sim uma transcendência. É uma libertação de espírito. É como andar em um grande campo e se sentir, enfim, livre. Dono de si. Abrir nossas asas e voar. Voar longe. Atrás de nossos sonhos, de nosso futuro feliz, de nossa vida plena como nos identificamos. O trans de transexualidade é de transcendência, é de transformação. É o sentimento de se sentir, finalmente, si mesmo.

Pela despatologização das identidades trans. Pelo direito de dizermos quem somos.

Maria Clara Araújo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Futura pedagoga e feminista que transversaliza as questões de gênero e raça. Meu nome se tornou uma alusão à minha transparência em relação aos meus sentimentos. Pisciana, sinto como se eu fosse um mar misterioso e difícil de se velejar.

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