19 de março de 2015 | Ano 1, Edição #12 | Texto: | Ilustração: Hanna Seabra
Ela não se chama Crazy Eyes
Ilustração: Hanna Seabra.

Suzanne é uma mulher incrível, com uma história incrível, uma personalidade incrível, uma construção incrível. Aqui não vamos chamá-la de Crazy Eyes (em português, “Olhos Loucos”), apelido nem um pouco afetuoso dado pelas detentas da prisão federal feminina de Litchfield, nos Estados Unidos. Afinal de contas, Suzanne não gosta de ser chamada assim – para falar a verdade, ela nem sabe o motivo.

Para quem não entendeu nada, vou explicar do que é que estou falando. Orange is the New Black é uma série produzida pela Netflix. Os episódios narram o cotidiano de uma cadeia feminina, com personagens complexas, humanas, mulheres que a gente passa a gostar e confiar, não importa o crime que tenham cometido. Porque, na verdade, o que importa ali não é criminalizar aquelas pessoas, mas sim observar suas perspectivas e suas narrativas. Eu sei, já falamos de OITNB aqui na Capitolina outra vez (até já falamos do livro que deu origem a isso tudo), mas é que é tudo tão bom que precisávamos falar de novo!

O mais legal é que, por ser uma série com tantas mulheres maravilhosas, fica muito difícil escolher uma preferida. Eu mesma nunca consigo. Fui reassistir a alguns episódios esses dias. Passava alguma personagem, eu logo falava “eu adoro ela!!!!”; aí outra: “ai, essa é demais!!”; aí mais outra: “AAAAH, eu adoro essa também!”; e assim por diante. Por isso ainda mal falei de Suzanne, apesar deste texto ser inteiro dedicado a ela. Então vamos lá.

Quem já assistiu à primeira temporada se lembra de quando Suzanne conheceu Piper, né? E que, a partir daí, começou a chamá-la pelo apelido-mais-cafona-do-mundo “Dente de Leão”? E que, em uma das primeiras noites de Piper na prisão, ao lado da temível Sra. Claudette, Suzanne apareceu e fez aquele inesquecível xixi no chão? E que cantava uma espécie de “poema romântico racializado” sobre chocolate e baunilha, enquanto encerava o chão da prisão?

Sim, todo mundo que viu a série se lembra desses acontecimentos todos. E de seus olhinhos arregalados, evidenciando suas expressões exageradas. Mas, para além disso tudo, quem viu a segunda temporada se lembra também do episódio que conta a história de sua vida. Sobre ser discriminada desde criança por ser negra, adotada em uma família de brancos. Sobre ser maltratada em festinhas de crianças brancas que, mal sabendo o que faziam, já soltavam comentários preconceituosos. Sobre contar histórias inventivas e mirabolantes quando as outras meninas, só querendo saber de historinhas bobas de princesas, a xingavam.

"Você é estúpida!"

“Você é estúpida!”

"Mas dragões são legais."

“Mas dragões são legais.”

Não se trata de termos “dó” ou “piedade” de Suzanne. Suzanne é uma personagem forte e espetacular, não merece esse tipo de migalha. É depois de episódios como esse que passamos a entender melhor a lógica dela e, portanto, sua forma de lidar com a vida. Ninguém merece ser tratada como o mundo tratou Suzanne: com racismo, capacitismo, exclusão, apontando o dedo na cara e rindo. Não dá para o mundo continuar assim, estigmatizando qualquer pessoa que fuja minimamente dos padrões de “normalidade”. Afinal de contas, o que é ser “normal”? “Normal” no ponto de vista de quem? Não faz sentido continuarmos separando a sociedade dessa forma.

Mas Suzanne sabe que é melhor e mais forte que tudo isso. E diz:

“Eu não sou louca. Eu sou única.”

"Eu não sou louca."

“Eu não sou louca.”

"Eu sou única."

“Eu sou única.”

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

  • Yasmin

    Suzanne <3 Dou muita risada com ela.

  • http://mimimidemais.blogspot.com.br/ Diana Navarro Lins

    Post lindo! <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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