30 de junho de 2016 | Ano 3, Edição #27 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
É proibido amar em público?

Na terceira edição da Capitolina, a Beatriz Trevisan e a Laura Pires contaram para a gente como as demonstrações físicas de afeto são encaradas em determinados ambientes por diferentes gerações e por pessoas de culturas diversas.

Como no Brasil, em teoria, as demonstrações físicas de afeto (também conhecidas como “demonstrações públicas de afeto” ou DPA) são frequentes e aceitas sem maiores problemas, com casais não heterossexuais (como duas meninas) e casais não cisgênero (como uma menina trans e um homem hétero cis), as DPAs não são tão toleradas assim.

A intolerância por DPA entre casais não hétero/não cis é, infelizmente, muito comum em grande parte do mundo. Pessoas nessas relações tendem a segurar as mãos, beijar, abraçar seu par com menos frequência do que casais em relações hétero cisgêneras. Ao demonstrar DPA com menos frequência, esses casais estão tentando se proteger contra violências (físicas e verbais) de parte da sociedade, que julga esses comportamentos como anormais, desviantes, pecaminosos, etc.

Como todas as minhas relações afetivas foram heterossexuais e cisgêneras, eu pedi a algumas amigas homossexuais e bissexuais que me contassem como elas vivenciam as demonstrações públicas de afeto:

Acho que a violência e discriminação que chega a casais de mulheres é um pouco diferente da discriminação que chega para gays. Bem, falo da perspectiva de alguém que mora no centro da cidade, lugar no qual é mais comum que casais LGBTs circulem. Mas o que observo nas violências sofridas por mim, quando estou acompanhada com a minha namorada, é algo que mescla a intolerância junto de um fetiche da sexualidade com mulheres lésbicas. Quando fui abordada estando com minha companheira, ouvimos perguntas como “Posso entrar no meio desse beijo? Quem é o homem dessa relação? Quem come quem?”, e por aí vai. Continuo, no entanto, andando de mãos dadas na rua, o que muda um pouco se chego em bairros mais distantes do centro e não sei direito como as pessoas podem lidar ao nos ver de mãos dadas. Mas confesso que se antes eu dava mais beijos em público, hoje sinto um pouco de medo quando vai ficando mais tarde da noite. Às vezes, evitamos ficar juntas e demonstrar afeto se já for muito tarde.
Fernanda Martins, 25 anos, São Paulo

A primeira vez que vi um casal gay se beijando em público foi quando eu tinha vinte anos; na época isso era um ato quase revolucionário. Pouco tempo depois disso eu tive uma namorada, e mantínhamos um relacionamento sem esconder de ninguém que éramos um casal, ou seja, andávamos de mãos dadas, nos beijávamos em público, etc. Pouquíssimos casais faziam isso, existia muito medo da discriminação e violência física. Apenas me senti fisicamente ameaçada uma vez em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, quando fui abordada por dois sujeitos grandes (modelo skin head) que perguntavam o que estávamos “fazendo ali”. Por sorte nada aconteceu, pois algumas pessoas apareceram na rua.
Em Belo Horizonte (cidade onde moro) eu me sinto mais segura. Agora sou casada, tenho 33 anos, tenho um relacionamento de seis anos. Não faço mais o que fazia aos vinte anos, acho que é incompatível com a idade, sabe? Mas isso não significa que não andamos de mãos dadas na rua ou não nos beijamos quando estamos em um barzinho. Fazemos isso, porém, não mais com a intensidade dos vinte e poucos anos. Também já não escuto mais ninguém falando nada. Pode ser porque as pessoas mudaram, ou porque eu mudei, fiquei mais velha e, consequentemente, essas demonstrações de afeto ficaram mais comedidas (não acho que isso seja consequência de punição social, acho que tem mais a ver com mudança de comportamento pela idade), imponho mais respeito (preconceituoso é antes de tudo um covarde), ando menos na rua do que antes.
MAAAAAASSSSS, apesar de todas essas mudanças que eu falei, apesar de não ouvir mais xingamentos, apesar de tudo…… Eu não estou falando que não existe preconceito, muito menos que sinto-me tão à vontade quanto um casal heterossexual sente-se com relação a demonstração pública de afeto; às vezes ainda tenho receio da reação dos demais. Sinto como se esses comportamentos em públicos partissem de um lado consciente, e não naturalmente espontâneo, como é com um casal hétero. É como se o alerta estivesse ligado. Isso sim tem muito a ver com punição social. Se estou em um barzinho ou qualquer lugar público com circulação de gente, meu maior receio não é de sofrer algum tipo de violência física, mas de ser abordada (importunada) por homens héteros cis. Porque meu relacionamento é fetiche, e se muitos não conseguem ver uma mulher como um indivíduo de direitos a serem respeitados, o que se dirá da união de duas mulheres. Nesse caso a homofobia se mistura com o machismo, é impossível separá-los. Mesmo desconfortável eu tento não ceder a esse receio da punição social sobre o meu afeto. Eu acho que é desaforo me privar por medo do que outras pessoas façam ou pensem, o problema não é meu, é deles (neles). Também fiquei pensando agora como a gente naturaliza estes sentimentos. Não é natural a gente ter esse “estado de alerta”, sabe? Mas a gente passa a conviver com ele
.”
– Gabriela, 33 anos, Belo Horizonte

