11 de março de 2015 | Edição #12 | Texto: | Ilustração: Hanna Seabra
Eles te dirão que sou insana: gaslighting
Ilustração: Hanna Seabra.

Alguns dias atrás, eu contava para uma amiga os últimos episódios de uma dessas relações complicadas que envolvem amor, DRs, choros, amizade e muitos, muitos anos de história. Acontece que os últimos episódios consistiram em: 1. eu pedindo para o cara nunca mais falar comigo; 2. ele perguntando o motivo do meu pedido; 3. eu dizendo que eram milhões e que só contaria para ele se ele estivesse mesmo a fim de ouvir, porque eu não ia me desgastar com isso mais uma vez; 4. ele falando “aham, qualquer dia a gente conversa”. Minha amiga tinha parado apenas no ponto 1; quando ela ouviu o resto da história, me disse:

– Fico feliz que tenha acabado assim, porque você terminou por cima. Eu entendo que tenha sido importante dizer pra ele sumir da sua vida, mas, sabe… Eu sei que isso não devia importar, mas sempre importa… Você ia ficar como louca para ele.

Quando minha amiga disse isso, lembrei o motivo principal de eu querer nunca mais falar com esse garoto na minha vida: ele me colocava em um lugar que não é – nunca foi e nunca será – o meu. O lugar de mulher que não consegue controlar seus sentimentos, que é irracional; e na linguagem dos homens, esta mulher é chamada de louca.

Agora, é importante que saibam que toda a vez que eu usar esta palavra no texto, será com esse significado, o que não significa que nós, da Capitolina, concordemos com ele. É apenas uma forma de ilustrar exatamente a situação em que os homens nos colocam.

Todas nós já ouvimos essa história. O cara bonzinho e sensato que começa a namorar uma garota bonita por quem ele se apaixona. A garota, apesar de poder estar receosa no começo, decide se abrir para aquela relação e, assim, começa a mostrar suas inseguranças. O nosso mocinho se assusta com isso, percebe que aquela garota não é a mesma por quem ele se apaixonou e, assim, termina com ela. A garota, por sua vez, fica machucada – ela se abriu para ele, afinal de contas – e demonstra isso. Eles brigam. Nosso mocinho passa a namorar outras garotas e, quando se refere à ex, fala com naturalidade: Ah, ela era louca! E começa a narrar uma série de atos extremamente distorcidos.

Essa história acontece todos os dias, em todos os lugares do mundo. Seja na ficção, seja na realidade. E coloco ela heteronormativa porque esta arma do “você está louca” é muito mais comum de ser usada por homens. Em inglês existe um termo para isso: gaslighting.

Amiga, não caia nessa.

Não importa quem é a vítima: você, sua amiga, uma garota que você nunca viu na vida. Se um garoto diz que uma garota “é louca”, seu primeiro impulso deve ser sempre duvidar dele. E vou aqui te contar o motivo disso.

Acontece que se construiu essa ideia completamente machista de que não podemos demonstrar sentimentos. Por quê? Porque sentimentos, historicamente, estão relacionados às mulheres – especialmente às mulheres que eram dadas como histéricas, ou seja, as mulheres que não eram contidas e submissas aos homens. E, é claro, ninguém quer ser comparado com uma mulher.

Assim, tomou-se como comum a ideia de que uma “boa mulher” não demonstra seus sentimentos e aceita sem questionar tudo aquilo que o homem quiser. Enquanto isso, a mulher que demonstra seus sentimentos, seus descontentamentos, que enfrenta o homem é tida como nada mais nada menos que, isso mesmo, louca. A partir desse ponto, todo e qualquer comportamento da mulher pode ser distorcido para algo assustador. A garota ligou três vezes seguidas? Não é porque ela queria falar com o cara, é porque ela é louca. A garota compartilhou coisas românticas nas suas redes sociais? Não é porque ela achou legal, é porque ela está obcecada pelo cara. A garota alegou o cara estar a traindo com outra pessoa? Não é porque ela soube ou mesmo viu o caso, é porque ela tem algum problema que o coitado do mocinho não consegue entender.

Amiga, não caia nessa.

Um exemplo excelente de uma situação como essas é o que a mídia fez com a Taylor Swift, tornando sua imagem a da moça obcecada por seu ex-namorado, quando ela está apenas expressando seus sentimentos. No caso da Taylor, essa imagem ficou tão forte que ela mesma decidiu se apropriar disso como uma crítica, e “Blank Space” é o resumo dessa crítica ao discurso machista tão difundido por aí.

Em relacionamentos abusivos é ainda pior: você sabe que seu parceiro mente, você sabe que ele te trai, você sabe que ele exige coisas irreais de você, você sabe de tudo isso e, quando finalmente tem a coragem de confrontá-lo, ele diz que é mentira, que ele nunca faria aquilo, que, sim, você está louca. Mas você não está. Você sabe que é verdade, você tem certeza de todas as coisas que ele faz pelas suas costas e tudo o que você quer é que isso pare, porque isso te machuca, porque você já está machucada. Mas ele fala com tanta confiança que você mesma começa a duvidar de si, começa a se perguntar se não inventou mesmo algumas coisas, se não está pegando pesado com seu parceiro. Ele te manipula fazendo com que todos os problemas do relacionamento de vocês pareçam culpa sua – por você ter sentimentos, por você confrontar seu parceiro, por você não admitir abusos, por você falar o que pensa.

Quando o cara invalida seus sentimentos, fazendo com que você se sinta errada por demonstrar aquilo que está dentro de você, ele está apagando o fato de você ser humana. Ele se coloca em um patamar tão alto, ele parece tão convicto, que o discurso de que tudo aquilo ser coisa da sua cabeça sorrateiramente te invade e impregna sua mente. Muitas vezes, ele nem chega a dizer que “você está louca”, mas claramente mostra que as suas ações são descabidas e, a partir deste ponto, nós já conseguimos entender o recado. Mas saiba: não há nada de errado com você.

Você sabe controlar seus sentimentos. Você não deve mesmo admitir mentiras e outras formas de abuso. Diferente do que nos ensinaram a vida inteira, nós, mulheres, devemos sim falar o que pensamos e sentimos, devemos sim confrontar aquilo que não nos faz bem. E, por mais difícil que seja, é necessário lutar contra esse discurso que nos invalida. Um discurso capacitista e machista, que nos deixa mais inseguras quanto a quem somos. Gaslighting é também uma forma de manipulação e, portanto, abuso.

Nós sabemos quem somos e o que queremos. E nenhum homem vai mais confundir nossas cabeças dizendo que estamos erradas por expressarmos aquilo que passa dentro de nós.

É claro que existem casos de reações exageradas de garotas, mas os motivos para isto sempre serão explicados – pode ser uma espécie de trauma, a garota ter aguentado coisa demais e acabar explodindo por algo menor, pode ser que ela tenha aprendido que relações amorosas verdadeiras devem ser tempestuosas. Mas dizer que uma garota é “louca” como forma de justificar (e invalidar) seus atos é errado. Todo mundo carrega consigo uma bagagem emocional e isso não significa que se deve invalidar suas reações. Ao contrário: devemos compreender o ponto de vista da outra pessoa, entendê-la. Isso não significa que sempre vamos concordar com ela, mas é preciso ter essa empatia. Especialmente quando se trata de garotas.

Ensinam a nós, garotas, que devemos ser polidas, que devemos ter ciúmes, que devemos nos preocupar, que devemos cuidar de nosso parceiro, que devemos ser meigas e lindas, tudo misturado. Devemos ser diferente das outras, devemos ser a garota legal que não se preocupa com coisas fúteis (seja lá o que isso quer dizer) e que não se afeta com nada que o cara faz ou fala. E se não somos esse ser inexistente, esse ser que foi criado pelo imaginário masculino da “garota ideal”, seremos loucas.

Então, olhe para sua amiga, para a ex do seu namorado, olhe para si mesma e entenda: ninguém aqui é louca, como dizem os homens. Somos todas extremamente cientes do que fazemos, pensamos e sentimos. E não vamos deixar ninguém nos fazer pensar o contrário. Sim, nós vamos chorar, amar, brigar, se divertir, relaxar. Nós vamos sentir tudo o que há para sentir no mundo. E, sim, dirão que somos insanas. Mas no que seria o espaço em branco de nossos corações, estão nossos próprios nomes escritos.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

  • Lorena

    Texto maravilhoso. É muito interessante aprofundar o gaslighting, especialmente pro público alvo da revista, para que já se tornem mulheres adultas conscientes as armadilhas machistas em que somos inseridas em relacionamentos.

    E é importante percebermos que não, não somos loucas e nunca histéricas. Histeria, já em sua origem, é uma palavra profundamente ofensiva a mulheres.

  • http://revistapolen.com Revista Pólen

    Esse texto é tão, tão legal. Daqueles que a gente quer colar na testa pra andar na rua e ver se as pessoas entendem. E a referência à Taylor no título <3

  • Fernanda Amorim

    Texto muito bom!! E real.

  • Gabriela

    Obrigada por esse texto tão incrível.

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  • Laura Lemos

    Só queria escurecer aqui que isso não acontece apenas em relacionamentos cisheteronormativos. Eu vivi um relacionamento lésbico com todos esses abusos, mentiras e manipulações.

    • Amante Germano-Brasileiro

      Escurecer LOL

    • Mariana

      Isso, isso, isso! De todos os textos que achei sobre gaslighting, só achei com referencias cisheteronormativas. O que é uma pena, né. Eu por exemplo, estou descobrindo isso agora e fiquei me perguntando: será que sou louca em achar que estou sofrendo isso namorando uma menina?

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  • Isabela

    Excelente!! Muito obrigada por esse texto!

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  • Ygor Carbone

    Muito bom, vale ressaltar que nem sempre são as garotas que são vistas como “loucas”

    É bom ler esse texto sem esteriótipo de gênero nenhum; com a mente aberta vc percebe que isso também acontece com homens e que a “loucura” independe de gênero ou sexo. É um rótulo aplicado a qualquer pessoa que pense fora da caixola.

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  • Cris NS

    No início da minha adolescência eu passei por bullying na escola por 5 anos, sem saber que isso tinha nome e que acontecia com outros além de mim. Como me fizeram acreditar, eu achava que o problema era comigo. Só muitos anos depois, na faculdade, numa aula de Psicologia da Educação, eu fui descobrir o que era de fato o que eu tinha passado.

    O mesmo aconteceu com gaslighting. Passei por isso por 6 ou 7 anos, começando no início da vida adulta (19 anos), mas só agora vim a descobrir o que era o que eu passei. Que isso tem nome e não ocorreu só comigo.
    Toda vez que eu tinha que falar do assunto, do que aconteceu, era um problema gigante, porque eu não sabia explicar de maneira coerente e nem conseguia deixar de sentir que as pessoas me achariam uma idiota por ter ficado traumatizada com algo tão “bobo”.
    Eu descobri o termo esses dias, lendo resenhas sobre a série Jessica Jones.
    E, a propósito, eu já conhecia a música e o clipe Blank Space e amo, porque sinto essa identificação.

    O ponto-chave, em todos os textos sobre o tema que li foi quando disseram: ele faz você questionar se não está enlouquecendo. Distorce a realidade de forma que você passe a pensar que algo não aconteceu ou aconteceu de maneira diferente da que você lembra. E ele é tão legal, carismático e charmoso que fará parecer que você está exagerando.

    E foi EXATAMENTE o que aconteceu comigo. Eu comecei a pensar que estava enlouquecendo e passei a me questionar se eu não estava exagerando.

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Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.