21 de janeiro de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Isadora M.
É possível meditar enquanto se joga?

Quando pensamos em meditação, a primeira coisa que vem à mente é aquela imagem clássica do monge (preferencialmente careca), sentado (preferencialmente de olhos fechados) e parado, paradinho (preferencialmente sem dormir), em perfeito estado de contemplação. Se temos a imaginação um pouquinho mais afiada, ele pode ainda aparecer nessa imagem falando “oooooooommmm” num tom bem grave.

Essa imagem clássica não é exatamente errada, mas restringe bastante o que se entende por meditação. Para começo de conversa, é preciso compreender que meditar não é bloquear pensamentos, ficar imóvel ou simplesmente não pensar. Não exatamente, pelo menos. Meditação é, antes de mais nada, um processo de concentração: nossos sentidos são bombardeados (hoje mais do que nunca) por múltiplos estímulos e o processo meditativo pode nos ajudar a afunilar nossos pensamentos e intenções, tornando-os menos caóticos e influenciáveis pelo meio externo – e mais internamente coerentes. Mais do que parar pensamentos, o que se estimula é a redução da intensidade dos pensamentos discursivos incontroláveis (ou seja, aqueles mais parecidos com como falamos e escrevemos). Para se chegar a esse processo, porém, a maneira ~clássica~ a là monges não é a única que existe.

Existem várias vertentes e linhas de meditação, associadas ou não a práticas religiosas, mas, de maneira geral, elas se focam em pelo menos um desses quatro objetos de concentração:

  • Respiração: a pessoa se concentra no entrar e sair do ar pelos pulmões e deve tentar absorver os detalhes, num primeiro momento, imperceptíveis: na maneira como o corpo infla ao inspirar e se suaviza ao expirar, se o oxigênio entra mais pela narina direita ou esquerda, se o que se ergue é o peito, o estômago ou o ventre… A linha Vipassana, por exemplo, se utiliza muito dessa técnica, dentre outras.
  • Movimento e Corpo: quando o foco é no movimento, a pessoa que medita precisa conscientemente perceber e modificar sua postura, tornando a mente mais unida com o físico. Quando no hatha yoga alguém está de cabeça para baixo, isso não é mero malabarismo, é uma forma de obrigar a mente a concentrar-se plenamente no corpo, em um certo tipo de respiração e mentalização. É importante perceber as sensações. Caminhar, dançar ou fazer qualquer outra atividade dinâmica concentrada também pode nos deixar em estado meditativo, se feito de forma intencional.
  • Sons e suas vibrações: é o caso do monge “oooommm” no começo do texto. No caso, repete-se de forma profunda e sonora um determinado mantra (ou até mesmo uma oração, se for mais do seu agrado) e concentra-se na vibração das cordas vocais e na mentalização do exercício.
  • Atividades motoras e artesanais: talvez já tenham te dito que jardinagem ou artesanato são ótimos para relaxar. Isso, é claro, apenas se nos permitimos nos concentrar na tarefa em mãos. Quando pintamos uma mandala lenta e conscientemente de forma fluída, por exemplo, podemos entrar num processo meditativo.

O que você percebe é que é possível meditar fazendo basicamente qualquer coisa, desde que tentemos entrar num processo conhecido como “fluxo”. Na psicologia, ele é definido como um processo de total imersão em determinada atividade, alcançando um estado ótimo de equilíbrio entre desafio, habilidades pessoais, feedbacks imediatos, concentração e objetivos claros. Sabe aquele dia em que você se propõe a fazer um desenho razoável de quinze minutinhos e duas horas depois você acaba com sete ilustrações dinâmicas que não acredita que vieram da sua cabeça? Parabéns, você entrou em estado de fluxo. Ou tava on fire, se preferir.

O que nos leva aos joguinhos. Se você perceber, vai ver que os processos típicos do fluxo são muito parecidos com os do design de boa parte dos games: dos objetivos claros e feedbacks espontâneos à exigência de certo nível de habilidade e proposição de um desafio. É possível, portanto, entrar num processo de fluxo jogando videogame.

Eu, pessoalmente, como pessoa naturalmente dispersa, me benefício bastante da meditação em várias de suas vertentes. Todo dia tiro pelo menos 15 minutinhos para uma meditação de abordagem mais “clássica” de concentração na respiração. Além disso procuro nadar por algumas horas pelo menos uma vez por semana e, quando o faço, é plenamente concentrada em cada braçada, no gerenciamento aeróbico, no posicionamento correto da coluna e pernas na água. E, é claro, eu jogo videogame. Um bocado, como já deve ser bem óbvio.

Meditação, como foi dito, depende muito de concentração. Embora jogar Tetris seja tecnicamente bem diferente de estar sentada respirando profundamente e tentando se conectar com seu “eu” interior, é possível entrar num estado similar de foco se o fluxo for manejado de forma intencional. Nem todo o jogo pode nos colocar nesse estado, obviamente, mas da mesma maneira como certas pessoas têm mais facilidades de entrar em fluxo através de danças ou atividades físicas intensas, há quem ache muito mais fácil se focar em jogos absurdamente difíceis, como os do gênero bullet-hell.

Por isso, além da minha recomendação para vocês procurarem locais ou até mesmo apps que auxiliem em meditações tradicionais, eu deixo aqui uma pequena lista com games que, por seus diferentes méritos, podem talvez ser meditativos – relaxantes ou não. Vale lembrar que quando se fala de meditação, a intenção e a consciência contam muito.

