15 de maio de 2015 | Ano 2, Edição #14 | Texto: e | Ilustração: Gabriela Sakata
Ellen Ripley e as mulheres no espaço
Ilustração: Gabriela Sakata.

É um fato conhecido que o primeiro romance de ficção científica foi escrito em 1818, por uma mulher de 18 anos: Frankestein, de Mary Shelley. Certas pessoas, no entanto, argumentam que o primeiro trabalho de ficção científica é, na realidade, The Blazing World, também escrito por uma mulher: Margaret Cavendish. Mas, mesmo que o gênero tenha sido inaugurado por mulheres, quando pensamos em ficção científica, os nomes de maior destaque – de criadores a personages – são homens.

Podemos parar para pensar, por exemplo, em Guerra nas estrelas, uma dessas narrativas que todo mundo conhece e que é praticamente composta unicamente por homens (e robôs, aparentemente homens, e alienígenas não-humanoides, mesmo assim aparentemente homens), com exceção de uma personagem (considerando a trilogia original, porque, serei honesta, dos outros três filmes eu, Sofia, entendo bem menos): a princesa Leia. Pensemos, agora, naquela outra história de sci-fi que não tem nada a ver com Guerra nas estrelas mas que todo mundo gosta de comparar: Jornada nas estrelas. A equipe original da Enterprise (que é a retomada no reboot cinematográfico atual) tem homens e mais homens, com a presença notável de Nyota Uhura como principal exceção. Algumas décadas depois (em 1995, mais precisamente, mesmo que a série original tenha começado em 1966), o spin-off Voyager apresentou aos espectadores uma capitã mulher, interpretada pela sensacional Kate Mulgrew (que talvez você conheça como Red, em Orange is the New Black). Todas essas personagens são super maneiras, mas são, claramente, a exceção de gênero em suas respectivas histórias – a única mulher, infiltrada no Clube do Bolinha.

Estou falando das obras de sci-fi passadas no espaço para combinar com nosso tema, universo, mas não achem que é muito melhor quando tratamos de outras histórias. No âmbito terrestre, nossos maiores ícones são Dana Scully, com o raro papel de (co)protagonista, em Arquivo X, ou Sarah Connor, de Exterminador do futuro, que recebeu sua própria série, The Sarah Connor Chronicles – exceções, exceções, sempre exceções. Na vida real, mulheres no espaço também são exceções: fui procurar astronautas mulheres na internet, e a wikipedia me deu uma lista de 59 nomes, destacados dos mais de 560 astronautas treinados – pouco menos de 90% são homens. Essas informações sobre a realidade e a ficção se retroalimentam: com tão poucas mulheres astronautas na vida real, fica fácil para escritores argumentarem que ter mais homens é só “mais realista”, e com tão pouca representação de mulheres astronautas na ficção, fica fácil para garotas acreditarem que aquele não é o papel delas.

Não só a representação é pouca, como vem carregada de vários aspectos complicados: Princesa Leia capturada, escrava sexual do nojento Jabba; Uhura e seu uniforme obrigatório de minissaia; as mulheres que acompanham o Doctor em Doctor Who, sempre relegadas a “companheiras” por mais incríveis, fortes, poderosas e inteligentes que sejam. Quando garotas veem outras mulheres no espaço, é isso que elas enxergam: uma única, no meio de vários homens; uma única que é encaixada nesse papel tradicionalmente feminino mesmo longe da Terra; uma única que é deixada em segundo plano, que deve se contentar com seus pequenos momentos de glória, mesmo que no fim das contas o herói seja o homem ao seu lado.

A salvação talvez seja Ellen Ripley, protagonista da franquia Alien. O primeiro filme, Alien de 1979, dirigido pelo Ridley Scott, beira o terror e tem bem pouco a ver com a ideia de um filme de ação ou até mesmo de um sci-fi. Tudo nos é muito familiar, digo, passar meses navegando no espaço não, mas a rotina, o trabalho mal pago e as relações entre os membros da tripulação são um lembrete de que o futuro que está logo ali e é fruto do presente e passado. É um filme lento, denso que não te dá uma protagonista, mas sim constrói a personagem de Ripley a duras penas quando ela tem sua sugestão (muito sensata) de não deixar um extraterrestre a bordo da nave negada sumariamente por homens da equipe; quando ela recebe um mansplaining; quando chora ao ver seus colegas caindo um a um e quando ela se torna a última sobrevivente da Nostromo e abandona a nave – não sem antes levar consigo o mascote, o gato Jones, são e salvo. Ripley não nasce mulher, torna-se e é isso que faz com que eu, Carol, me enxergue tão próxima dela.

<3 JOOONES <3

Muito se deve ao cerne da mitologia Alien: é um filme sobre políticas sexuais e de gênero que explora o estupro com vítimas homens. A contracepção e a gestação são deliberadamente violentas e, inclusive, as inúmeras formas físicas do Alien lembram órgãos sexuais, pênis e vaginas. Isso tudo é conduzido com muita precisão e torna toda a história, em especial o crescente da Ripley, ainda mais notável. Em Alien³, por exemplo, Ripley é a única mulher em um planeta-prisão cercada de homens altamente perigosos, vários deles sentenciados por estupro ou abuso de menores. É uma pena que nesse caso o assunto não seja delineado com o cuidado que merece, Ripley continua despontando como uma mulher incrivelmente forte, mas é só isso. O desenvolver da trilogia carece em complexidade, tanto na linguagem cinematográfica quanto política.

Ps: não deixe de jogar Alien Isolation, o recém-lançado video game da franquia faz jus ao legado do Alien de 79 e traz também uma protagonista feminina, Amanda, filha de Ripley.

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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