9 de abril de 2016 | Artes, Colunas, Literatura | Texto: | Ilustração: Laura Athayde
Emprestar seus livros também pode ser legal
EDIÇÃO # 025 - PAUTA 9 - LAURA ATHAYDE

 

Há alguns meses contei para vocês como enxergo nos livros refúgios que nos acolhem a ser nós mesmas, a desenvolver a nossa própria plenitude ao ler e se envolver com as narrativas. E o que acontece se emprestamos nossos pimpolhos para outros leitores?

Não vou negar, por muito tempo relutei ao empréstimo. Cuidava dos meus livros como se fossem filhos e pirava com a ideia de emprestá-los e eles voltarem para o meu colo com uma dobrinha aqui, um amassado ali – ou pior, nem voltarem! Aos poucos fui flexibilizando minhas decisões: emprestava para familiares e chegava junto deles, perguntando assim, como quem não quer nada, o que eles estavam achando da história e quando devolveriam o filhote, porque já tinha gente na fila para ler – às vezes nem tinha, mas eu jogava esse “plá” para ver se colava, para assim não perder meu livro de vista por muito tempo e não pagar de chata e egoísta.

O tempo me tornou mais flexível quando percebi que certos livros têm uma data de validade com a gente: eles nos servem a um propósito muito específico, nos trazem respostas ou cafuné para um momento difícil das nossas vidas e, de repente, o peso deles na estante não é mais uma questão de vida ou morte. Eles podem ir abraçar outros leitores e tudo bem. Assim, passei a ter mais facilidade não só em emprestar, mas também em doar meus livros sem muito sentimento de culpa. Aprendi que quando a gente lê para valer uma história, ela, de alguma forma, se torna parte da gente, molda nossa perspectiva de vida. Então, se me orgulho da mulher que me tornei também por causa das minhas leituras, nada mais justo do que espalhar uns pedacinhos de mim por aí para outras pessoas entenderem como eu enxergo o mundo. Sim, emprestar um livro seu não deixa de ser um escancarar de portas para o seu “eu”. E isso é lindo, sabe? Vou explicar o porquê.

Por mais que hoje seja muito fácil manter contato com as pessoas, volta e meia me sinto muito descolada e distante de amigas que fizeram faculdade e moraram junto comigo. Porém, esse aperto é sanado com um hábito que cultivamos há muitos anos: nós trocamos livros! O costume já está tão arraigado na gente que, muitas vezes, compro um volume já pensando pra quem vou emprestá-lo depois de ler. E quando nos encontramos, no meio de alguma conversa ou desabafo, alguém lembra de um trecho do último livro que leu e pronto! Empréstimo prometido, como se o livro fosse um remédio para sarar algum machucado, curar alguma aflição. Mas livro é isso também, não é?

Que coisa gostosa é abrir aquele romance que a Mari me emprestou, mas que passou pela mão da Juzinha antes! Conforme viro as páginas, esbarro com os comentários e destaques em lápis de cor de uma e as respostas à caneta da outra; não demoro a entrar na “conversa”, colando um post-it com meu parecer. E assim seguimos nesse bate-papo literário, descobrindo o que se passa no coração uma da outra, percebendo as mudanças e revoluções que nos tocam, nos questionando e aprendendo uma com o olhar da outra (sempre, sempre me questiono. Porque minhas amigas são tão inteligentes e me ensinam tanto…).

Hoje não me faltam motivos para emprestar meus livros com tranquilidade. Se você ainda tem dificuldade, mas quer tentar (afinal, livro tá caro, gente!), comece com uma limpa na sua estante – às vezes ainda acumulamos uns volumes que não têm mais nada a ver com a gente, livros que lemos no jardim de infância, por exemplo – para doá-los para alguém ou algum lugar que precisa deles mais do que você. Depois, encare os pimpolhos que sobraram na estante e tente relacionar alguns com algum amigo ou parente que você acredita que gostará de lê-los. Comece emprestando uns dois volumes e deixe anotado o empréstimo, mas sem aflição – quando eles retornam é ótimo e, se a pessoa que pegou emprestado curtiu a leitura, você ainda ganha o bônus de um bom papo sobre a narrativa!

Outra ideia é o empréstimo anônimo: largar livros por aí, nos bancos das praças, no ônibus. Quer uma dica? Coloca um bilhetinho de boas-vindas para quem encontrar o livro! Já fiz isso algumas vezes, é muito divertido conversar com um completo desconhecido através de um livro! Assim que testar uma dessas sugestões, volta aqui para contar para a gente como foi!

Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

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