18 de novembro de 2014 | Ano 1, Edição #8 | Texto: | Ilustração:
É preciso se perder para se achar
Ilustração: Clara Browne.

Ilustração: Clara Browne.

Às vezes nos vemos em situações sem saída. Nesses momentos, muitos amigos vão mostrar caminhos que talvez sejam óbvios, mas, se não enxergamos, de quê adianta? É uma sensação de enclausuramento que, na maioria dos casos, não é apenas um sentimento, mas uma condição física. Medianeras é um filme que mostra o quanto quem somos é, de um certo modo, condicionado pelas estruturas físicas, pela arquitetura do seu prédio e da sua cidade. O fato é que a janela do seu quarto diz algo sobre o modo como você enxerga o mundo. Ou não, porque é possível viver sem se enclausurar, olhar através de outras janelas e dimensões. Só encontrei saídas quando fui à rua, não para comprar pão, mas para me movimentar sem rumo.

Andar pela cidade pode ser um exercício para sair de si mesmo. Encontramos algo quando abandonamos nosso destino e nos deixamos levar pelo fluxo de gente do metrô, pelas árvores de uma rua, por impulso ou qualquer desconhecido. Na maior parte do tempo percorremos os lugares sem sair de nossas cabeças, pensando nas obrigações e vontades, atentos o suficiente só para não se machucar, esbarrando o tempo todo com quem atravessa nosso caminho. Para experimentar o que as ruas podem nos dizer é preciso estar vulnerável, sentir o risco de cada instante e estar presente nas cores, gentes, cheiros e sons.

Há muitas formas de se deixar levar: por exemplo, andar de ônibus. O trânsito é facilmente um modo de se entregar ao movimento, mesmo quando ele inexiste. Engarrafamentos são situações limite em que podemos aproveitar o tempo preso para sair um pouquinho de si. Porque estar no ônibus é estar entre minha casa e meu destino. Nesse espaço intermediário posso me dar férias, sou só mais uma passageira, não sou a filha que se despediu da mãe ou a aluna atrasada para aula. Entre ir e chegar sou só um corpo em movimento. Posso admirar a vista, ouvir música, dormir, ou não fazer nada, simplesmente ir.

A cidade e seus movimentos são inspiração para muitos poetas. Cortázar dizia que o metrô é uma máquina do tempo, em seu ritmo os segundos dobram de tamanho, pedaços antigos de memória nos encontram e podemos nos perder literalmente. Baudelaire caminhava por horas e enxergava nas multidões urbanas o início de um novo mundo. Virginia Woolf escreveu todos os sentimentos, instantes e vibrações de Londres em Mrs. Dalloway. Cada um se relaciona de um modo com sua cidade, um único trajeto é visto de muitas formas. O incrível é se movimentar entre essas diferentes vistas, se perder, viajar e trocar de pele ou ideias. Enxergamos de um modo novo através de um livro, uma janela ou um continente. De repente, naquele mesmo lugar sem saída, é possível criar caminhos.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

  • Priscylla Karollyne

    Sabe Taís eu também tenho andando distraída na minha propria cidade, na minha rotina do dia a dia. E realmente é algo tão bom desde que venho admirando a paisagem que passa pela janela do ônibus ao mesmo tempo em que desejo todas aquelas coisas que ainda desejo de adolescente em fase de crescimento. Eu tenho 20 anos e de nada sei da vida.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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