29 de março de 2015 | Ano 1, Edição #12 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
O desvario como liberdade e solidão
Ilustração: Clara Browne.

Buscar a solitude é, de certa forma, se entregar ao desvario. A solitude pode ser um lugar de conforto, o único lugar em que nos sentimos à vontade para ser quem somos. A solitude é uma escolha, um lugar confortável, onde escolhemos estar sozinhas e nos sentimos bem com isso. A solidão não é voluntária, é um sentimento de abandono e isolamento que gera angústia e mal estar.

Não sei o que causa solidão. Sei que não é só ficar sozinha, porque às vezes me sinto sozinha quando estou em uma multidão, no metrô cheio, em shows de bandas que gosto, em um bar com minhas amigas e não tem muito como fugir da angústia. Ficar sozinha quando quero é bom. É baixar Pretty Little Liars, fazer um miojo e tomar Coca-Cola Light em uma quinta-feira à noite e depois pintar minhas unhas. Mas isso é a solitude, que é um sentimento diferente: é a escolha de estar solitária. Solitude é gostoso e às vezes é necessário. Solidão é terrível e eu acho que só queria ter sentido uma vez na vida, assim até poderia entender e escrever a respeito, tipo catapora.

Solidão é desesperador. Às vezes tentamos preencher o vazio que a solidão causa compensando com atitudes compulsivas ou destrutivas, mas claro que não adianta. Eu sei qual é minha compulsão de escolha quando me sinto sozinha por muito tempo e volto para ela mesmo sabendo que nunca resolve e nunca vai resolver nenhum problema. Mas, às vezes, me perder no desvario do momento é mais gostoso do que reconhecer a angústia causada pela solidão e por isso caio nos padrões de compulsão que podem levar ao desvario quando perco o controle. Talvez o contrário também seja verdade: quando nos isolamos para evitar certos comportamentos e nos tornamos solitárias, isso também pode ser destruidor.

Aprender a estar bem sozinha é essencial para sobreviver à solidão sem ir à loucura. Por mais bem resolvida que eu seja, às vezes ainda tenho dificuldade de seguir minha vida sem a presença de certas pessoas do passado. Claro que a solidão não é apenas causada por ausência de amizades ou relacionamentos afetivos. A solidão também acontece quando estamos cercadas de pessoas com quem não nos identificamos. Quando somos uma única voz em uma multidão, a luta é solitária e nos leva à loucura. Mas essa é uma solidão que podemos batalhar sabendo que outras pessoas já estiveram e estão nessa posição. É uma luta que pode se tornar solitária e não sozinha – porque a verdade é que raramente estamos sozinhas, mesmo quando tudo indique ao contrário.

Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Rebecca Raia tem 25 anos, é formada em Relações Internacionais e cursa pós-graduação em Museologia. O emprego dos sonhos da Rebecca seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis - mas ela não dispensa noites preguiçosas em casa assistindo a séries e filmes enquanto come panquecas no jantar. Ela também gosta de roupas floridas e aconselhar desconhecidos sobre relacionamentos afetivos.

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