9 de julho de 2015 | Ano 2, Edição #16 | Texto: and | Ilustração: Isadora M.
Diários: por que e para quem escrevemos

[Brena] Eu sempre tive diários, lembro de ser pequena e ter aqueles com cadeados que vinham com uma chavinha que não protegia nada; um pouco mais velha usava cadernos normais, sem cadeado, mas sempre escondia em algum lugar do meu quarto pra que ninguém lesse. Eu falava mal da escola, de mim, dos meus amigos, contava eventos que eu considerava interessantes, mistérios da vida escolar, quem estava ficando com quem, quem já tinha ficado com quem, por que eu me odiava, por que eu me amava, como eu queria ser.

Continuo tendo diários e surpreendentemente os temas são os mesmos. Escrever em um diário é uma forma de confissão que não exige o outro. Eu posso escrever, colocar meus demônios pra fora com a certeza de que ninguém vai ler, um privilégio incrível. Às vezes eu tenho uns pensamentos tão vergonhosos, mas tão vergonhosos que tenho vergonha até de pensar, mas pros meus diários eu podia escrever, sem medo de ser feliz, tirar aquilo da minha cabecinha.

Quando eu tava pensando sobre essa pauta lembrei de um livro que minha amiga Nanda me deu já faz uns seis anos que se chama Cringe. “Cringe” é quando você dá aquela subida de ombros, fecha um pouco os olhos e faz uma cara meio feia, mas no livro “cringe” é aquele sentimento de vergonha alheia. Vergonha alheia é quando você quer se enfiar num buraco no chão, desviar o olhar de uma fala ou ato que vem do outro. O livro é composto por trechos de diários escritos durante a adolescência, e há uma mistura maravilhosa de vergonha alheia e identificação. Com esse espírito resolvi revisitar os meus diários.

Sabe aquela caixa de sapatos que guarda as cartinhas que suas amigas escreveram pra você na sétima série? Aquela entrada do cinema de quando que você ficou com seu ex pela primeira vez do lado do lenço que seu avô usava quando tava vivo, da foto de turma da terceira série, o cartão da primeira comunhão. É lá que eu guardo meus diários antigos.

Outra vantagem de ter diários: você guarda um pouquinho de si mesmo, uma espécie de fotografia falada, seus sentimentos e opiniões de uma época. E aí, você pode se revisitar de vez em quando, ver o que mudou, o que não mudou, uma cápsula do tempo. É uma viagem, pra escrever isso aqui eu resolvi desenterrar os meus. Lembrei do dia que matei aula com meu irmão, da viagem pra Minas Gerais na sétima série, e de algumas coisas que não quero contar.

***

[Luiza] Que o diário é uma válvula de escape pros nossos sentimentos em relação às complicações e delícias da vida todo mundo concorda, e tudo que a Brena disse bate com o que eu penso sobre esse hábito gostoso, principalmente a parte sobre eles serem um retrato escrito do nosso passado – reler diários antigos é ao mesmo tempo engraçado e revelador. Mas eu ainda consigo enxergar outras razões de ser pro diário, e talvez elas ajudem a convencer quem nunca curtiu ou teve paciência pra escrever a tentar.

Porque apesar do senso comum ditar que o diário é algo secreto, ele também nos mostra – e os filmes e livros estão aí pra provar – que esse segredo raramente permanece escondido. Pensem em todas as histórias deflagradas por diários descobertos ou roubados. Quer dizer, o diário tem uma dupla função na sociedade, se podemos dizer assim: permanecer escondido e ser encontrado. Nesse sentido, ninguém escreve só para si. Estamos sempre, até quando escrevemos só pra gente, projetando um leitor em potencial. E isso abre espaço pra encararmos o diário como ficção. Não significa que você deva mentir no seu diário, mas que pode e deve usá-lo como exercício de escrita, de estilo, de criatividade. O diário é um gênero literário como qualquer outro.

Aliás, eu sugiro, pra que quem curte essas coisas, fazer o exercício de escrever um diário inventado – ou pra um personagem que você mesma criou ou para um que já exista na ficção. Eu já escrevi um diário pra Charlotte, do filme Encontros e Desencontros, e foi uma experiência transcendental.

