24 de outubro de 2014 | Ano 1, Edição #7 | Texto: | Ilustração:
Duendes, fantasmas e aparições: é tudo verdade!
Ilustração: Dora Leroy.

Ilustração: Dora Leroy.

Todo mundo já ouviu alguma história assim: cheia de magia, fantasia, misticismo e seres sobrenaturais, mas que a pessoa contando jura de pés juntos que é verdade. Inclusive, você provavelmente já viveu uma situação dessas, daquelas que você conta em noites chuvosas e ninguém acredita. Aquela vez em que você jurou ter ouvido vozes conversando no sótão, mas quando abriu a porta não tinha ninguém; quando um objeto querido desapareceu e reapareceu anos depois em um lugar misterioso; quando você teve um sonho que se tornou realidade no mês seguinte. Como o tema desse mês é Magia, pedimos para as colaboradoras contarem essas histórias que aconteceram com elas.

Ana Maria Sena e o Ano Novo
1º de janeiro de 2009.
Minha avó tinha um irmão. Era como um pai para a minha mãe, a relação deles era muito intensa e ele morreu quando ela tinha acabado de saber que estava grávida de mim. Não sei… mas acho que, querendo ou não, senti a dor dela naquele dia, foi uma morte muito… repentina.
Ele faleceu bem no Ano Novo, por isso nunca comemorei a data até 2009: no aniversário de 15 anos da morte dele. Foi um dia inesquecível: todo mundo reunido na área do quintal que dava pra rua (assim dava para ver os fogos), escutando música “brega” dos meus tios, hahahaha… Minha prima estourou uma lâmpada quando foi abrir o champanhe, começamos o ano no escuro, mas naquele momento, com todo mundo se abraçando, minha mãe estava no canto olhando para porta que dava pra rua. Ela só disse: “ele veio”, e abraçamos ela. E uma rajada de vento passou por nós…

Dani Feno e o fantasma
Meu irmão é 5 anos mais novo que eu e tenho duas primas bem próximas, uma 7 anos e outra 9 mais novas que eu. Quando éramos mais novos meus avós viviam levando a gente para viajar em hotéis-fazenda. Quando eu devia ter uns 16 anos, meu irmão 11 e as primas 9 e 7, fomos em uma dessas viagens para um hotel em São Lourenço.
Assim que chegamos meus avós foram resolver coisas de hospedagem e quarto e me mandaram tomar conta da criançada. Tinha um cinema no hotel e eles cismaram que queriam ir pra lá para brincar, mesmo não passando filme nenhum. Eu, adolescente chata, estava com zero paciência, só queria ficar ouvindo música na beira da piscina e não conseguia convencer eles de forma alguma a sair do cinema.
Então tive uma idéia genial. Como meus avôs levavam a gente há muito tempo naquele mesmo hotel, resolvi inventar a história da fantasma da menina do cinema. Minha imaginação foi embora e até meu irmão que era mais velho e cheio das atitudes ficou morrendo de medo e todos saíram do cinema.
O resto do dia fluiu normalmente. Minha prima mais nova não parava de perguntar detalhes da história e eu inventava qualquer coisa. Quando chegou a hora de dormir nenhum dos três conseguia pegar no sono e, do nada, tudo mudou. Começou uma ventania absurda, a porta do nosso armário quebrou sozinha e o espelho dentro dele também. Comecei a ficar meio assustadinha, mas sabia que não existia a tal da fantasma, já que eu tinha inventado. Até que justamente a minha cama quebrou – a estrutura de madeira quebrou e meu colchão foi no chão. Nessa hora entrei em pânico, minhas primas choravam e pediam desculpas à fantasma por ter ido no cinema, e eu virei: “Não é real! Eu inventei tudo! Não é possível isso!” Para fechar com chave de ouro a luz do quarto queimou.
Resultado: os quatro de pijama, desesperados, batendo na porta do quarto dos meus avós.
Acabou que naquela noite dormiu todo mundo lá porque meu avô não queria chamar o gerente e até eu não estava querendo dormir sozinha. No dia seguinte mudaram a gente de quarto e falaram que aquele estava com cupins, por isso tudo estava quebrando. O resto da estadia não teve mais problemas, apesar de ficarmos meio amedrontados até voltarmos pro Rio.
Até hoje minhas primas não acreditam que eu inventei a história e juram que a fantasma é real, e, quer saber?, eu meio que acho que é também.

Gabriella Beira e o duende
Era uma vez uma pequena (menor ainda, acreditem) Gabriella, com seus 4 ou 5 anos, por aí. Ainda com medo de dormir no escuro, ela tinha um abajur que se mantinha acesso noite adentro no quarto que dividia com o irmão. Era mais uma noite de sono gostoso, talvez aquele melhor ainda de sexta para sábado, quando você não tem que ir pra escola e pode assistir TV Globinho desde às 6 da madrugada… Um sono atrapalhado por algo inquietante: risadinhas debochadas e cutucões surpresa nas costas. Cutuca de um lado, vira pro outro. Cutuca de novo, vira de novo, cutuca-vira, cutuca-vira, risadinhas debochadas. “AI! PARA, VITOR!”, a menina grita irritada por ter sido acordada por tão revoltantes cutucadas e tão agudos risinhos, apenas para constatar que seu irmão estava no mais profundo sono, incapaz de incomodar qualquer pessoa. “Ué, se não foi ele, quem? …! Um duende! É isso! Um duende veio ficar me cutucando. Só mesmo um duende poderia ser capaz de uma risada tão aguda, zombeteira e de ser dono de uma atitude tão irritante. E mais: só um duende seria capaz de escapar sem ser visto.”
E essa é a história de quando um duende atrapalhou meu sono. Ele nunca mais voltou, para felicidade dos meus sonhos, que por muito tempo foram alarmados com o intuito de pegar o duende no flagra.

