11 de agosto de 2014 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração:
Diretoras: Nadine Labaki

 

Em setembro, chega aos cinemas o filme Rio, eu te amo. Para quem não sabe, ele é parte da franquia “Cities Of Love”, responsável também por Nova York, eu te amo e Paris, eu te amo.

Em cada filme, vários diretores são reunidos e cada um é responsável por fazer um curta-
metragem que se passa na cidade em questão. Olhando os escolhidos para a versão carioca, uma coisa nos chamou atenção: dos dez curtas, apenas um é dirigido por uma mulher. E claro, é sobre ela que queremos falar.

Nadine Labaki é uma atriz e diretora libanesa, que ganhou prêmios e reconhecimento internacional com seus longas Caramelo e E agora, onde vamos?. Ambos são focados em mulheres e se passam no Líbano. Ela já disse em algumas entrevistas que mesmo tendo a liberdade de viajar e de trabalhar no que gosta, ainda assim sente o peso das tradições familiares, da educação e dos costumes do seu país. Fazer esses filmes é como uma busca de uma verdadeira identidade, que ela percebe nela mesma e também em outras mulheres libanesas. Foi desse pensamento que surgiu seu primeiro longa-metragem, Caramelo (2007), no qual ela também atuou e foi co-roteirista. Nessa comédia romântica, acompanhamos os anseios de cinco mulheres de diferentes idades em um salão de beleza. Por um lado, é uma história universal com temas como a amizade feminina, a busca pelo amor, sexualidade e envelhecimento. Por outro, podemos perceber particularidades da cultura libanesa, como quando a personagem Layale (Nadine Labaki) tem dificuldades de reservar um quarto de casal em um hotel, porque não tem uma certidão de casamento ou quando Nisrine (Yasmine AlMassri) e Bassam (Ismail Antar) estão discutindo no carro de noite e são acusados por um guarda de atentado ao pudor, já que não podem provar que estão noivos.

Seu filme seguinte, E agora, onde vamos? (2011), foi um sucesso no Líbano, sendo a maior bilheteria de um filme em árabe e a terceira maior, contando com filmes internacionais. A crítica também foi positiva e o longa ganhou alguns prêmios, incluindo uma menção honrosa no Festival de Cannes. O filme conta a história de um vilarejo libanês, onde católicos e muçulmanos vivem em harmonia. Porém, notícias de conflitos religiosos aumentando no resto do país acirram os ânimos dos homens dali e uma cruz que aparece quebrada na igreja é o estopim para que eles comecem a brigar. As mulheres do vilarejo começam então a usar toda a sua criatividade, elaborando estratégias para dar um basta na escalada de ódio e intolerância que surge ali.

Apesar de ser um tema pesado, o filme tem muitos elementos de comédia, incluindo até música e dança. Nadine diz que acredita que o riso pode ser o caminho para a cura, porque rindo dos nossos erros, começamos a corrigi-los. Há sim situações muito dramáticas ao decorrer da trama, afinal não se pode negar a seriedade do assunto, mas a própria diretora diz que a vida não é tragédia o tempo inteiro. Ela diz admirar muito mulheres que conheceu que já passaram por situações inimagináveis, como perder filhos na guerra, e mesmo assim não perderam a capacidade de rir e fazer piada, enfim, de viver.

Outra questão que dá ao filme um ar de fábula é o posicionamento dos líderes religiosos do vilarejo, que ajudam nos planos das mulheres e tentam guiar seus seguidores no caminho da paz. Nadine colocou propositalmente essa questão, porque é como ela gostaria que as autoridades se comportassem em situações de conflito. Uma característica que esses dois filmes compartilham é que a maior parte do elenco é formada por pessoas comuns, não são atores. Ela faz isso porque acredita que as pessoas comuns merecem estar nas telas e ter suas histórias contadas. Além disso, ela atua nos próprios filmes e diz que isso ajuda na direção, pois a permite estar perto dessas pessoas, rompendo a barreira que existiria se um realizador apenas as observasse do outro lado da câmera.

Quando estamos sendo apresentadas a culturas diferentes da nossa, podemos facilmente cair no estereótipo e até no preconceito. Por isso é tão legal assistir a filmes que sejam feitos por pessoas que de fato vivenciaram a cultura sobre a qual estão falando, como é o caso de Nadine. Muitas vezes se pensa que as mulheres árabes são necessariamente submissas, mas nesses dois filmes, elas tomam as rédeas de suas vidas e de maneira nenhuma são passivas em relação ao ambiente à sua volta.

Por todas essas qualidades, estamos ansiosas para assistir ao curta de Nadine Labaki em Rio, eu te amo.

Bárbara Camirim
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Camirim tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e acabou de se formar em Comunicação Social. Está aos poucos descobrindo o que quer fazer da vida. Gosta de cinema, séries, literatura e, na verdade, qualquer coisa que envolva ficção.

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