2 de dezembro de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
E quando o fandom não é tão legal assim?

Ainda me lembro da primeira vez que estive em um evento de anime. Eu tinha 14 anos e só obtive permissão porque fui escoltada por basicamente a minha família inteira. Dentre as memórias mais estranhas de minha vida, está a de minha mãe olhando muito séria para um cosplayer com orelhas de Mokona e lhe assegurando intensamente de que Jesus o amava. Escapuli antes que o garoto confuso conseguisse identificar quem tinha sido o traidor que levara uma forasteira para o recanto mais sagrado dos otakus. Mas naquela época eu não tinha escolha, era o preço a ser pago.

(Se por acaso estiver lendo isso de algum lugar, saiba que seu sacrifício jamais será esquecido, desconhecido amigo.)

Anedota à parte, a sensação de finalmente estar entre pares foi extasiante. Nunca cheguei a ser uma vítima real do bullying, mas na adolescência tinha uma sensação gigante de não pertencimento. Eu gostava de anime, mangá e videogames com muito mais intensidade do que a maioria das meninas (e dos meninos) da minha sala. Quase todo mundo curtia essas coisas em algum nível, é claro – afinal, estávamos em meados dos anos 2000 e ainda não havíamos sido vacinados contra tudo aquilo que parecesse vagamente infantil –, mas eu gostava em um grau um pouco maior do que meus conterrâneos tinham disposição de acompanhar. Chegar, então, num espaço em que todo mundo falava a mesma língua foi indescritível. O evento em si era modesto, penso agora – ocupando só um ou dois andares de um dos prédios da UERJ, além de um auditório –, mas a sensação de pertencimento, liberdade e segurança foram tão intensas que me fizeram voltar muitas e muitas vezes a este tipo de espaço pelos anos que se seguiram (a partir de então, sem escolta).

Essa historinha foi pra ilustrar como é gostosa a sensação de acolhimento quando a gente descobre um fandom. A Sofia escreveu bastante sobre a importância de se encontrar um cantinho desses, e eu só posso assinar embaixo e concordar com tudo. No entanto, existe uma parte menos bacana em quase todo o fandom, que de vez em quando a gente precisa lembrar.

Infelizmente, como em tudo que envolve gente, pipocam pontos altos e baixos. O mesmo tipo de relação que torna um grupo acolhedor para certas pessoas pode ser responsável por criar um ambiente tóxico ou não saudável para outras. Biologicamente, há uma explicação científica para isso. Alguns estudos hoje mostram que um dos principais hormônios encarregados da sensação de união – a ocitocina –, é tão responsável pela empatia e confraternização entre “iguais” quanto pela rejeição a entes externos. Isso ajudaria a explicar por que países com tradições extremamente nacionalistas possuem maiores tendências a um histórico xenofóbico: um sentimento muito forte de proteção ao que “nos pertence” pode degenerar em descaso ou ódio ao que está fora dessa esfera. Há, no entanto, uma carga cultural, social e histórica que não pode ser deixada de lado, pois a ocitocina não é uma poçãozinha mágica que faz com que as pessoas se tornem melhores ou piores. Ela apenas age intensificando ou amortecendo padrões que já estariam dentro das pessoas.

Com os fandoms não é diferente. Sabemos que se cria toda uma cultura em torno desses grupos, com linguagem, ideias e piadas próprias, e implícita ou explicitamente somos treinadas a identificar quem está dentro e quem está fora. Minha mãe era fatalmente um elemento estrangeiro naquele meu primeiro evento de anime e, mesmo sem entender por que exatamente, eu sabia que havia quebrado uma regra tácita ao levá-la para lá. Embora o pé atrás fosse justificado nesse caso (minha mãe – que tem o seu próprio “fandom”, diga-se de passagem – odeia animes e estava mais interessada em exorcizar metade dos participantes do que de compreender aquele grupo), é essa mentalidade de clube fechado que cria os estereótipos da “nerd poser” ou da “fake gamer girl”. Em alguns casos mais graves, pode levar a assédios e ameaças.