Luciana Rodrigues e sua prima
A minha casa tinha um quintal bem grandão quando eu era criança, com direito a árvores e muitas plantinhas, e eu costumava brincar lá o dia inteiro, explorando, imaginando situações e sendo criança. Eu morava com minha mãe, meus avós e uma prima mais velha que cuidava de mim quando minha mãe estava no trabalho. Lembro que ela com frequência passava a tarde lavando roupa enquanto eu brincava no quintal. Um dia, em mais uma das minhas aventuras, eu fingia estar catalogando tipos de plantinhas, aí senti uma presença atrás de mim. Virei e era a minha prima, séria, parada. Perguntei o que ela queria e ela só disse “vem cá”, deu meia-volta e entrou em casa de novo, depois de estender uma peça de roupa no varal. Enrolei um pouco, mas depois fui atrás. Não a achei em lugar nenhum… E a máquina de roupa estava desligada, sem nada dentro. Aí decidi bater no quarto dela pra saber por que minha brincadeira tinha sido interrompida, e lá estava ela, deitada na cama, ouvindo música. Perguntei o que queria e ela não pareceu entender. Acontece que a minha prima tinha passado a tarde inteira dormindo e nem tinha tocado na máquina de lavar, quanto mais ido no quintal me chamar. Voltei lá e a roupa que ela tinha estendido não estava mais no varal. Fiquei, como criança, um bom tempo tentando solucionar esse mistério, mas depois deixei de lado… Só depois de uns anos é que fui perceber o quanto aquilo tinha sido estranho.

Luiza Vilela e seu avô
O primeiro texto de ficção “pra valer” que eu escrevi, depois de entrar no curso de Letras, foi sobre uma visão que tive do meu avô. Ele faleceu no ano 2000, uns sete anos depois de ter realizado um grande sonho, que era construir uma casa onde a família pudesse se reunir no litoral do Espírito Santo. Essa casa é a única coisa sagrada no mundo pra mim, e esses anos que a aproveitamos com meu avô marcaram muito a minha infância. Ele tinha uns lugares favoritos na casa, e um deles era uma poltrona estilo “lazy boy” na sala de TV, na qual ele passava horas sentado vendo óperas no extinto (e maravilhoso) Laser Disc. A verdade é que eu sinto a presença dele na casa toda, como se ele tivesse sobrevivido nas suas fundações. Só que houve um episódio em que tive muita certeza de tê-lo visto. Foi num domingo, lá pela hora do café da manhã, dia de GP de fórmula 1, que ele também assistia. Passei pela sala em direção à copa e não havia ninguém, mas a TV estava ligada. Achei esquisito e dei aquela olhadinha pra trás, pensando “ué, quem tá aqui?”. E lá estava ele na poltrona. Dei dois passos pra frente, depois dois pra trás, virando de uma vez pra ter certeza de que não estava louca. Não tinha mais nada, mas a imagem dele sentadinho de bermuda amarela e chinelo raider ficou pra sempre comigo, e pra sempre nesse primeiro texto, que eu mostrei cheia de vergonha pra minha professora favorita.

Vanessa Raposo e os monstros
Tá, essa é uma história mais assustadora do que propriamente mágica, mas faz parte das minhas primeiras lembranças. 
Eu via coisas esquisitas quando era bem pequena. Até uns 4 ou 5 anos, meus pais contam que não era incomum saírem cedo de uma festa comigo porque eu ficava gritando que havia um “monstro” num determinado canto onde, até onde se via, não tinha ninguém.
De vez em quando, rolavam umas “premonições” bizarras também. 
Certo dia, contam meus pais, minha mãe voltou para casa superfrustrada. Ela ia fazer uma visita à casa de uma amiga que morava numa cidade ao lado, mas aí tudo deu errado: caiu uma baita chuva, o carro parou de funcionar no meio do caminho e o trânsito estava um horror. Resultado: ela teve que voltar para casa. 
Quando chegou, pingando e mal-humorada, eu agarrei feito carrapicho nela, para sua surpresa. Meu pai explicou (talvez um pouco aliviado, é de se imaginar) que desde que ela tinha saído eu não parava de repetir que “o homem da faca vai pegar a mamãe”, e descrevia um cenário muito parecido com a estrada que ela atravessaria indo para a casa da amiga – estrada que eu nunca tinha visto. Não havia celular na época, então acho que tudo o que meu pai pôde fazer foi torcer para que fosse imaginação de criança… Felizmente, por sorte ou livramento, nós nunca precisamos pagar para ver!
Conforme fui crescendo (e minha mãe jura que foi uma ida à Igreja que parou isso), as esquisitices cessaram. Eu tenho memória de algumas coisas bem bizarras, mas não sei até que ponto começa a realidade e a imaginação de uma criança pequena. O fato é que, independentemente disso, certas memórias ainda me causam arrepios.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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