Relaxantes

Flow – O título desse belo jogo da ThatGameCompany já é bem sugestivo, não? A ideia é alcançar um estado de fluxo conforme “evoluímos” nossa criatura aquática. Coma proteínas de criaturas menores e evite as garras das maiores. É o ciclo sem fim, Simba. Pode ser jogado tanto no PS3 quanto gratuitamente numa versão simplificada em flash no computador. Semelhantes: Flower, Cloud, Eufloria, Mountain.

Imagem: reprodução.

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KAMI – Com um visual inspirado em dobraduras de papel, esse jogo te oferece uma série de desafios rápidos e progressivamente mais difíceis, sem perder o senso zen de relaxamento. Você deverá analisar uma folha de papel multicolorida e garantir que a página inteira fique de uma mesma cor, com uma quantidade limitada de movimentos. Bom para quem gosta de quebra-cabeças. Dá para baixar no computador, no Android e no iPhone. Semelhantes: LYNE, Blendoku, Strata, Threes, Two Dots.

Imagem: reprodução.

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Intensos

Dyad – Você é uma partícula subatômica de um acelerador de partículas tipo LHC. Os objetivos variam com os níveis, mas o princípio básico é: conecte-se a outras partículas e acelere. Muito! Até que os seus olhos só vejam borrões e você distorça o espaço e o tempo! Obviamente, não é um game “tranquilo”, mas seu design psicodélico é feito de maneira a te obrigar a entrar num estado de concentração completamente não discursivo. A trilha sonora ajuda bastante também. Pode ser encontrado para PC e em boa parte dos videogames da geração passada. Semelhantes: AudioSurfSuper Hexagon, Igneous.

Imagem: reprodução.

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Ikaruga (ou qualquer outro bom bullet-hell, na real) – nesse gênero de jogo, você deve desviar de uma chuva de balas enquanto manda os seus próprios disparos nos adversários. E quando digo “chuva de balas”, estou na verdade dizendo “você não vai escapar dessa com vida”. Se houvesse uma linha divisória, jogos como Ikaruga estariam no lado oposto do relaxamento: são difíceis e extremamente frustrantes caso não se domine o gênero. O excesso de informação na tela (no caso, as balas inimigas) podem sobrecarregar os desavisados. Mas é aí que está a parte interessante: para aproveitar um jogo desse gênero é necessário entrar num estado de desapego e total concentração na qual, bem, você não exatamente desvia da bala/informação, mas se torna parte desse todo por si mesmo. Seja a colher, Neo. Ou algo assim. Alcançar esse estado de fluxo é complicado, mas mentalmente recompensador. A versão mais fácil de ser obtida hoje é para computador. Semelhantes: Touhou Project, Luftrausers, eXceed.

Imagem: reprodução.

Imagem: reprodução.

Contemplativos

Ruins – Para os que preferem uma experiência mais intimista e desafios num nível mais, digamos, interpretativos, Ruins é um prato cheio. Nele exploramos o mundo onírico de um cachorro que sonha perseguir lebres (se fossem preás quase dava para imaginar ser a Baleia de Vidas secas). O aspecto de concentração está principalmente na ambientação imersiva e na exigência de engajarmos nosso próprio processo de fazer sentido de informações quase desconexas. É curtinho e gratuito no site do próprio desenvolvedor. Semelhantes: The Graveyard, Dear Esther, The PathProteus, The Vanishing of Ethan Carter.

Imagem: divulgação.

Imagem: divulgação.

A Slow Year – Bem, se há um jogo que tenta te colocar realmente num estado de contemplação é esse. Ele é de 2010, mas foi produzido para Atari, com todas as suas limitações técnicas. Obviamente, pode ser jogado no computador também (recomendo fortemente o de 5 dólares e fugir do de 5 mil, a menos que você seja socialite ou herdeira de algum trono, aí tá liberado) e apresenta quatro minigames realmente lentos que estimulam o jogador a dar um passo para trás e apenas observar. Cada minigame representa um momento específico de uma estação do ano: a chuva caindo sobre a cidade na primavera, uma tarde preguiçosa de verão, observar o vento sacudir uma árvore no outono e tomar uma xícara de chocolate quente no inverno. Também acompanha um livro com haikus gerados por máquinas e que podem ser lidos junto com o game. Tá, né. Semelhantes: Guru Meditation.

Imagem: reprodução.

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Uh…

p0nd – Inspire e expire conforme faz uma relaxante caminhada na floresta, capturando pequenas esferas luminosas. 🙂
Gratuito.

Imagem: reprodução.

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Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

  • Lorena Piñeiro

    Sei lá, Van, eu só acho que cê devia ser um pouquinho menos incrível porque assim fica difícil pros meus pobres textos, sabe?

    • http://criandomundos.wordpress.com/ Vanessa Raposo

      Ahahah, ah loris <3
      Cê já fez meu dia com esse comentário :3 Obrigadinha de todo coração.

  • JoriJogos

    Jorijogos está totalmente de acordo e batendo palmas pra esse texto! Lindo! Adoraria fazer um episódio sobre isso em algum momento <3

    • http://criandomundos.wordpress.com/ Vanessa Raposo

      Acho que poderia dar um episódio incrível também, Jori!
      Rumo à dominação mundial, mwahaha.

  • http://amandaarruda.com/ Amanda Arruda

    Muito boa a matéria, vou testar! (:

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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