20 de novembro de 2015 | Saúde | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
E as mães pedem: LIBEREM A MACONHA!

Prepare-se que este texto contém imagens de burocracia, conservadorismo, maconha, mães maravilhosas e muita, muita luta!

Hoje na nossa querida editoria de Saúde venho contar uma história para vocês. É um apanhado de informações de mais ou menos dois anos sobre o uso medicinal da Cannabis (maconha ou ganja ou como você gostar de chamá-la) em um textinho. Vamos lá.

Mães costumam ser meio ~caretas~, né? A minha é, pelo menos. Se ela me vê com roupa sem passar já entra em desespero, imagina só o que ela acha de maconha! Mas no ano passado algumas mães ganharam destaque por romper os tabus: levaram para a justiça e a para a mídia a necessidade de se liberar a comercialização para uso medicinal do canabidiol (CDB), uma das 60 substâncias presentes na planta usada para se fazer a maconha.

Até então o CDB, assim como o THC que é a principal substância, eram ilegais em medicamentos aqui no Brasil. Tanto a fabricação, a comercialização e a prescrição médica. Isso aqui, pois em outros países tem pesquisas científicas rolando já há um tempo, que mostram resultados positivos, e muitos remédios com essas substâncias são encontrados em qualquer lugar, sem dificuldades.

Mas Yasmin, por que as mães precisavam do CDB? Com o CDB é feito um medicamento que trás resultados ESPANTOSOS para epilepsia (convulsões) que uma síndrome genética rara causa e para a qual não há cura. Um exemplo dessas mães é a Katiele Fischer. Sua filha, Anny, nasceu com essa síndrome, começou a andar com três anos (bebês em média andam com 1 ano e dois meses) com muita dificuldade e regrediu tudo em poucos meses. A menina costumava ter uma (UMA) convulsão por hora. Katiele, que não desistia de encontrar alternativas, descobriu um remédio feito com o CDB, que falavam ser muito bom e que era tranquilamente comercializado nos Estados Unidos. Passou, assim, a importar ilegalmente o remédio. Com a medicação as convulsões foram diminuindo gradualmente e em três meses Anny não teve mais nenhuma – nenhuminha. Se isso é tráfico? “A palavra é essa. É traficar.”, diz Katiele no filme Ilegal (2014), dirigido por Tarso Araújo.

No filme vemos não só o relato de Katiele como de outras mães (e que falam que existem outras tantas de milhares de mães que acompanham seus filhos com a mesma síndrome) e que, no caso delas, foram as que conseguiram dar destaque à causa. A pauta delas não exclui os privilégios que elas têm: sabem que só liberar a importação só resolve o problema delas que podem pagar (e caro) pelo remédio; que a maioria das mães não tem condições de fazer o mesmo. Por que, então, esse remédio não poderia ser feito aqui? Ele é barato de se fazer, afinal, vem de uma planta. Bem, eu me limitaria a dizer que temos grandes problemas com o pensamento geral da medicina brasileira e do grande ~misterioso~ poder da indústria farmacêutica – além de todo um pensamento conservador das pessoinhas, né.

Com todo o destaque que essas poucas mães alcançaram na mídia, conseguiram até mostrar para outras mães (cujo acesso a informações se limitava à televisão) que seus filhos podem, sim, ter uma maior qualidade de vida e há formas de tratamento reais. Fiquei até sabendo do caso de uma mãe, que informada pela TV, entrou na justiça pedindo o remédio pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e conseguiu! Através das lutas na justiça, hoje o CDB e o THC foram liberados, mas especificaram os casos e delimitaram até a idade (no caso do CDB só vale até a adolescência). E ainda assim, a burocracia é um enorme empecilho. No próprio filme Ilegal vemos outros casos que não são como os da Anny, como pessoas que fumam a maconha porque é a única forma para elas sentirem menos dor – um tipo de dor que a pessoa sente todos os dias. Mas para esses casos e outros (diminuir efeitos colaterais da quimioterapia, esclerose múltipla, mal de Parkinson…) o THC só foi liberado agorinha em novembro.

Por isso, ainda há muito para ser discutido e conquistado. Essas pessoas hoje lutam contra a proibição da maconha, somando também com outras mães que defendem a vida (ou a sobrevivência) de seus filhos negros e periféricos que sofrem diretamente com a luta do Estado contra o tráfico de drogas… Bom, chega! Esse assunto é beeem longo e merece um texto só para ele! Quem sabe fica pra próxima? 🙂

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Yasmin Lopes
  • Coordenadora de Poéticas
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Sociedade

Yasmin, se divide entre a graduação de Terapia Ocupacional e as ~artes~. Nasceu e vive em São Paulo, porém sonha com o mar. Não moraria em uma casa sem plantas, faz dancinhas ridículas no quarto e mantém um caderno quase-secreto de colagens e textos. Se estiver com sua câmera na mão, se basta assim - a sua única possível metade da laranja.

  • Anne

    amei a iniciativa de falar sobre maconha! espero ler na capitolina mais textos abordando a temática das drogas, sem aquele moralismo todo.

    • luna love(s)kills

      siiim pfvr 🙂

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Esse é um dos temas que precisa ser abordado com mais urgência no Brasil. Inocentes morrem todos os dias por causa da guerra às.

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