14 de abril de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Nathalia Valladares
E se eu não puder fazer faculdade?

Desde pequenas costumamos ser incentivadas a pensar no que ser quando crescer e depois de um tempo a gente descobre que parte desse processo inclui, teoricamente, ingressar em uma universidade. Eu cresci numa família de classe média alta, então sempre trataram como passos intrínsecos da vida de um ser humano isso de ir fazer faculdade. Você nasce, cresce, vai pra faculdade, se reproduz, trabalha e morre, de preferência bem nessa ordem.

É difícil ter uma noção do que é realmente uma faculdade se você não tem o menor contato com esse ambiente. A gente acaba criando uma visão idealizada do que seria, pelo que vemos em filmes às vezes ou ouvimos falar, mas raramente a ideia inicial condiz com o que é na prática. Há inclusive quem defenda que o espaço acadêmico não é um lugar para todas as pessoas, não no sentido elitista exclusivo das coisas, mas realmente que só deveria ingressar quem tem o interesse real de seguir uma formação em pesquisas e dentro da formalidade do meio universitário, porque realmente existem profissões que não precisariam necessariamente de uma formação de ensino superior para serem exercidas.

Agora, já é ruim o suficiente ter isso quase que imposto, mas com o tempo passei a perceber que para algumas de nós a realidade da faculdade, independentemente dessa discussão, é uma possibilidade remota e distante, ou então nem sequer é uma opção a ser cogitada.

É importante entender o porquê da faculdade ser uma realidade distante, entender que isso é uma questão onde o buraco é bem mais embaixo do que simplesmente não ter condições financeiras. Para começar que no Brasil as mais bem conceituadas universidades são públicas e gratuitas, ou seja, deveriam ser espaços mais diversificados e democráticos, mas o que acontece é que, muito por conta do sistema de ingresso (o nosso querido vestibular), eles se tornam elitizados. Além disso, as políticas de inclusão social, como cotas, não têm sido suficientes porque elas não dão um real auxílio aos alunos cotistas. Eles continuam tendo que ter gastos externos como o de xerox, restaurante universitário (bandejão), transporte etc. E se formos continuar pensando, vamos ver que a teia só se embola em várias questões de políticas públicas relacionadas à educação em geral.

Mas nem tudo está perdido, existem maneiras de contornar a situação e procurar tornar a universidade mais popular e inclusiva, e existem também alternativas para quem realmente não se vê fazendo um curso superior. Vamos por partes.

1) Como contornar a situ:

Existem alguns cursinhos populares, no esquema em que a Gabi falou aqui e também existem os coletivos que proporcionam uma voz ativa aos alunos, e no nosso caso específico, meninas, existem diversos coletivos feministas que pensam nas nossas necessidades dentro do espaço acadêmico — aqui na Capitô a gente já até falou da importância deles. Na universidade onde estudo, descobri que existe bolsa de auxílio creche, o que é incrível, pois reconhece uma situação real que engloba uma série de mulheres nas mais diversas situações. Isso possivelmente foi o resultado das demandas que foram feitas. É vital que a gente entenda que a nossa vivência enquanto mulheres que buscam um ensino acadêmico, mesmo depois da sociedade patriarcal e capitalista nos dizer que esse não é nosso lugar, é que faz toda a diferença e nos empodera cada vez mais para continuar conquistando esse espaço. Isso quer dizer que se você inicialmente pensa que não pode fazer faculdade e consegue driblar essa barreira, ao entrar no curso que quiser, você já está abrindo espaço para que outras companheiras consigam isso também, ou ao menos tenham seus direitos assegurados de estar nesse meio.

2) Ok, mas eu realmente não posso fazer faculdade

Não seja por isso, existem outras alternativas ao curso superior e elas não estão em uma escala menor, ou qualquer coisa assim, e levam a profissões tão dignas quanto. Não tem por que sentir que estão em escala menor, e no final das contas quem realmente trilha sua vida profissional é você, então vamos falar de algumas opções.

A. Cursos técnicos

Esses cursos costumam ter a duração de dois anos e têm como pré-requisito a conclusão do ensino médio, ou estar em via de concluir. Eles são realizados de três formas: integrada (o aluno faz simultaneamente o nível médio e a formação técnica), concomitante (ocorre uma complementaridade entre o curso técnico e o ensino médio) ou subsequente (para quem já concluiu o ensino médio), é uma especialização mais focada na área de interesse que a pessoa escolher. Uma grande vantagem é o acesso rápido ao mercado de trabalho e além disso, alguns são até gratuitos.

B. Cursos profissionalizantes

São aqueles que têm uma duração menor, de alguns meses apenas, e que para cursar não são necessários pré-requisitos. Às vezes são oferecidos até mesmo pela própria empresa em que se deseja trabalhar. O objetivo é te dar uma formação de conteúdos baseados no perfil profissional e das competências requeridas pelo mercado de trabalho da área.

C. Trabalhar por conta própria

Requer esforço, mas é uma opção ser uma profissional independente. No universo das áreas criativas, por exemplo, existem diversas maneiras de se fazer isso. É uma questão de pensar na sua área de interesse e pesquisar o que se pode fazer, por exemplo: quem se interessa por gastronomia pode abrir seu próprio negócio de maneira pequena, vendendo em festas, coisas assim.

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 No final das contas, é importante manter em mente que não existe um único caminho a seguir e que não é porque infelizmente o Estado negligencia a educação que nós, juntas, não podemos buscar maneiras de sermos realizadas profissionalmente, com diploma de curso superior ou não.

Fernanda Brandão
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Tenho 18 anos, moro em Porto Alegre e curso Artes Visuais na UFRGS. Gosto muito de cidades grandes, feminismo e filmes do Studio Ghibli. Acredito fielmente que sou filha do David Bowie.

  • Gabriela

    Grata pelas dicas! Com certeza são muito úteis. Eu desejo muito fazer ciências sociais, mas além de não ter na minha cidade eu tenho medo de não passar e caso eu passe, dificilmente vou conseguir me mudar ou pagar transporte 🙁

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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