17 de abril de 2015 | Ano 2, Edição #13 | Texto: | Ilustração: Isadora Carangi
Em busca do tempo perdido

Às vezes fico imaginando como seria legal ter uma máquina do tempo e consertar todos os “erros” que cometi na vida, carregar menos culpas e arrependimentos. Talvez a vida fosse bem mais fácil, tudo mais previsível, e até medos eu teria menos, afinal se errasse eu poderia apagar tudo e começar do zero.

Entretanto, umas das primeiras coisas que aprendi no curso de arquitetura, nas aulas de desenho, foi a não usar a borracha. Não existe certo ou errado no desenho; seu traço tem uma intenção, mesmo que não seja a melhor, ela existe e é uma escolha que naquele momento você julgou correta, ela leva a outras intenções e assim surge um Projeto inteiro.

Além disso, meus professores sempre enfatizaram que não tem essa de feio e ou bonito. O importante é fazer do desenho sua linguagem.

E se pensarmos na vida dessa forma?

Será que não seria mais leve e menos frustrante sair das amarras do certo e do errado e começar a ver tudo pelo lado construtivo?

Voltando à analogia do desenho, sempre podemos pegar folhas novas e tentar de novo, ou virar a folha e usar o outro lado, nada é cem por cento inútil. Porém, vale lembrar que temos privilégios, tudo vai depender de quantas folhas a vida te forneceu, ou seja, o quão privilegiado você é para errar mais e ter menos consequências. O tempo corre e cobra mais quem tem menos chances.

Pensei muito sobre esse texto e me lembrei de um dos questionamentos de um moço que conheci, ele se queixava de passar anos da sua vida estudando, aliás se nós que temos hoje em torno de 20 anos e estamos no ensino superior fôssemos fazer as contas dariam mais de 15 anos indo para a escola, sentando na frente da lousa e do professor e assistindo a uma aula.

Ele dizia: Me cansei, não quero me enquadrar nessa ideia de escola, trabalho, namoro, casamento, casa, carro, filhos, morte. E abandonou tudo.

Acho admirável, mas nunca pude fazer isso.

As pessoas que nascem negras e pobres, já carregam a ideia de que ou você estuda ou você trabalha. E estudar numa universidade é um enorme privilégio para nós. Por mais que eu critique o sistema — até porque ele exclui a maioria da população negra e/ou pobre — eu arrisco até onde os meus limites permitem.

Eu não acredito que se arriscar faz mal. Tente, faça, vá até onde você pode. E se der errado, faz parte, literalmente. Recuperar o tempo perdido não é ficar lamentando, ou insistindo naquele traço que deu errado, é entender o erro, aceitar, tentar de novo e de novo, assumindo que não somos perfeitos e que no fundo tudo é aprendizado.

Como Burle Marx disse, temos que ter medo da fórmula:

Não tenho medo de errar. Erro a gente pode corrigir. Tenho medo é da fórmula. Se eu fosse fazer uma coisa perfeita nem tentaria começar. O importante é ter curiosidade. Daí eu gostar da vida como uma criança que recebe um brinquedo novo, que inclusive quebra para depois reconstruir.

Stephanie Ribeiro
  • Colaboradora de Artes

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Contribui com textos e artigos para diversos meios, além de participar de palestras e eventos. Trabalha em seu livro a ser lançado pela Cia das Letras em breve.

  • http://cosmocinese.blogspot.com.br/ Bruns

    Era o que eu precisava ler hoje para me sentir melhor.

  • Fabiana Farias

    Nossa! <3 Obrigada por isto! Depois que a gente faz 30 anos, parece que o erro fica ainda mais pesado. É como se não tivessemos mais o direito de errar. Queria eu ter tido a tua lucidez aos 20 anos. Teria me poupado muito sofrimento.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos