9 de setembro de 2014 | Edição #6 | Texto: | Ilustração:
Dissecando seus medos
Ilustração: Helena Zelic.

Ilustração: Helena Zelic.

O medo é um sentimento intenso desses que a gente não sabe dizer, apenas sentir. Assim como é quase impossível explicar o que motiva uma paixão, é difícil entender o que causa nossos medos. Quem tem medo de altura sabe que no auge da vertigem raciocinar não vale nada. Justamente por isso é muito importante refletir sobre os nossos medos, porque eles são uma parte fundamental de quem somos e de quem podemos ser.

Na velocidade dos dias, não dá muito tempo para analisar nossas escolhas. Mas a verdade é que quase tudo que somos faz parte de um processo muito antigo e envolve questões que superam nossa realidade individual. Nós, seres humanos, somos construídos aos pouquinhos – quem somos depende muito do lugar onde nascemos, do nome que ganhamos, das pessoas com quem convivemos, enfim, de tudo que de alguma maneira nos influencia. Eu sou viciada em café porque desde que me conheço por gente minha família inteira ama essa bebida. E talvez eu tenha medo de altura porque fui uma criança superprotegida que nunca aprendeu nem a subir em uma árvore.

Pensando assim, com calma, dá para perceber que alguns medos e preconceitos podem ser desconstruídos. É claro, não é fácil: infelizmente, não é porque compreendemos algo que nossos sentimentos mudam. Mas acredito que analisar um medo é um bom modo de aliviar a sua intensidade e, principalmente, de se conhecer melhor. Porque alguns medos são, na verdade, hábitos. Por exemplo, quem tem muito medo de falar em público pode mudar isso com um pouco de paciência, tempo e tentativas. Não vai ser tranquilo, a mão vai suar e o peito acelerar, mas é importante tentar até que se torne algo difícil, mas não impossível; até que você construa o hábito.

Às vezes temos medo de algo só porque é estranho à nossa realidade. O desconhecido assusta, mas só tem um jeito de superar isso: conhecendo. Alguma experiências são aterrorizantes, porque não sabemos o que fazer ou o que pode acontecer. Mas não saber não é necessariamente ruim, pode ser emocionante. Um exemplo é a primeira vez que beijamos alguém: mesmo que não seja o primeiro beijo da sua vida, é sempre um terrorzinho de que tudo pode acontecer. Não se permitir ao desconhecido é deixar de correr riscos e perder todas as possibilidades, até as mais incríveis.

Tenho que admitir que desse medo eu entendo bem. No vídeo dessa edição, falei sobre meus medos mais graves: de errar e de me expor. Refletindo sobre esses medos entendi que isso não é nada mais do que um medo de ser vulnerável. Porém, existir é um exercício de vulnerabilidade. É um clichê por ser uma realidade óbvia: até que a gente aprenda a andar, são necessários muitos tombos. Se eu não me permito errar, não posso crescer. Se me apego a um medo (porque lidar com ele me coloca em uma posição frágil), não quer dizer que eu esteja segura, significa apenas um estado de negação.

O que quero dizer com esse texto não é que devemos enfrentar todos os nossos medos e sermos invencíveis. Isso não seria nem um pouco razoável. É justamente o contrário: todos nós somos frágeis, todos temos nossos limites e a vida é imprevisível. Lidar com nossos medos não significa se tornar destemida. É apenas um meio para se conhecer melhor, se permitir novas tentativas, se movimentar e crescer. Eu sei que alguns medos vão me acompanhar, mas também sei que é possível se acostumar. O medo de errar e me expor atrapalhava muito na hora de escrever – que é das coisas que eu mais gosto de fazer – e isso já paralisou minha criatividade e me impediu de mostrar as coisas que escrevo até para amigos mais próximos. No entanto, estou aqui escrevendo esse texto – com medo de não ser bom o bastante – para a Capitolina, que é lida por milhares de pessoas. Faço isso com todas as minhas dificuldades, porque foi justamente nessa revista que descobri que não tem problema errar, porque esse é o único modo de me descobrir. O que importa é esse tipo de desafio. Ninguém precisa correr riscos desnecessários – lidar com o medo é apenas se abrir ao mundo e às possibilidades de transformação que ele nos dá.

Tags: , ,
Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos