22 de outubro de 2015 | Artes, Colunas | Texto: | Ilustração: Isadora Marília
E falar sobre artes e artistas mulheres negras que não estão nas Artes com A maiúsculo?

A palavra empoderar-se tem um uso um tanto quanto frequente e despretensioso no qual a palavra em si refere. E ao relacionar com o campo das artes, o qual é minha área de estudo, encontramos um caminho vertiginoso, do qual é necessário conversar muito, construir e desconstruir várias vezes, para termos ganharmos perspectivas. As reflexões são constantes, mas a pesquisa tem se tornada diária ao pensar em artes visuais e as pessoas que estão representadas nesse lugar. Vejo muitas mulheres produzindo, variados olhares artísticos e trazendo em suas obras desdobramentos dos quais tornam o trabalho potente, com conceito e forma em diálogo, empoderado. Vejo também uma arte produzida por mulheres muitas vezes recebendo nomenclaturas, paradigmas, simbologias….algo que vai além da esquizofrenia. Deparo-me com mulheres que pelo seu fazer quotidiano tiveram referencias para produzir e construir uma arte que não é vista como tal. Todavia segregam em lugares. Criam lugares como naif, popular, artesanato…os olhares para elas não são os mesmos que se tem por exemplo para a arte modernista de Tarsila do Amaral. E quando temos propostas de mudarmos esse olhares, o debate não avança, retorna ao início da discussão do que pode ser considerado como obra de arte. Se há uma resposta para, é um processo de desconstrução coletivo, parte de várias redes e leva um tempo.

O que sinto necessidade é de uma reflexão sobre a desnaturalização do olhar estagnado da Arte com A maiúsculo, criado e reforçado pelo espaço acadêmico para um olhar horizontal. Essa padronização está na classificação com modelo ocidental do qual estudamos até hoje e que reitera Onde estão as redes das quais possamos conversar sobre os trabalhos de mulheres que trazem por si e suas obras um empoderamento a partir do seu quotidiano, como Isabel Mendes que produz peças em cerâmica, Raquel Trindade com pinturas em acrílico sobre cenas de sua memória, Ana das Carrancas com grandes peças de carrancas feitas com argila, entre tantas outras artistas, que ficam colocadas em lugares fechados do circuito de artes….

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Ana de Carrancas

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Isabel Mendes

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Raquel Trindade

As mulheres quais questiono o lugar colocado à elas no campo das artes tem uma trajetória social e de gênero diferentes dos outros artistas estudados frequentemente nas faculdades de Artes. São mulheres que não frequentaram academia, não fizeram cursos especializados e são negras, o conjunto para uma questão racial, de gênero e social.

Quando o mercado sentir a demanda de ter a referencia dessas obras e dessas artistas, o viés não será como artistas contemporâneas, ou artistas mulheres e provavelmente como artesanato, arte popular, arte naif (inocente) que tem em sua construção de discurso um olhar abaixo dos cânones ditos como oficiais das artes.

Mirella Maria
  • Colaboradora de Artes

Filha do seu Benedito e da dona Sonia, artista visual, educadora militante, colecionadora de amigos, fazeres e saberes.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Muito amor envolvido

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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