26 de agosto de 2015 | Ano 2, Edição #17 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Em paz com o corpo e a comida

Fiquei superfeliz quando vi que o tema desta edição seria comida. Eu AMO comida, amo a experiência de ir em um restaurante, seja chique, seja pé sujo; amo a lasanha da minha mãe, que ela faz todo ano no meu aniversário com todo carinho; amo assistir filmes com as migas e pedir uma pizza; amo cozinhar com meu namorado; amo batatas…. Enfim, esta foi uma das edições que mais me envolvi, e as meninas não estão me decepcionando, as pautas mensais estão ótimas. Só que neste texto eu vou falar sobre como durante muito tempo a comida foi a minha maior inimiga.

Eu sou gorda, sempre fui gorda e é desse lugar que eu falo, e quando você é gorda, você obrigatoriamente tem uma relação ruim com comida aos olhos dos outros, e o que você de fato sente não importa. “Olha o seu tamanho, óbvio que você come demais. ” Óbvio que você não é normal, você já é julgada e sentenciada a ter que emagrecer; tem que dar um jeito aí pra se enquadrar nos padrões, assim não dá. Eu cresci em uma casa com um irmão magro, então mesmo quando eu era bem nova, a sentença já era aplicada: esse pudim de leite gostoso seu irmão pode, você não, por quê? Porque ele é magro e você é gorda. Não pode pudim, não pode refrigerante, não pode isso, não pode aquilo, não pode decidir o que de fato quer comer.

É claro que, sim, eu posso estar “comendo demais”, ou eu posso ter mesmo uma má relação com o que eu como, mas, primeiro de tudo: isso é problema meu e quem tem que resolver sou eu, e ter alguém policiando quando eu vou mudar não ajuda em nada. Porque no fundo, por mais que todos estejam gritando “é a saúde, é a tal da saúde, apenas isso”, não é apenas isso. Vivemos em um mundo gordofóbico, sim, onde gordos devem estar cumprindo suas sentenças o tempo todo, tanto que se estiverem emagrecendo à base de dietas radicais distantes do saudável, tá tudo bem (como eu já fiz, e enquanto eu estava ferrando minha saúde, só ouvia que “linda, olha como você está emagrecendo! ”). Segundo, porque as pessoas magras estão sujeitas aos mesmos problemas, porém, não é automaticamente atribuído a elas que há um problema ali, não tem uma polícia da saúde fazendo cobranças porque elas são magras, então tudo bem.

Obviamente que se você é mulher, mesmo magra existe um milhão de padrões estéticos. Você nunca é magra o suficiente. Vivemos uma paranoia eterna com o nosso corpo, e implantar essa loucura com os corpos perfeitos é só mais uma forma de controle sobre eles. A questão é que não tem como negar, se uma mulher magra tira uma foto com um doce e posta no Instagram é lindo, é até sexy; agora, se uma mulher gorda faz o mesmo, é nojento, é “está vendo?! Por isso que ela está assim”, porque obviamente ser gorda é quase como cometer um crime, não é mesmo?

Com este texto não quero dizer que é ok você comer um pote inteiro de sorvete porque o seu dia foi ruim, de forma alguma. O que me incomoda é como o poder de escolha é arrancado das gordas e não importa o que você faça, você está sendo julgada só porque você é como você é. Acabo sempre falando de My Mad Fat Diary: em um episódio, a Rae acaba desabafando para uma amiga sobre como ela se sente quando come em público; que se ela está comendo alguma porcaria, todos olham, julgando “é por isso que ela está desse tamanho, olha o que ela está comendo”; e se ela está comendo alguma salada, ela é julgada da mesma forma: “nossa quem ela quer enganar? Comendo salada, gorda assim? ”. Me identifiquei demais com essa cena porque grande parte da minha vida foi isso, foi o controle intenso. “O que eu coloco no meu prato? Dois pedaços é muito? Eu tô com fome, mas tem gente comigo, melhor um”; foi olhar quanto deu o prato do colega de trabalho no restaurante a quilo e ficar mal se foi menos que o meu; foram os olhares de pena e “nojinho” na academia; e depois de tudo isso ainda ouvir “você seria tão bonita se fechasse a boca!”.

O grande problema é que ser gordo é ainda uma das piores coisas para você ser nesse mundo. Enquanto isso for assim, enquanto ser gorda for essa grande tragédia, a alimentação saudável ou “se alimentar direito porque faz bem” vai continuar a ser um privilégio dos magros. A sensação que fica é que eu não posso escolher me alimentar bem para mim como escolha minha de vida porque eu sou gorda, então, automaticamente ao fazer isso, eu estou tentando consertar um problema estético, estou cumprindo minha sentença. No fim das contas, o que eu quero deixar claro é que todo mundo tem o direito de escolher como vai levar sua própria vida. Parece uma coisa tão óbvia falando assim, não é mesmo? Ninguém deve saúde para ninguém. Claro que você tem que ter consciência das suas escolhas, e que se alimentar apenas de congelados vai te fazer mal – até porque o problema não é só engordar, a indústria alimentícia por si só já é bem problemática; porém, como comer é sua escolha e ela diz respeito somente a você.

Eu me acho linda e amo meu corpo exatamente como ele é, porém, foi com muita dificuldade que eu cheguei aqui. Demorou muito para eu entender que o meu corpo grande e flácido faz parte de mim, e se ele fosse outro, eu não seria a pessoa que eu sou, e eu gosto muito dessa pessoa. Então, eu fiz as pazes tanto com meu corpo quanto com a comida. Só que manter essa atitude no mundo de hoje é muito complicado. Eu vou em um endocrinologista regularmente e estou sempre checando minha saúde; estou surtando porque tive que parar a natação, mas o que me deixa triste nisso tudo é que, no fundo, sei que eu faço tudo isso muito em parte porque ser gorda e me orgulhar disso é muito difícil. Ter essa rotina é quase uma “carteirada” que eu dou ao mundo: olha aqui sou gorda e sou saudável, ok? Me deixem em paz. Isso não deveria ser assim. Eu queria poder ter essa mesma rotina apenas porque eu quero e porque faz bem pra mim e para qualquer um, gordo ou magro.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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