6 de junho de 2014 | Edição #3 | Texto: | Ilustração:
A florada da pele
Ilustração: Bárbara Fernandes.

Ilustração: Bárbara Fernandes.

Não tenho propriedade acadêmica nenhuma para falar sobre doenças de pele. Ainda assim, a propriedade que eu tenho para falar sobre esse assunto é maior do que a de muito médico. É que o acúmulo que eu tenho depois de quase vinte anos de dermatite atópica não é brincadeira. Nada é como a experiência pessoal de dormir e acordar com a pele coçando, ardendo e doendo, dia após dia. Você se vê forçada a aprender mais sobre sua doença e seu organismo para que possa ajudar a si mesma.

Não que eu queira me gabar, mas dou muita dica de creme, pomada, corticoide, anti-histamínico, cosmético, enfim, todo tipo de coisa para pele seca e sensível. Já dei dica até mesmo pra dermatologista. Mas é melhor eu não te dar essas dicas assim, de maneira tão oficial, por meio de uma revista. Um dia quando a gente sentar pra tomar um chá com bolo de fubá eu te conto tudo! Mas hoje não. Sabe como é, o que é bom para mim pode não ser bom para você, e, se você virar uma bola vermelha flamejante a culpa vai ser toda minha. Aí você vai me processar na Justiça, me botar no xadrez e eu me lasco.

Mas, calma, não vai embora, ainda tenho muita coisa pra falar! Pensei em algumas dicas para dar tanto para quem sofre com uma doença de pele quanto para aqueles que convivem com essas pessoas.

E vamos às dicas!

DICAS PARA QUEM TEM DOENÇA DE PELE

  • Saiba utilizar as informações e sugestões dadas pelo dermatologista. Com tantos anos de dermatite, já passei por muitos dermatologistas. Com cada um deles aprendi um pouco e soube adaptar esse conhecimento para o meu corpo. Explico: hoje, eu uso pomada recitada pelo médico X, hidratante indicado por Y, xampu receitado por Z… É um monstro de Frankenstein dermatológico, nascido sob medida e que atende às minhas necessidades específicas. É claro que eles são profissionais e, através de exames e investigações, podem te ajudar muito, então não passe por cima de suas recomendações. O que eu quero dizer é: não ignore a si mesma, pois, no fim das contas, ninguém sabe mais do seu corpo do que você!
  • Tente relaxar ao máximo em todos os momentos, pro resto da sua vida, porque muitos problemas de pele têm fundo emocional. Isso pode difícil pra uma pessoa ansiosa ou estressada. Nesses casos, um psicólogo é tão importante quanto um dermatologista. Aulas de yoga e pilates, com suas respirações, meditações e relaxamentos, também são muito bacanas pra tirar a nhaca do corpo e cabeça (se bobear, tem até vídeo dessas coisas todas no Youtube, vale a pena dar uma olhada).
  • Pra cima com a sua autoestima! Por muito tempo me escondi em meias-calças e blusas de manga comprida. Hoje vejo a grande besteira que fiz. Eu ficava desconfortável e raramente estava satisfeita com a minha seleção de roupas. Posso te dar um conselho? Sai com aquele vestido de alcinha com a saia da altura da sua bunda. Não, eu não estou maluca. E se alguém te tratar diferente ou não quiser ficar com você só por causa da sua pele, acredite: você não quereria estar perto dessas pessoas nem se tivesse pele de pêssego orgânico. Vade retro, gente ruim!
  • Cuide da saúde como um todo, não apenas da pele. Essa é a dica mais fresca que eu tenho. Comecei a seguir esse ensinamento no começo do ano, e, olha, vou te contar: nada do que eu já havia feito pra melhorar minha pele superou essa dica. Veja só, o negócio é lógico: tendo uma boa alimentação, um sono de qualidade e uma mente equilibrada, ficamos mais saudáveis como um todo. Assim, todo tipo de zica, desde gripe até doença de pele, é prevenida.
  • Não tenha o pensamento de que uma atitude isolada vai melhorar seu problema. Por exemplo, eu ouvia muito que óleo de prímula era bom para o meu caso. Eu tomei por um bom tempo esse troço, mas nada acontecia. Só fui ver resultados quando atrelei esse óleo à eliminação de doces, gorduras e carnes do meu cardápio. E aí não foi só minha pele melhorou, a mudança na alimentação também me deixou num baita bem-estar. Fiquei impressionada.
  • Saiba conviver com a doença. Em muitos casos, a doença não tem cura. Já que esse engodo estará pra sempre com você, é melhor ficar de bem com ele. Estude sobre sua doença, tente trocar informações com quem passa pela mesma situação que você, consulte vários médicos, se for possível. Aprenda suas limitações e saiba respeitar a si mesma.

