1 de março de 2015 | Estilo | Texto: | Ilustração: Laura Viana
Em defesa do direito ao ridículo

“Que coisa horrorosa, quem usaria isso na vida real?”, pergunta a humanidade em coro desdenhoso ao avistar a peça de roupa que cruza a passarela.

Quando o assunto é mundo da moda, certamente existe material o suficiente para desfiar um rosário de defeitos por semanas. Por meses, talvez. Afinal, estamos falando de um ambiente racista, elitista e misógino que lança tendências tão esdrúxulas quanto pochete, separação artificial de dentes e boicote aos agasalhos porque sentir frio é coisa de pobre (É, GENTE), então, amiga, fica bem difícil te defender.

No meio de tanta babaquice, porém, existe um único ponto em que faço questão de ficar do lado da amiga moda: a bizarrice dos looks de passarela.

Olha só, não é que eu não saiba apreciar – pra ser sincera, talvez não sei mesmo – uma peça de roupa clássica menos-é-mais que se basta só por ser executada de forma impecável. Mas o que me ganha de verdade é o ladygaguismo. Camadas. Milhares de texturas. Brilho. Ursos gigantes. Essas coisinhas, sabe?

Dentro da moda tradicional, tenho uma guru de estilo pessoal, a editora-chefe da Vogue Japão, Anna Dello Russo. Enquanto outras editoras costumam ser descritas como “elegantes”, “finas”, Anna fica entre o “ousada” e o “maluca”. O que mais marca seu estilo é o fato de que ela costuma usar o look exatamente como foi apresentado na passarela, com apenas um ou outro acessório a mais como toque pessoal. Anna não procura uma versão mais “usável” do que foi mostrado. Nada de dia-a-dia para ela, queridinhas. Anna quer o show inteiro na própria roupa, e não dá a mínima se você gosta disso ou não. Lógico que é muito mais fácil fazer isso sendo editora-chefe da Vogue Japão – o que, basicamente, já serve de justificativa para qualquer coisa que você possa usar -, mas também é preciso reconhecer que é um soprinho de originalidade em um meio com tanta gente padronizada.

O negócio é que abraçar o que não está dentro da normalidade é uma mini-revolução. Calma, não estou dizendo que a Vogue é um instrumento revolucionário ou que vamos derrubar o patriarcado e o capital só por usarmos cobertor no lugar de casaco, mas subverter a lógica estética que existe por trás do que a gente veste e abraçar a tosqueira pode ser bem interessante no nosso processo pessoal de construção política.

Ainda cedo, plantam em nós mulheres a sementinha do medo do ridículo. Nós passamos uma vida inteira intimidadas pela mecha de cabelo fora do lugar, pelo sorvete que escorreu na camiseta, pelo sapato confortável que não casa com o vestido e pela menstruação que pode manchar a calça. Empregando mil esforços para parecermos impecáveis. Evitando fazer aquele comentário engraçadinho que “não é coisa pra mocinha falar”. Mulher tem que ser bonita, delicada, não soltar pum nem falar de cocô. E tem que se levar muito a sério. Senso de humor é coisa de menino besta. Mulher não pode ser tosca, porque gente tosca não é bonita, e mulher. Tem. Que. Ser. Bonita.

Assim, quando nos permitimos o ridículo e absurdo, não só ganhamos acesso a um mundo de coisas maravilhosas como pantufas de girafa e concursos de arroto, mas também nos rebelamos contra o papel decorativo a que somos destinadas, dando esse mini “foda-se” ao patriarcado que tira das nossas costas o peso de um medo que nos paralisa e nos engessa dentro de um modelo muitíssimo limitado criativamente.

E o que melhor define esse processo todo de se abrir pra tosqueira é um momento catártico em que você nota que é muito mais incrível ser daora que ser bonita. Você percebe que pode buscar outros adjetivos como elogios, e que muitos deles vão entrar em choque com o “impecável” lá de trás, porque vão exigir que você se livre daquela aura intocável da perfeição e se humanize – afinal, não dá pra ser a Branca de Neve enquanto brinca de fazer presas de morsa com batata frita. E que isso é libertador pra caramba.

Então deixo aqui esse vídeo de conselhos de moda não convencionais da Anna Dello Russo – só não dê ouvidos à parte que diz que a moda deve ser desconfortável – e meu convite pra que você também se permita ser ridícula. É uma delícia. O principal item na minha lista de desejos pro inverno é um daqueles macacões de pijama meio felpudinhos com o formato de algum bicho. Um dinossauro, de preferência. E engana-se você se pensa que vou usá-lo em casa.

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

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