25 de junho de 2019 | Edição #48 | Texto: | Ilustração: Kimie Noda
“E que vença a melhor mulher!”

Apesar de o bordão de Rupaul Charles ter se popularizado através de Rupaul’s Drag Race, reality show que estreou em 2009, a cultura drag existe há um tempão. Desde o final do século 19, onde atores homens faziam papel de mulher nos teatros – afinal, não havia mulheres trabalhando como atrizes, já que ser atriz era considerada “coisa de puta” -, a arte de homens se vestirem de mulher é antiga. 

Diferentemente do que muitos pensam, drag queens ou kings são homens e mulheres que possuem um personagem, se vestem com roupas e maquiagem típicas do gênero oposto, mas que não necessariamente significa que se vistam com roupas “trocadas” fora dos palcos. 

Hoje em dia, porém, drag não é só sobre homens que se vestem de mulher. Dentro do mundo drag, existem diversas categorias diferentes. Algumas drags procuram representar um exagero da figura feminina, que em geral é associado ao humor (por vezes depreciativo). Isso inclui maquiagem absurda, perucas enormes e bordões, como a da drag Bianca del Rio. 

Outra categoria são das drags que cultuam a figura feminina e tentam atingir o máximo de verossimilhança, com maquiagem e roupas que nos fazem olhar duas vezes antes de percebermos que é um personagem, como da brasileira Pabllo Vittar ou da norte-americana  Farrah Moan. Essas muitas vezes participam de concursos de beleza, que premiam a feminilidade. 

A terceira que vale destacar são das drags alegóricas, que misturam a figura feminina com criaturas fantásticas, animais e elementos artísticos, como Yvie Oddly, Nina Bo’nina Brown e Sasha Velour.  Temos ainda as drags que fazem homenagens, dedicando-se a ser sósia de figuras como Beyoncé, Cher e Britney, como o Derrick Barry. 

Existem, aliás, pessoas trans que também são drag queens, como Gia Gunn e Peppermint – ambas mulheres trans, mas que usam técnicas de maquiagem e roupas drag e fazem performances e shows pelo mundo. É bom ressaltar que essas não são categorias fixas e que a arte drag é muito ampla, então muitas outras subcategorias existem.

Nos Estados Unidos, o cenário drag tem crescido através das décadas. Nos anos 50 e 60, como a criminalização da homossexualidade ainda permanecia, a cultura drag virou uma contracultura, que era marginalizada, mas que tinha uma importância política como a participação das drags nos protestos de Stonewall, que falamos em uma outra matéria deste especial.

Nos anos 70, Tim Curry foi a estrela de The Rocky Horror Picture Show, uma comédia sci-fi musical sobre uma travesti cientista alienígena (que, aliás, é um filme muito divertido e um clássico cult). Muitas bandas de glam-rock começaram a se vestir com roupas femininas, o que popularizou ainda mais a estética drag. Nos anos 80, tivemos Boy George, essa figura tão andrógina, que habitava o limiar o que era considerado homem e mulher. 

Até que, finalmente, em meados dos anos 80 e 90, a drag queen Rupaul se popularizou na cena Nova Iorquina participando de shows e gravando álbuns de música pop, e se transformando na figura icônica de hoje.  

RuPaul’s Drag Race

A criação de seu show, uma “corrida” de drag queens, consiste em uma competição em que os/as participantes são desafiados em toda a sorte de jogos: costura, maquiagem, atuação, dança, e lipsync (em inglês, “lábios sincronizados”, o que quer dizer que a pessoa dubla a música). Sua primeira edição teve um prêmio pequeno, de 5 mil dólares. O reality show fez tanto sucesso, que hoje temos 11 temporadas e um prêmio de 100 mil dólares, além de edições especiais de Natal e o lado B da competição, o Untucked, onde vemos os bastidores do show, e o All Stars, onde drags que fizeram sucesso mas não ganharam em suas respectivas temporadas têm uma segunda chance de competir pelos 100 mil dólares. Ele é exibido em centenas de países, incluindo o Brasil, onde a Netflix tem os direitos de exibição. Ele já teve a sua versão Tailandesa e Inglesa, e é um sucesso por onde passa.

Na história de drag queens, essa foi a primeira vez que tantos homens gays e bissexuais, pobres, latinos, negros, asiáticos, tiveram sua chance de brilhar enquanto expressavam a sua arte e serem bem sucedidos fazendo isso publicamente. Muitas drags vêm de famílias pobres e imigrantes, muitas sofreram abuso na infância, e fazem da arte drag a sua válvula de escape artística. Pode não parecer, mas ainda hoje, neste momento, existem vários exemplos de como essa cultura tão complexa e glamourosa invadiu a casa do espectador médio.

Pabllo Vittar

A nossa drag, orgulho nacional AND internacional, futura imagem da nota de 100 reais brasileira. Pabllo é maranhense e explodiu nas rádios nacionais com hits como Vai passar Mal e Sua Cara (com a Anitta). Ela é considerada nos dias de hoje uma das drags mais influentes do mundo inteiro, aparecendo na Vogue como um ícone LGBTQI+ e virou referência como artista mundialmente.