Eu nunca sofri nenhuma agressão física na rua com a minha namorada, já aconteceram situações de assédio/agressão verbal – olhares, comentários nojentos, dar em cima de nós, coisas desse tipo. O medo é algo constante e em várias situações no dia a dia evitamos demonstrar afeto da forma que gostaríamos. Taxi é o maior exemplo de um momento em que evitamos demonstrar afeto. Nunca nos despedimos com um beijo quando dividimos taxi. Eu morro de medo de o cara sacar que somos um casal, eu sair primeiro e ele fazer algo com ela depois ou o contrário. Assim como, dependendo do lugar, evitamos dar as mãos, abraçar ou beijar. Quando deixamos uma de nós em casa, nunca nos beijamos na portaria para que o porteiro não veja, qualquer tipo de agressão no seu próprio prédio seria algo muito difícil de lidar. Algo que me incomoda muito é o espaço de trabalho. Eu nunca falo “da minha namorada” em papos com pessoas que trabalham comigo por medo da reação das pessoas, assim como não postamos declarações e fotos ou qualquer coisa desse tipo em redes sociais. No fim das contas, acabamos nos escondendo. Andamos de mãos dadas e demonstramos afeto em lugares minimamente seguros, conhecidos, com outras pessoas por perto. De resto, há sempre um medo.
I. 25 anos, Rio de Janeiro

Justamente no domingo passado eu tava ficando com uma mina num barzin e tivemos que ir embora porque um omi bêbado veio encher nosso saco na mesa. Foi bem chato, quebrou o clima totalmente. E me fez pensar muito sobre quando eu tive minha primeira namorada. Eu tinha dezoito anos, tava fazendo cursinho. Era um cursinho pequeno, com umas vinte e poucas pessoas por sala. Todo mundo meio que se conhecia. A gente sentou na calçada e trocamos uns beijos, igualzinho aos casais hétero que estavam por ali durante o intervalo de aulas. Mas quando eu abri os olhos ABSOLUTAMENTE TODO MUNDO estava olhando pra gente, inclusive todos os taxistas do ponto de táxi do outro lado da rua. Foi péssimo. Nós passamos por isso várias vezes juntas. Enfim, eu tenho muito medo de apanhar na rua por lesbofobia. Eu não gosto de demonstrações públicas de afeto nem quando tô com homem, com minas eu evito ainda mais. EXCETO quando t^p num lugar MUITO amigável (Rua Augusta) ou numa festa só de minas/público LGBT ou ainda na caminhada lesbi/parada LGBT. Na verdade, eu tenho medo de mostrar afeto até na minha própria casa e perto da minha própria família. Esse assunto é bem delicado pra mim.
Carol, 25 anos, São Paulo

É preciso lembrar que qualquer tipo de discriminação em função de gênero, raça e/ou orientação sexual pode ser considerada crime inafiançável. Assim como os casais heterossexuais cisgêneros, todas os outros casais têm o direito de demonstrar afeto em público sem sofrer qualquer tipo de violência ou discriminação!

Gleice Cardoso
  • Coordenadora de Sociedade
  • Conselho Editorial
  • Colaboradora de Se Liga

Nascida e criada em Belo Horizonte - MG, é psicóloga e trabalha com pessoas em situação de risco e violação de direitos há quase 10 anos. Mulher negra, só descobriu a força de identificar-se como tal há pouco tempo, pois cresceu acreditando que era "moreninha". Tem duas gatas e um cachorro, mas queria ter 30 de cada. Tem vontade de comer sorvete todo dia (menos de manga) e faz crochê pra relaxar.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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