28 de junho de 2016 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Isadora M.
“Ela veio crente, que eu tô entendendo…”- A decoreba, funciona?
Decoreba-IsadoraM

Não é novidade que o atual modelo brasileiro de educação básica possui muitos problemas. Desde horas exaustivas de conteúdos repetitivos até a falta de abertura para discussões e questionamentos, nós lidamos com um sistema que se utiliza de métodos avaliativos incapazes de assegurar uma verdadeira aprendizagem do conteúdo por parte do estudante e, logo, utilizamos métodos falhos. É comum um estudante passar horas sentado em uma cadeira copiando do quadro determinado conteúdo, enquanto o professor repete em voz alta o que já está escrito, é comum também que tal aluno, provavelmente muito jovem, faça essa ação de copiar e gravar durante horas, dias e anos sem sequer compreender o porquê de precisar fazer aquilo, e o que deveria questionar de fato é… Ele realmente precisa fazer aquilo? 

Afinal, quem de nós na escola nunca passou um dia lendo exaustivamente um texto ou fazendo exercícios copiados em nossos cadernos, torcendo para que aquilo que copiamos e gravamos com tanto esforço fosse o que caísse na prova no dia seguinte? Quem nunca ficou encontrando fórmulas mirabolantes de decorar algo para que dez minutos depois da prova nem conseguisse lembrar o que havia escrito no papel? A falta de debates em sala de aula, tempos de aulas curtos e o não incentivo à construção de visões curiosas sobre os conteúdos oferecidos talvez sejam a principal forma de manutenção de um modelo educacional conservador e que não permite a crianças e adolescentes o desenvolvimento pleno de suas aptidões.

Apesar de falarmos mais especificamente da educação básica, esse modelo não se limita aos nossos primeiros anos de aprendizagem, já que quando ingressamos no ensino superior as coisas parecem não mudar tanto. Ainda que tenhamos a oportunidade de cursar algo que realmente gostamos, é comum nos depararmos com disciplinas e conteúdos que não vão nos agradar, mas que, infelizmente, precisaremos estudar para garantir nossa formação, e são nesses momentos que nos deparamos mais uma vez com aquela famosa pergunta: “Para que eu preciso disso?” Nessa hora é importante percebermos que a conduta do educador em sala de aula torna a resposta para essa questão ainda mais difícil, uma vez que eles possuem dificuldade em integrar assuntos ou desenvolver atividades práticas para tornar o conteúdo da aula mais interessante para o estudante.

Na contramão do sistema, existem milhares de educadores trabalhando na criação de metodologias de ensino que possibilitem a real aprendizagem e desenvolvimento intelectual de estudantes ao redor do mundo. No Brasil, temos o neurocientista Gil Santana, criador da escola Ambamind e que, no momento, estuda seu doutorado na Universidade de Stanford — que também é uma pesquisa voltada para o desenvolvimento de um sistema educacional eficiente com base em valores como autoconhecimento e empoderamento. Recentemente, Gil realizou uma paródia com músicas de funk e a uma letra animada onde critica o sistema educacional, com trechos como: “Copiei toda a matéria, não entendi mas tá valendo!” Assim, ele tenta demonstrar a dificuldade de aprendizagem dos estudantes nos mais diversos níveis de ensino e as práticas antiquadas de professores em sala de aula. A paródia do estudante fez sucesso pela internet, principalmente em páginas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde estudantes se identificaram muito já que em áreas “Exatas” existem inúmeros professores com as características criticadas na canção. Você pode assistir ao vídeo completo abaixo:

Paródia “Baile de Decoreba”, por Gil Santana.

Segundo Howard Gardner, psicólogo cognitivo e educacional da Universidade de Harvard, o ser humano possui até sete tipos diferentes de “inteligências”, essa é a chamada “Teoria das Inteligências Múltiplas”. Entre as áreas que possuímos e que o pesquisador defende estão a visual espacial, que diz respeito à percepção de espaço, a cinética-espacial, que é a capacidade de controle físico que uma pessoa pode ter, a musical, lógico matemática, linguística e interpessoal, sendo a última dividida em áreas como habilidade de comunicação com demais pessoas, ou o nosso autoconhecimento.

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O caminho para uma educação de qualidade e que possibilite o desenvolvimento pleno de nossos estudantes ainda é longo e com muitos obstáculos, mas saber que existem pessoas trabalhando diariamente para que o sonho de uma escola melhor se realize nos dá esperança de que um futuro melhor está por vir. Nossos jovens e crianças já mostram a que vieram, como temos presenciado desde 2015 nas ocupações de escolas em São Paulo e, agora, em ocupações pelo Brasil todo como forma de protesto por uma educação de qualidade e contra os abusos de governantes dos respectivos estados. O futuro que enxergamos é um futuro de muita luta, mas também de muita energia de professores, pesquisadores e principalmente de nossos estudantes. O que está por vir é muita luta por nossas escolas, nossa educação, nossa dignidade… Muita luta pelos nossos direitos.

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Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

  • http://eugenero.blogspot.com Ronaldo Torres

    Vale lembrar que há muitas visões de educação em jogo, e mesmo no Brasil a diversidade nos sistemas existe. Muitas vezes exercido por professores na contramão das instituições, outras vezes em instituições que não possuem professores preparados.
    Também defendo esta mudança e reconheço a urgência de sua reconstrução. Vale ressaltar que aqui no Brasil temos teorias de grandes educadores, como por exemplo Paulo Freire.
    Em um momento mais contemporâneo que isto temos a luta pelo direito a discussão sobre gênero nas escolas que foi negada pelos nossos governadores na maioria dos lugares que foram votados.
    Massificar a educação dizendo que todas as escolas devem ser assim ou daquele jeito também não é o caminho, afinal se chegamos aqui temos que reconhecer que a decoreba não funciona para a maioria, mas para alguns faz todo sentido.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Amei muito o texto, sabe me indicar sites/livros/artigos para conhecer mais sobre?

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