1 de maio de 2016 | Colunas, Música, Se Liga | Texto: | Ilustração: The Breeze
Dois passos à frente, um passo para trás – o novo álbum da All Saints

Imagem retirada do The Breeze

Quando uma banda que marcou uma década, ou um gênero e estilo, retorna dos mortos, o que o público espera é a satisfação de um impulso universal, o da nostalgia. Quando você termina de ouvir o novo disco da girl band All Saints, uma das principais expoentes do pop dos anos 90, você não sente que o desejo nostálgico é satisfeito. Fica para a próxima. Isso acontece porque Red Flag, sem mudar absolutamente nada na fórmula da banda centrada em Londres, UK, soa absolutamente atual. O problema não é que Red Flag não soa como os anos 90 – é que desde seus primeiros singles o All Saints soava como 2016.

William Orbit, uma das mentes por trás do r&b minimalista dos singles mais famosos das All Saints, não produz o novo disco – mas é perceptível que seus barulhinhos e harmonias foram usados como base de trabalho para os novos parceiros do quarteto na produção. A outra influência na produção, K-Gee e sua paleta de reggae e dub, retorna ao trabalho que realizou nos primeiros discos. Não é difícil perceber que a All Saints com batidas minimalistas e influências de trip-hop influenciou artistas contemporâneos e quase vanguardistas como Frank Ocean, e o pop mainstream absorveu o reggae de K-Gee das formas vistas, por exemplo, no último álbum de Rihanna, Anti.

A música que mais soa como o presente, e na verdade, como o futuro, neste álbum é a sua faixa título, Red Flag. Palmas seguem um ritmo quase militar, ou o ritmo de uma brincadeira de crianças, como adoleta, e o refrão quebra a sisudez do verso explodindo em um coro, acompanhado de “blips” eletrônicos que emprestam ainda mais leveza ao refrão. Essa agressividade do verso da música segue um pouco a linha temática do disco, que é a sua principal revolução – e merece um parágrafo pra si.

Enquanto nas canções das Spice Girls cada garota ganhava seu espaço como solista e as personalidades eram estereotípicas, no All Saints as harmonias até confundiam os ouvidos, e os arranjos tornavam difícil a missão de identificar qual das vocalistas estava cantando no momento. As roupas eram quase padronizadas. Existia um senso de união simbólica que não se traduzia na vida pessoal da banda, que sucumbiu a conflitos com o tempo e terminou. Agora, porém, a mensagem de sororidade está intensa e completa, e Red Flag, o álbum, versa quase inteiro sobre o fim do casamento de uma das quatro, Nicole, e a unidade nas composições se equipara à harmonia das vozes. O tema do “tribal” retorna na percussão e até na letra de uma música, que inclui a frase “se lembre que você é a filha de alguém”.

Red Flag é inconstante, e se apaga um pouco em alguns momentos. Além das três músicas lançadas antes mesmo do álbum, a absolutamente irresistível One Strike e as competentes This Is A war e One Woman Man, apenas duas canções guardam potencial de single – a balada Who Hurt Who, que lembra momentos como Never Ever, e a já dissecada faixa título. Mas a validez do retorno já existe a partir da inscrição pessoal e da união que o grupo coloca nas músicas, e para provar que não existe nostalgia quando se vive no futuro.

Ana Clara
  • Colaboradora de Esportes

Ana tem um site de cinema que chama Ovo de Fantasma e está se formando em comunicação na UFMG e tentando mestrado em cinema. É obcecada em estudar cultura americana, cresceu tomboy de joelho ralado, ama futebol, baseball e futebol americano. Jogada basquete, escalava, hoje tem hérnia e só comenta e ganha dos homens no Fantasy.

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