14 de janeiro de 2016 | Artes | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Diários fotográficos: as nossas vidas comuns importam

Quando criança, um dos meus passatempos prediletos era ver a caixa de fotografias da casa da minha vó. Aquilo era praticamente um tesourinho. Havia registros de tamanhos, décadas e pessoas diversas que passaram pela vida de vovó. As imagens eram especialmente únicas, porque naquela época a fotografia era uma prática cara, pelas câmeras, e o fato de serem analógicas, com rolos de filmes, impedia que as pessoas tirassem dez fotos de cada vez.

Hoje, as coisas são diferentes: apesar de ainda existirem rolos de filme à venda, a maioria das fotos são batidas digitalmente, o que amplia muito as nossas possibilidades na quantidade de fotografias. Além disso, são mais acessíveis as câmeras digitais portáteis, e mais ainda as câmeras de celular. Hoje, qualquer pessoa tira foto do que quiser com facilidade, mas… tirar foto pra quê?

Oras, para registrar. A construção da memória de um país ou de um povo é importantíssima, mas também o é a construção da memória pessoal. Esses dias, a atriz Fernanda Montenegro disse em uma entrevista que o que a assusta é “A possibilidade de perder minha memória, porque eu sou a minha memória”. Você, mesmo ainda jovem, de vez em quando deve parar para olhar fotografias de uns anos atrás, ver como cresceu, com quem andava, como era seu jeito, todas essas coisas nostálgicas, acertei? Da mesma forma, quem já escreveu diário na adolescência e hoje encontra o maldito no fundo de alguma gaveta também se emociona lendo seu “eu” de alguns anos atrás a registrar a vida.

O texto de hoje é para quem gosta de guardar a memória através da fotografia. A isso, chamamos diário fotográfico, uma experiência super bacana de organização dos registros! Como muita gente tira foto do celular, pode vir a calhar que a organização desse “diário” seja virtual. Algumas pessoas acham, por exemplo, o Instagram um aplicativo “fútil”, mas isso é besteira. Ele é bacana porque te deixa editar as fotos e deixa-las mais bonitonas ainda, te deixa marcar as pessoas presentes na foto e o lugar onde ela foi tirada, e ainda por cima suporta hashtags – sabendo quais são elas, você pode ser transportada pra listas e listas de fotos de várias pessoas do mundo.

Existem ainda outras plataformas online e gratuitas, como o Flickr, que reúne vários fotógrafos amadores e profissionais do mundo todo, e blogs WordPress que, se configurados com um template bacana, também podem dar conta do recado. E, claro: sempre existe a diversão antiga, mas não ultrapassada, de montar um diário fotográfico real, daqueles que você pode pegar na mão.

Para isso, basta comprar um álbum de fotos ou mesmo um caderno, pautado ou sem pauta, colorido ou branco, espiral ou brochura, cada uma decide sobre o seu! Se você tiver em casa uma câmera analógica prontinha para usar, é só comprar o rolo de filme adequado e depois revelar em um desses centros de revelação ou mesmo em quiosques e supermercados que fazem o serviço. Se você faz as fotos digitalmente, basta checar se o tamanho das fotos é suficiente para impressão (por isso é importante tirar as fotografias com bastante qualidade) e imprimir em casa (mas o resultado vai ficar meio trash) ou levar em um pendrive até os centros de revelação. O diário é seu e é você quem escolhe se vai colocar data certinho para cada foto, se vai escrever legendas e textos em volta, se quer fazer intervenções nas fotos com canetas permanentes…

Como, repito, o diário é seu!, sinta-se à vontade para dar a ele a cara que você quiser. Vale foto de galera, de família, de paisagem, de detalhes, de situações engraçadas, de coisas bonitas & poéticas. Eu encaro o meu Instagram assim e tenho fotos das mais toscas (mas que significam bastante para mim)…

Uma foto publicada por Helena (@helenadaora) em

…às mais metidas a conceituais, porque a vida é bonita demais para não registrar de vez em quando, com muita breguice, os significados que nos são importantes.

Uma foto publicada por Helena (@helenadaora) em

Essa semana, por exemplo, postei meu primeiro trajeto pela cidade como ciclista. É o tipo de coisa que não importa para mais ninguém, mas que é uma recordação bacana sobre meu crescimento e as alternativas para ocupar a cidade. O importante é ter equilíbrio, para não ser aquela pessoa que deixa de ver o mundo para tentar fotografá-lo; e ter sinceridade, porque assim as fotografias saem ainda mais lindas e legais, e seu diário toma cada vez ainda mais sentido para quem mais importa nessa brincadeira: você mesma.

Fico ansiosa para rever meus diários daqui a dez anos e relembrar como era viver com 20 anos. Fernanda Montenegro tem razão sobre o tanto de nós mesmas que é memória, mas acrescento, com muita humildade, que tem um outro tanto que faz a gente: o futuro.

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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