Goste ou não de Pabllo, é inegável a importância de sua fama atual. Em um país governado por pessoas que pregam a “conversão” de pessoas LGBTQ, como se fosse uma escolha, ter um homem gay que performa vestido de mulher requer uma baita coragem, e inspira muitas pessoas a fazerem o mesmo e saírem do armário.

Maquiagem de Instagram

Sim, você leu certo. Sabe aquela maquiagem estilo Kim Kardashian, cheia de contorno, glitter, cut crease, cílios postiços? Muitas dessas técnicas vêm de maquiagem drag, em que homens precisam esconder os pêlos da barba e “esculpir” a face com base, dando a ilusão de terem feições mais tipicamente femininas. Procure por “drag queen makeup” no Youtube e você verá que o passo-a-passo das meninas do Instagram são muito parecidos com os das drags. Eu recomendo procurar pelos tutoriais da Trixie Mattel se você entende vídeos em inglês. Ela muda completamente o rosto através da maquiagem e se torna irreconhecível!

Música Country

Falando em Trixie Mattel, é legal pensar em música country americana. Um dos maiores ícones gays e country, um gênero geralmente dominado por homens e um tanto machista, é Dolly Parton (a cantora de Jolene). Apesar de não ser lésbica ou bi, Dolly é um ícone gay por ser parte da luta pela causa LGBTQI+, e por ter um visual tão absurdo que muitas drags querem parecer com ela – e Trixie é uma das mais famosas. Trixie Mattel é, além de uma drag queen e humorista, a primeira cantora country drag queen, e é muito bem sucedida em seu ramo. Devido à sua estética caricata de uma boneca Barbie (por isso o sobrenome Mattel), com mini vestidos, maquiagem que dá pra ser vista da lua e muito cor de rosa, Trixie se tornou um ícone das adolescentes lésbicas e bissexuais nos EUA. O seu último lançamento musical, chamado Yellow Cloud, é divertidíssimo. Ela também tem um programa no Youtube chamado UNHhhh, onde fala sobre assuntos absurdos de maneira hilária com outro ícone drag, Katya Zamolodchikova, uma prostituta bissexual russa do inferno. Os vídeos são os mais bem-sucedidos do World of Wonder, produtora de Rupaul. 

Se você nunca viu Drag Race ou ouviu o álbum country da Trixie, eu recomendo fortemente tentar um deles com uma cabeça aberta. Existe muita história, beleza, cultura, humor e entretenimento no mundo drag. Também há seus problemas – ele é muitas vezes considerado uma cultura machista pois exclui mulheres trans e cis, e drag kings, onde mulheres se vestem de homem para performar, ainda não são muito explorados pela mídia. O universo de drag queens está longe de ser perfeito e tem que comer muito arroz e feijão para ser mais inclusivo. Enquanto isso não acontece, é bom consumir essa (e todas as outras formas de) arte com um pouco de crítica, mas não deixar de aproveitar a alegria que as drags trazem pra gente! 

 

Para saborear um pouco mais a cultura drag, eu recomendo:

Divinas Divas, um filme brasileiro dirigido pela Leandra Leal de 2017, e segue a trajetória artística de oito drags desde os anos 60. Ele fala sobre drags famosíssimas como Rogéria e Jane di Castro.

“Fofão da Augusta? Quem me chama assim não me conhece”, um artigo publicado pelo Buzzfeed in 2017 por Chico Felitti, que investigou a vida de Ricardo Côrrea da Silva, figura mítica das ruas do centro de São paulo, que faleceu em dezembro do mesmo ano. 

Pink Flamingos, filme de 1972 sobre a icônica Divine, uma drag queen, e sua família bizarra, que estão literalmente competindo pra ver quem ganha o título de pessoa mais imunda do mundo. É bem nojento, e o diretor recomendou que sacos de papel fossem distribuídos nos cinemas para que as pessoas pudessem vomitar durante o filme. Um clássico.

Paris is Burning, de 1990, é um documentário que investiga o submundo das drag queens Nova Iorquinas. É um filme importantíssimo e muito sério sobre o impacto da cultura drag na sociedade.

Priscila, a Rainha do Deserto, de 1994, é um filme que você provavelmente já ouviu falar sobre. É um filme sobre três amigos drag queens viajando pelo deserto em um ônibus. Belíssimo e delicado, ganhou vários prêmios quando foi lançado – inclusive um Oscar!

Nicole Ranieri
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Vlogger

Nicole é Paulista de 22 anos, mas mora em todos os lugares e pertence a lugar nenhum. Estuda administração com foco em exportação mas é gente boa, não gosta de tomate mas é uma pessoa do bem, curte uma coisinha mal feita e não recusa jamais uma xicara de chá verde. Se fosse uma pizza, Nicole seria meia espinafre, meia cogumelo.

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