É claro que estamos falando de uma minoria. Uns fandoms são mais agressivos do que outros, mas a maioria das relações é bem mais positiva do que negativa. Um que eu adoro é o do desenho Steven Universe, por exemplo. De maneira geral, trata-se de um fandom muito alegre e aberto a identidades de gênero, sexualidade, tipos de corpos e etnias diversas. Para muita gente, eu inclusive, é impossível não amar uma série em que canonicamente vemos personagens gordas sendo apaixonantes, relacionamentos lésbicos tratados com naturalidade e uma grande variedade racial, inclusive dentre os protagonistas. Isso significa que pela primeira vez muitas pessoas negras, gordas e trans podem fazer cosplay de seus personagens favoritos sem serem ridicularizadas. Gerou-se em torno de Steven Universe um espaço de acolhimento único que muitos defendem agressivamente.

Daí que de uns tempos para cá tenho visto algumas pessoas (em sua maioria homens, em sua maioria brancos, em sua maioria héteros, em sua maioria cis e em sua maioria magros) dizerem como o fandom de Steven Universe é “o mais tóxico que existe”. E então começam a enumerar suas razões para a conclusão brilhante: cosplayers brancos “ridicularizados” por fazerem personagens canonicamente negros; desenhistas “repreendidos” por emagrecerem uma heroína; meninas com um pé atrás pela entrada de homens na fileira dos fãs, com medo da “bronização” de um fandom onde até então eram capazes de se expressar abertamente.

Minha opinião pessoal nesse caso é que assédio não é legal em caso nenhum. OK. No entanto, algumas pessoas acharem que esse fandom é o “pior de todos” me parece menos um demonstrativo da falta de qualidade dele do que um sinal de que, pela primeira vez na vida, certo grupo de pessoas está percebendo o que é não estar incluído em uma comunidade da qual queiram participar. Isso não é uma invenção do fandom de Steven Universe. Isso é algo que qualquer menina que goste de super-heróis da Marvel ou de videogame já sentiu na pele mais de uma vez. A maioria das pessoas brancas, hétero e do sexo masculino provavelmente nunca acharam os grupos de fãs de animes ou de videogame ~particularmente~ tóxicos. Talvez até achassem engraçado chamar uma cosplayer gorda de “Sailor Full Moon”, como já ouvi aos berros naqueles eventos que tanto me acolheram anos atrás. Ou encontrem razões altamente racionais para defender o chilique de algumas pessoas que odiaram a ideia de existir uma Link mulher num jogo spin-off da série The Legend of Zelda. Essas pessoas provavelmente dizem que a “internet é assim mesmo” e algumas talvez até se sintam legitimamente injuriadas pela ação de assediadores. Mas nunca foi diretamente com eles. No fandom de Steven Universe é. Por isso, para eles, esse é o “fandom mais tóxico de todos”. O que não enxergam é que há um potencial de toxicidade em praticamente todo o fandom e que algumas pessoas sofrem desses males com muito mais frequência do que outras.

Como regra geral, quanto maior o fandom, mais fácil é encontrar pessoas que tornam sua missão pentelhar a vida dos outros. Em casos mais sérios, há também aqueles fãs que são desrespeitosos com os atores ou criadores das obras em questão, invadindo espaços privados ou se tornando agressivos. E existe ainda um outro tipo de relação não saudável que é quando a pessoa põe um valor extremo a seu objeto de afeto. Isso vale tanto para o fandom de uma banda como One Direction quanto para um time de futebol do coração: se a vida parar de fazer sentido por causa da saída de um integrante ou porque seu time caiu para a segunda divisão, é melhor respirar fundo e procurar por outras coisas que também te deixem feliz, miga. Não porque seja um sentimento ridículo – cada um sabe de sua própria história –, mas porque é uma linha de raciocínio perigosa e sujeita a todo tipo de instabilidade.

Apesar de tudo, eu adoro ser parte de fandoms. Amo conversar com pessoas que compartilham de pontos de vista parecidos e teorizar. Parte da minha escrita se desenvolveu enquanto eu escrevia fanfics gays de Death Note. Fiz amigos que quero levar para a vida por causa de ships e obsessão por uma ou outra personagem de Life is Strange. Em poucas palavras: é divertido fazer parte de um fandom. Só precisamos de vez em quando de um lembrete de que a internet é um lugar incrível, mas que requer compreensão e alguma proteção.

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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