2 de novembro de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: isadora M.
Elle Woods rainha, patriarcado nadinha

*contém spoilers*

Acredito que quase todo mundo já ouviu expressões como “coisa de mulherzinha”, “livro de mulherzinha” ou “filme de mulherzinha”, pra citar algumas.

É verdade que alguns produtos como livros e filmes são feitos para públicos específicos e isso não tem problema nenhum, mas existe um preconceito enorme nos produtos que são feitos direcionados ao público feminino. Os filmes e livros para o público feminino são frequentemente considerados de qualidade menor, para donas de casa entediadas, jovens sonhadoras e de pouco conteúdo.

Essa percepção errônea e preconceituosa faz com que muitos filmes de qualidade acabem sendo rotulados como ruins e não recebendo a devida atenção e as pessoas que apreciam essas obras são vistas como de pouca cultura. Claro que se encontra coisas ruins em filmes para mulheres, mas porque filmes ruins existem em qualquer nicho.

Legalmente Loira (Legally Blonde, 2001) não é só um filme destinado ao público feminino, ele tem tudo que pode ser considerado de “mulherzinha” e é um filme maravilhoso e vou dar todas as razões pela qual devemos ser fã e seguir o exemplo da Elle Woods (Reese Witherspoon).

*infelizmente não achamos o trailer em português ou legenda*

Elle é uma estudante de moda e presidente de uma sororidade e está certa que seu namorado irá pedi-la em casamento. Mas, segundo Warner (Matthew Davis), ele merece uma Jackie (Kennedy Onassis) não uma Marilyn (Monroe) e acha que Elle não é a mulher certa para ele e seus grandiosos planos de estudar Direito em Harvard. Elle é branca, loira, magra, só usa rosa e está sempre carregando seu cachorro a tiracolo, tem uma certa ingenuidade e gosta de todas as coisas femininas possíveis e é o que poderíamos chamar de uma garota fútil.

Numa tentativa de impressionar o ex, Elle decide se inscrever na seleção para estudar Direito em Harvard.

Legalmente Loira é um filme sobre uma jovem nadando contra a corrente, se descobrindo e descobrindo também que o mundo não trata as mulheres de maneira fácil. Todo manual de roteiro diz que logo no começo do filme devemos apresentar nossos protagonistas e numa das primeiras cenas do filme vemos que mesmo que Elle tenha uma aparência de “loira burra” ela não deixa as pessoas passarem por cima dela, ela pode ser bem mais esperta do que imaginam.

Quando chega em Harvard, Elle precisa conquistar a credibilidade com os professores e seus colegas, já que parece ser muito difícil para as pessoas acreditarem que uma pessoa que é preocupada com a aparência pode também ser inteligente. Suas roupas e seu jeito destoam de todo o resto do campus e isso é visto com maus olhos. As pessoas antes mesmo de conhecê-la e suas capacidades, parecem já ter uma opinião bem formada sobre sua pessoa.

Logo em sua primeira aula, Elle é testada e praticamente expulsa da sala pela professora por não saber a resposta de uma pergunta que para todos parecia tão básica. Assim como alunos gostam de pegar no pé de outros alunos, alguns professores também. É como se ela o tempo todo tivesse que estar provando ser boa para todos. Para sua sorte, Elle é uma aluna aplicada e estudiosa e não demora a chamar a atenção de um dos professores.

Mesmo estando na mesma faculdade, ter passado pelo mesmo processo de seleção e estarem na mesma turma, Warner não acredita no potencial de Elle de que ela não é tão boa assim. Isso tudo vem como um banho de água fria nela, já que percebe que não importa o que ela faça, ela nunca vai ser boa o suficiente para ele. Em vez de desistir, Elle decide se empenhar em ser uma ótima aluna, independente do que Warner vá pensar ou não dela.

O filme também fala sobre amizade. Quando Elle acha que seu namorado vai lhe pedir em casamento, suas amigas também ficam tão animadas quanto ela e quando ela decide fazer o processo de seleção para Harvard elas a ajudam a estudar. No final do filme, quando Elle precisa defender Brooke Taylor (Ali Larter) no julgamento do assassinato de seu falecido marido suas amigas aparecem para torcer por ela.

Vivian (Selma Blair) e Elle têm tudo para não serem amigas: as duas são interessadas em Warner. Elle como a ex que quer reconquistar seu antigo namorado e Vivian como a atual que quer mostrar quem manda. Só que para o azar das duas, todos os três acabam fazendo estágio no mesmo caso e precisam trabalhar juntos. No primeiro dia de trabalho Elle elogia a roupa de Vivian, que fica surpresa com a declaração. As duas acabam  descobrindo que têm mais em comum do que pensam. A aproximação das duas acontece ainda quando Vivian e Warner estão juntos.

Na cena em que mostra a aproximação delas, Vivian fala que o chefe nunca pede a Warner que pegue o café, sempre ela que tem que fazer essas tarefas. Vivian, que também parece ser ambiciosa, acaba sempre por fazer tarefas organizacionais, como pegar bebidas, comidas ou organizar a papelada. É a ideia das mulheres sempre como auxiliares, secretárias e não ativas.

Elle também faz amizade com uma manicure local e ajuda a conseguir seu cachorro de volta, que tinha ficado com o ex-marido. No filme, vemos que Elle não mede esforços para ajudar as pessoas e diferentemente do que fazem com ela, trata todos bem.

Uma abordagem interessante que o roteiro faz é a relação da personagem com seus interesses como cabelo, beleza e moda. Em nenhum momento isso é colocado como uma coisa ruim ou fútil, mas acaba se tornando um conhecimento necessário para que Elle possa resolver o caso em que trabalha. O fato de ser uma pessoa intuitiva e perceptiva juntado ao seus conhecimento sobre permanentes faz com que Elle tire Brooke de uma possível sentença por uma morte que ela não cometeu.

Por mais que tenha gostos e interesses diferentes de seus colegas, Elle tem as qualidades necessárias para ser uma advogada tão boa quanto seus colegas: estudiosa, perceptiva e genuinamente acredita nas pessoas. Em um mundo corroído pelo cinismo e jogos de poder, Elle às vezes se abala com a situação, mas não deixa de ser ela mesma.

Professor Callaham (Victor Garber) em boa parte do filme parece genuinamente acreditar no potencial de Elle, junto com seu assistente Emmett (Luke Wilson). Mas Callaham mostra suas verdadeiras intenções com sua aluna quando assedia ela. Depois disso, Elle pensa seriamente em desistir da faculdade e da carreira no Direito. Mas curiosamente a mesma professora que zombou dela em sua primeira aula é a pessoa que diz que ela não deve deixar de perseguir seus sonhos por conta de um idiota e que se fizer isso mesmo, não é a pessoa que imaginou que ela era.

O filme falha em quesitos de representação mesmo que tenha vários pontos positivos, praticamente não existem negros e nenhum personagem principal foge da linha branco / classe média / heterossexual. A única personagem negra de destaque é a juíza no final do filme. Os dois personagens gays da história são um cabeleireiro e o jardineiro e são estereotipados.

Quando foi lançado em 2001 o filme foi um sucesso e rendeu uma sequência dois anos depois. É interessante pensar que o filme pode ser visto e passar batido mesmo tendo tantos pontos positivos, mas é sempre um risco que se corre quando se faz comédia destinada claramente ao público feminimo. Legalmente Loira se encaixa perfeitamente nos filmes produzidos aos moldes hollywoodianos, mas mesmo assim merece seus créditos quando se tem tão pouca representividade boa no cinema sobre mulheres.

*você precisa sempre ter fé em si mesmo*

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

  • Tauanny Falcão

    Adorei a review, eu mesma amo esse filme, e a primeira vez que vi era criança, e queria estudar em Harvard que nem a Elle. Não entrei em Harvard, nem fiz Direito, depois claro as coisas mudaram, mas entrei na USP, que seria quase o equivalente brasileiro, e assim como Elle, adoro roupa, maquiagem, etc. Mesmo que ainda seja uma representação branca/ classe média/ cis, ainda é a representação de uma personagem feminina forte e que com certeza inspirou várias garotas assim como eu. 🙂

  • https://serinquieto.wordpress.com/ Valquíria Bastos

    Adorei o texto, adoro esse filme! Ele realmente vem com uma mulher totalmente estereotipada e ela se transforma, antes por causa de um homem, mas depois pra provar pra si mesma que ela podia sim!

  • Mari

    Muito bom o texto, mas ela não é presidente de uma sororidade, e sim de uma fraternidade kkkk

    • natashaff

      Oi, Mari. Fraternidade é grupo de homens, grupo de mulheres são chamados de sororidades ou irmandades. Então é certo dizer que a Elle é presidente de uma sororidade.

    • Jacqueline

      As sororidades universitárias são o equivalente feminino às fraternidades, Mari. 🙂

  • Jacqueline

    Ai, que delícia ler sobre “Legalmente Loira” aqui! Esse filme saiu quando eu tinha apenas 12 anos e devo dizer que o discurso final da Elle mais que influenciou o meu discurso como oradora da turma na oitava série. Elle Woods tem o poder! Apesar de concordar com a questão da representatividade (principalmente na parte do limpador de piscina gay), acho que vale pontuar que a falta de mais diversidade no elenco do filme também pode se caracterizar no próprio contexto da história. Harvard fica em Massachussets, na costa oeste dos EUA que por si só é território dos famosos WASPs (Brancos, Anglo-Saxônicos e Protestantes), a nata da sociedade política americana, extremamente estratificada. Esse é um meio dificilmente aberto a mudanças, com uma sociedade que mais parece a aristocracia política do país. Claro, isso não justifica a falta de negros no núcleo do UCLA, mas pelo menos traz uma coerência na narrativa.

    Mas mudando de assunto, adoraria ver vocês falando de Miss Fisher’s Murder Mysteries, uma série australiana de época (e mistério) com uma heroína maravilhosamente feminista e várias personagens fortes.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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