Outra coisa que faz valer a pena escrever diários, e que está diretamente ligada a essa questão da ficção e ao fato de eles serem uma janela pro passado, é algo que a minha professora de teoria da literatura chamava de “desejo subconsciente de posteridade”. Ninguém quer ser esquecido, mas pouca gente atinge um nível de “fama”, assim entre mil aspas, que lhe garanta entrar pros anais da história. O diário é uma maneira de contar a sua versão da sua história e deixar isso pra alguém no futuro – como uma cápsula do tempo. Pense que você pode estar ensinando alguma coisa sobre o nosso modo de pensar e agir pra uma civilização bem diferente da nossa. Acho muito instigante essa ideia.

O mais engraçado é que mesmo eu tendo entrado em contato direto com essas ideias sobre diário e ficção só na faculdade, relendo os meus diários da adolescência, eu percebo que já estava tudo lá: inclusive esta espécie de “carta a quem quer que seja”, no caso de ele ser encontrado. Risos.

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E temos ainda um bônus, se você realmente quiser esconder alguma coisa no seu diário, ou mandar uma mensagem a uma amiga sem que ninguém descubra o que está escrito: um pequeno tutorial de como criar alfabetos secretos.

A base da criptografia é a substituição de símbolos, então se quiser um alfabeto só seu, você precisa substituir as consoantes e as vogais com base em algum padrão que faça sentido pra você e pra mais ninguém (ou só pra quem você quiser contar). Você pode criar uma regra de modificação pras consoantes (por exemplo: espelhar as letras, ou substituir sempre pela letra seguinte do alfabeto) e outra pras vogais (por exemplo: usar o mesmo símbolo sempre, com um tracinho em cima quando for a letra “a”, dois quando for a letra “e” e assim sucessivamente). Quanto mais padrões você inserir, mais difícil vai ficando. Você pode usar um padrão pras consoantes até a letra “n”, e outro do “p” pra frente… pode dividir as vogais também. Enfim, seja criativa. O importante é seguir direitinho o padrão que você criou.

Eu passei essas dicas pra Brena e ela escreveu uma mensagem num código bem simples pra gente (eu e vocês) decifrar. E aí, conseguem?

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A resposta vem lá embaixo, depois dessas fotos incríveis dos diários de algumas capitolinas.

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E a mensagem da Brena, decifraram? “Deixem os segredos de vocês nos comentários” 😉

Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

Luiza S. Vilela
  • Coordenadora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Esportes
  • Revisora

Luiza S. Vilela tem 28 anos e mora no Rio, mas antes disso nasceu em São Paulo, foi criada em Vitória e viveu uma história de amor com Leeds, na Inglaterra, e outra com Providence, no Estados Unidos. Fez graduação em Letras na PUC-Rio e mestrado em Literatura e Contemporaneidade na mesma instituição. É escritora, tradutora, produtora editorial e acredita no poder da literatura acima de todas as coisas.

  • Laíza Helena

    O diário nos ajuda muito a lidar com sentimentos

  • Raquel Carneiro

    Amei muito esse texto. Tenho diários desde antes da adolescência. E meu primeiro fala coisas como “Hoje meu pai deu uma boneca pra mim e pra minha irmã. Ela brigou porque queria a minha. Depois fomos tomar sorvete com a minha avó”. Sentia que PRECISAVA escrever tudo o que tinha acontecido no dia.
    Depois na adolescência: garotos, garotos e mais garotos. Escrevia como se fosse pra uma melhor amiga, que fosse como eu mesma kk.
    E agora… Agora nem sei,rs. Às vezes parece que estou falando com Deus, às vezes escrevendo pra eu mesma daqui alguns anos. Tipo, “Raquel, agora que você entende mais das coisas, olha em tudo o que pensava! Quanta asneira! Ou não…”
    Acho que eu posso ficar meses sem escrever no meu diário, mas ficar sem diário, não.
    Obrigada! Me fizeram feliz!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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