20 de dezembro de 2014 | Relacionamentos & Sexo, Sem categoria | Texto: | Ilustração:
E quando ninguém se interessa por mim?
Feia, gorda, muito alta, muito baixa, nariguda, peito demais, peito de menos, chata, grosseira, antipática, muita espinha, bunda de menos, gosto estranho / diferente. A sensação de um menino perguntar se sua amiga está solteira, quando esse menino que te causa interesse (e às vezes nem tanto), é uma rejeição horrível. Por que ele não me quer? Eu sou tão (adicione algo que te causa dor) assim?
Ver uma menina próxima tendo um relacionamento afetivo também causa isso. Por que ela tem e não eu? Um pensamento invejoso aparece na sua mente. Imediatamente você acha um defeito na tal e, para tentar se animar, compara com algo seu. “Eu sou tão mais inteligente, ela está reprovada em todas as matérias…”. E isso nem ajuda, na verdade. Porque o tom é outro. O tom é de tristeza, não de elevação da autoestima. Seguidamente deste pensamento, um sentimento ruim invade seu coração. E sentir isso não é saudável. Não é.
Na roda dos meninos, características físicas e psicológicas da “mulher perfeita” aparecem numa conversa corriqueira. “Tem que ser gostosona”, “Tem que ser loira”, ”Não gosto de gordura nas costas”, ”A bunda tem quem ser redondinha”. Um mundo que cai quando um te fala que “você é legal, maaaas….”. Ou quando diz, “você é tipo um cara,para gente!”. Não somos homens, meu chapa. Somos mulheres. Mulheres que se sentem inseguras com cada fala tua.
E com as meninas? Quando nenhuma senta ao nosso lado e começa a conversar e demonstrar interesse, isso nos faz perguntar: Será que não sou o padrão delas? Será que tenho cara de criança e isso não as atraem? Não sou desejável a ponto de rolar um empenho?
A mídia nos diz o que é ser bonita. É só olhar as musas… São todas quase iguais, parecendo que saíram de uma linha de produção. E você, que se sente diferente e oprimida com as informações que martelam sua cabeça o tempo inteiro, que não é o padrão, é jogada de lado. Você só serve para ser amiga. Só serve para conversar porque é maneira. E para namorar? Não. Como vou te apresentar para meus(minhas) amigos(as)? Como eles(as) vão saber que estou ficando com uma menina que (adicione uma característica sua tida como defeito)?
Não tem nada, mas nada, que você possa melhorar. Porque, na verdade, ninguém é 100% padrão. Lembro-me de um grupo jovem que fazia parte. A menina mais desejada correspondia ao padrão desejável pela grande mídia. Ela era morena, alta, arrumada e sabia se maquiar (segundo os próprios meninos). E quem eu era? Eu era a alternativa. Que gostava de bandas que ninguém nunca tinha ouvido falar. Baixa, com cabelos sempre presos, que se vestia de qualquer jeito por preguiça. Eu não era um padrão. Eu nunca fui um padrão.
Até que soube que, na verdade, o que te faz ser desejada é você mesma. Minha mãe vivia me dizendo que o que eu penso é espelho para os outros. Minha visão sobre eu mesma, que era de uma menina feia (com este título da mais feia no colégio, inclusive), mudou no final da adolescência. Assim que fui para o segundo grau num colégio público, onde ninguém ligava para isso, me senti aceita. Me senti bem. Não parei de prender meu cabelo, que era comprido na época. Não parei de me vestir de qualquer jeito. O que mudou na verdade foi minha cabeça. Foi que eu parei de ligar para isso. E fez uma diferença. Agora os meninos vinham perguntar se EU queria ficar com eles. E não se minha amiga estava solteira.
Sofremos para chegar nos padrões. Emagrecemos contra gosto, fazemos plástica, mudamos personalidade, pintamos cabelo, mentimos para ser a perfeição que o mundo sempre nos disse que tínhamos que ser, se quiséssemos  ser aceitas. Na verdade, queremos estar num lugar. Queremos pertencer. E isso não fazer parte de algo, de alguém, machuca. Nos fazer parecer fracassadas. E no mundo, não há lugar para quem está fadado ao fracasso
O mundo nos oprime. Não importa sua luta. Não importa suas características físicas e psicológicas. Sempre vai ter alguém dizendo que você não é bonita o bastante. Que algo físico seu tem que se encaixar. Que você precisa ser mais assim para ser melhor. Mas quando você sabe quem você é, seja isso bom ou ruim, nenhuma formiga pode atrapalhar isso. Ninguém pode dizer o contrário. Uma luz interna, seja negativa ou positiva, te ilumina. As pessoas nos veem como nos vemos.
E que o mundo, as pessoas, a escola e a adolescência saiba que cresceremos. Que somos melhores que os padrões. Que não precisamos disso. Lutar para ser como você é, é como ser um salmão, que atravessa um rio para chegar lá em cima e se procriar. Tem uma correnteza. Tem ursos tentando pegar os peixes. Tem pedras. E poucos conseguem chegar lá. Não deixe que a correnteza te sufoque. Não deixe que os ursos te comam. Não deixe que as pedras te machuquem. Somos maiores que isso. Somos bem maiores que isso.
Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

  • renata

    esse texto é maravilhoso! eu ando passando por muitos problemas relacionados a isso. achei que era drama meu, mas é realmente dificil superar essa porcaria. obrigada pelo texto, são coisas relativamente “simples” mas que eu adorei ler

  • Beatriz

    seus textos são lindos, bia, essa revista é linda. sempre que entro aqui me sinto muito melhor. obrigada!

  • Roberta Jezierski

    O texto é legal e tudo mais, só que tipo, eu procuro ajuda porque não consigo resolver meu problema sozinha mas tudo o que eu encontro são pessoas que tiveram o mesmo problema que eu quando eram crianças ! Sempre o “problema” é resolvido até cerca dezessete anos. Eu tenho 19; ano que vem, em janeiro (que já tá chegando) eu faço 20 anos e nunca tive NENHUMA experiência. E EU QUERO TER ! Aí eu procuro por casos parecidos com o meu mas tudo o que eu encontro são pessoas que falam ” eu perdi o bv tarde, com 13 anos… com 17 anos”, a mesma coisa pra sexo. Ahhh, só consigo sentir muita raiva, pq se nada aconteceu até agora, a tendencia é piorar…

    • Ray

      Oi, Roberta! Você comentou isso há dois anos por isso acho que as chances de ler isso agora sejam mínimas mas eu preciso dizer que você escreveu exatamente o que eu sinto. Eu faço 20 ano que vem e te entendo, isso podia ter sido escrito por mim, me senti acolhida.

      • Paradyse Gamerss

        Eu tenho 17 e tô na mesma situação, slá eu acho q sou insegura dms. Eu fugi de todas as oportunidades que eu já tive de perder o bv, só que agr tô incomodada dms com isso pq como ela falou no texto, minhas amigas tem namorado, minhas vizinhas, primas e eu continuo aqui sozinha

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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