2 de maio de 2014 | Ano 1, Edição #1, Literatura | Texto: | Ilustração:
Diário da princesa e a questão da identidade
diarioprincap

Ilustração: Verônica Vilela.

Uma das questões mais debatidas na seara feminista é a problemática da imposição de um padrão de beleza para as mulheres. Concursos de beleza, o ideal de magreza das modelos e afins são meios pelos quais a sociedade nos passa a ideia de que não somos bonitas o suficiente, que precisamos sempre almejar o padrão. Então O Diário da Princesa é anti-feminista, certo? Com toda aquela coisa de princesa. Tem que ser, certo? Não é bem assim.

O livro tem seus prós e contras, como tudo na vida, mas analisemos melhor os pontos principais do filme. Ao meu ver, o ponto-chave das críticas feministas em relação a essa estória está na transformação da Mia, personagem principal. Ela é uma garota que atende o estereótipo nerd, óculos, cabelos rebeldes, desconhecimento absoluto de maquiagem, sobrancelha por fazer, gosto duvidoso para se vestir. E depois que ela descobre sua linhagem real, a Mia passa por uma transformação “mágica” e passa a ser uma moça com a pele perfeita, cabelos alisados e sedosos, o óculos byebye!, vestidos sob medidas, tadan!! Era necessário? Não. Só reforçou a ideia comum de que uma garota de cabelos rebeldes e com óculos não é bonita o suficiente para ser considerada uma princesa.

Mas isso acontece no filme, sabia? No livro há um embate forte da Mia para não ser transformada. Ela se recusa a ter que se adaptar, ela se impõe insistentemente contra a vontade da avó de ensiná-la a ser uma princesa através de uma mudança drástica em sua aparência. Simplesmente vai contra seus princípios. Mia é tão oposta a essa ideia que discute com seu pai sobre, afirma que aquela não é a Mia, é uma outra pessoa, e que ela não vai servir de boneca pra satisfazer ninguém.

O pai de Mia chega a oferecer um pagamento para ela deixar que a avó a mude, para que ela considere uma espécie de trabalho. E isso só a irrita ainda mais. O único jeito de convencê-la é um acordo de doação diária de cem dólares para o Greenpeace, uma causa que a Mia apóia.
Vê? O livro já começa a ficar mais interessante, não? A Mia se posiciona como uma feminista, inclusive. Não fez muito sentido o modo como foi interpretada a transformação nos filmes. Na minha humilde opinião, livros são melhores que filmes, sempre, e têm um cheiro delicioso. Ponto pro livro.

Um outro ponto que me chama muito a atenção no livro é a questão da identidade da Mia. Ela tem uma identidade já formada e não a altera quando vira uma princesa. Seus ideais continuam os mesmos, ela luta pelo que acredita. O exterior mudou, mas o interior ficou intacto. É uma mensagem muito importante para as meninas de hoje. O mundo, a vida, a sociedade, tudo pode nos jogar dezenas de diferentes situações ao longo dos anos que podem nos transformar, mas temos que saber, no fundo, quem somos e quem queremos ser. Não desistir do seu eu pelo próximo, pela família, pela carreira, pelos amigos, por ninguém. A sua identidade é algo que ninguém vai te tirar – ou não deveria. É exatamente quem você é e, se perder isso, o que sobra?

Para concluir o meu amor por esse livro, quero ressaltar que personagens devem ser falhos, ou seja, humanos. E eu encontrei falhas na Mia que me fazem conseguir me relacionar com ela. Primeiro: ela tem uma queda pelo garoto bonito e acha que não tem muita chance. Quem nunca? Quase todas nós já passamos ou passaremos por essa pequena amostra de baixa auto-estima. E é normal, relaxa. Você não é obrigada a se sentir 100% segura 24h por dia, 7 dias por semana. Somos humanas, somos falhas. O que podemos te dizer é: você é linda, fim. Você tem motivos pra se sentir segura de si, mas se não se sentir, não tem problema, estamos aqui pra te reafirmar: você é linda.

Segundo ponto: a Mia deixa um pouco de si no que concerne vontades e sentimentos em prol do outro. Logo no começo do livro podemos ver a Mia engolindo a vontade de dizer pra mãe que não se sente confortável em vê-la saindo com seu professor de álgebra e isso porque ela vê a felicidade de sua mãe, ela coloca a mãe acima de qualquer sentimento próprio em relação àquilo. De novo, quem nunca? Em algum momento da vida acabamos por ceder em benefício de quem amamos, não é exatamente algo ruim.

Então, aqui fica a nossa dica de livro pra você que está cansada em ler sonhos e contos de fada que nos deprimem quando confrontamos nossa realidade. O Diário da Princesa é mais do que uma simples estória de uma suburbana que virou realeza, pode ser uma mensagem importante para vocês, meninas! Antes de querer ser uma princesa, queira ser você. Sempre. Você é muito melhor do que um ideal de comportamento e beleza.

Priscylla Piucco
  • Membro do Conselho Editorial
  • Coordenadora de Relacionamentos & Sexo

Priscylla. Apaixonada por seriados, kpop, reality show ruim, Warsan Shire e as Kardashians. Odeio o Grêmio e cebola. Prazer, pode chamar de Prih agora.

  • Lorena

    Oi Prih! Ficou ótimo. Meg Cabot tem esse jeito sutil de mostrar pras pessoas que it’s ok to be the way you are, né. Ainda não li essa série, mas comprei o primeiro livro há um ano e isso me fez querer ler mais.

    • Priscylla Piucco

      Oi, minha linda! Fico muito muito muito feliz que tenha gostado, não tens noção! Os livros não tem a única coisa que me incomodava um pouco no filme, que é justamente a questão da aparência. Eu li o primeiro pra fazer essa matéria, to be honest eu não tinha muito interesse antes porque eu desanimo de ler quando vejo a versão cinematográfica primeiro. Mas adorei!

  • Luísa

    Desde nova assisto ao filme na Disney e eu o adoro, confesso, mas nunca tive muita vontade de ler ao livro. Agora, estou quase saindo pra comprá-lo! Não fazia ideia de que era diferente assim do filme, obrigada pela dica!

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