DICAS PARA QUEM CONVIVE COM ALGUÉM QUE TEM DOENÇA DE PELE

  • Ofereça todo apoio e seja compreensivo. A instabilidade dificulta a ajuda, mas é assim que funciona: num dia estaremos parecendo confiantes como nunca, no outro podemos desabar em lágrimas. O importante é você demonstrar, com humildade, que está lá. Colocar-se no lugar da pessoa pode soar prepotente, porque simular é muito diferente de viver a situação. E tome cuidado para não ser omisso! Muitas pessoas (*cof* eu *cof*) têm medo de parecer um fardo, de ser alguém que vive reclamando. Cabe à sua sensibilidade captar as nuances do ser para contornar essa galera que gosta de se fazer de durona. Mas, mais uma vez: SENSIBILIDADE! Também pode acontecer de a pessoa não querer ajuda emocional. Nesse caso, respeite o espaço dela.
  • Não fique encarando as lesões na pele de uma pessoa. Nós percebemos quando alguém faz isso, e é extremamente desagradável. Tudo bem perguntar por que minha pele é tão manchada e vermelha, mas tenha SENSIBILIDADE ao fazê-lo. Agora, nunca venha questionar se é uma doença contagiosa. Não somos idiotas, e obviamente estaríamos tomando as precauções necessárias se nosso problema pudesse ser passado adiante.
  • Falar da doença o tempo todo é irritante! O tempo todo estamos tentando abstrair da dor e da aparência, e quando alguém fala sobre isso é como uma bigorna na nossa cabeça. Sim, de novo ela, a SENSIBILIDADE vem bem a calhar. É tênue a linha entre ser alguém presente e ser um mala sem alça.

E, por ora, acabaram as dicas. Mas, olha eu não quero que esse texto acabe por aqui. Não quero que fique por isso mesmo. Aliás, tenho muito medo que isso aconteça.

Quando decidimos que a Capitolina de junho teria “corpo” como tema, instantaneamente pensei em escrever algo desvelando doenças de pele. Durante toda minha adolescência não me via representada nas revistas de mocinha. Tudo que elas mostravam eram maquiagens que eu não podia usar, modelos com peles muito diferentes da minha, roupas que revelariam minha maior insegurança, pernas depiladas como as minhas não podiam ser. Eu queria que essas revistas tivessem me ensinado a ser segura e revidar quando as pessoas olham diferente pra sua pele e acham nojento. Minha preocupação não era nem ser bonita, era não ser asquerosa. Na cabeça de um portador de doença de pele tem uma vitrola emperrada no mantra da sua própria doença. E, fazendo um silogismo tosco, se a pele é o maior órgão do corpo humano e o ser humano é o ser mais zicado do reino animal, logo, tem muito doente da pele espalhado pelo mundo.

Então reitero meu apelo: isso não pode parar por aí. E eu só vou deixar de insistir na maior representatividade dos portadores de doenças de pele na mídia quando, num dia de sol, todo mundo sair nu pra fazer piquenique no Parque do Ibirapuera. Sim, todo mundo: quem tem dermatite atópica, dermatite seborreica, psoríase, vitiligo, acne sística, hanseníase, foliculite… Todo mundo feliz e nu e, bem no entardecer, olhando o show de águas daquela fonte luxuosa, dançaríamos ao som de “Aquarius”, do Hair. Vai ser um momento bem clichê, e, por isso (mas não só por isso), maravilhoso. E somente isso me dará a garantia de que os planetas estão alinhados e tudo está certo.

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

  • isamaldo

    JULIA, ME ABRAÇA
    Eu tenho dermatite também, foliculite e mil probleminhas de pele. E pra completar dermatilomania. Uma loucura.
    Mas há uns dois anos eu tenho parado de ligar (não de me cuidar) e saído por aí descobertinha como há de ser e é muito bom.

  • Pingback: Expressões que você deve parar de usar a partir de ontem | Capitolina()

  • Beatriz Montenario

    Gente, por que não descobri esse lugar antes?
    Eu também tenho dermatite atópica, e por muitos anos eu sofri bullying na escola, me escondia, e deixei de aproveitar muita coisa. Hoje em dia ainda tenho um bloqueio quanto a isso, mas ligo muito menos, e tenho aproveitado bem mais!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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