24 de fevereiro de 2017 | Saúde | Texto: | Ilustração: Yasmin Lopes
Endometriose – A dor da incompreensão

As dores insuportáveis, as hemorragias, as dores durante o sexo, o mal estar generalizado, a vontade de se isolar do mundo deitada num quarto escuro com um saco de água quente, um estoque de analgésico e esquecer que o mundo existe, porque você já não consegue mais fazer nada. Boa parte do mês é assim pra quem tem endometriose. Uma doença que acomete cada vez mais meninas e mulheres, e que tende a aumentar sua incidência por conta da vida nas grandes cidades. A doença possui tratamento e controle, mas não cura. Sem tratamento, pode provocar dores incapacitantes, anemia profunda, infertilidade, entre outras complicações. E que entre as suas características mais cruéis está a incompreensão. Do mercado de trabalho, dos relacionamentos, dos consultórios médicos. Crescemos ouvindo que reclamar de cólica menstrual é “frescura”, que “mulher está acostumada”, que “é assim mesmo”.

A endometriose, doença que afeta cerca de 7 milhões de mulheres no Brasil, é muito estudada, mas o seu diagnóstico ainda é um desafio mesmo para os ginecologistas. O tempo médio de detecção é de 10 anos ​a partir do surgimento dos primeiros sintomas.

Ironicamente, entrevistamos alguém que nunca estará sujeito à crueldade dessa doença ou do tratamento reservado a ela na sociedade: um homem. No entanto, este vem liderando pesquisas e publicações significativas para que as mulheres com endometriose recebam o respeito e o tratamento digno que sua condição demanda.

O ginecologista Marco Aurelio Pinho Oliveira — fundador e chefe do Ambulatório de Endometriose do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e autor do livro “Endometriose Profunda – o que você precisa saber”, nos fala um pouco mais sobre o tema:

Em linhas gerais, o que quer dizer ter endometriose?

Marco Aurelio – De forma simples, ter endometriose é ter a presença de tecido endometrial, que recobre o interior do útero, fora do seu local normal. Usualmente, quando ocorre o problema, este tecido cai dentro da barriga durante a menstruação (através das trompas) e se implanta nos ovários, nas próprias trompas, nos ligamentos uterinos e até mesmo na bexiga, intestino e outros órgãos dentro da barriga. Porém, em termos globais a endometriose é muito mais que isso, pois a mulher pode ter uma qualidade de vida muito ruim devido às dores e à dificuldade para engravidar.

A partir de que idade os sintomas da endometriose costumam surgir? A que sinais as meninas devem estar atentas? Quais as diferenças entre os desconfortos naturais sentidos durante o ciclo menstrual e o que sente uma mulher com endometriose? Como é feito o diagnóstico da doença?

MA – Os sintomas podem surgir alguns meses após a primeira menstruação. No desconforto natural, a cólica menstrual é de baixa ou média intensidade e tende a melhorar com o passar do tempo, sem necessidade de medicações analgésicas. Já a mulher que tem endometriose sente cólicas menstruais intensas que dificilmente são totalmente aplacadas por analgésicos.

O diagnóstico, primeiramente, parte da análise clínica da paciente: além das dores intensas já citadas, a mulher pode se queixar de dor na relação sexual, para evacuar, urinar ou ainda na região lombar. Uma vez que há a suspeita, são úteis o exame ginecológico — que pode detectar nódulos endurecidos atrás do útero e em contato com o intestino — e a medição dos níveis de CA-125 no sangue, geralmente elevado nas mulheres com endometriose. O resultado negativo, contudo, não exclui a doença. O médico também pode lançar mão de exames de imagem especializados muito eficazes, casos da ultrassonografia e a ressonância magnética, ambas com preparo intestinal. Por fim, existe a laparoscopia, procedimento cirúrgico minimamente invasivo que permite identificar visualmente e fazer a biópsia dos focos.

Em geral, como é tratada a endometriose? A pílula AC é mesmo a melhor alternativa?

MA – O tratamento da endometriose depende dos sintomas, da extensão e da gravidade do quadro. Quando ela causa sérios problemas para o intestino ou para as vias urinárias, pode ser necessária cirurgia imediata, mesmo que a paciente não tenha queixas.

Em mulheres com dor e que não desejam a gravidez, o uso de hormônios para bloquear a menstruação são uma opção. Geralmente, a opção inicial são as pílulas contraceptivas de uso contínuo. Se a dor continuar, no entanto, podem ser tentadas medicações hormonais mais potentes ou até cirurgia para retirada completa dos focos.

Cabe ressaltar que nenhuma medicação é capaz de eliminar o foco de endometriose, o que significa que ele voltará caso o tratamento hormonal seja interrompido. Dessa forma, recomenda-se para as mulheres que desejam e não conseguem engravidar a cirurgia ou a fertilização in vitro.

Que complicações a endometriose pode causar? A mulher com esta condição tem motivos para ter medo de engravidar?

MA – As complicações mais graves da endometriose são as intestinais e as urinárias. O nódulo pode crescer a ponto de obstruir o interior do intestino e ser necessária uma cirurgia de emergência com colostomia (colocação do intestino na pele). O nódulo também pode fechar o ureter, estrutura que liga o rim e a bexiga, e causar dilatação dos rins, inclusive com possível perda da função renal. Em caso de endometrioma de ovário (cisto chocolate), o cisto pode crescer e sofrer rotura, que também requer cirurgia de emergência.

No que diz respeito ao medo, não é necessário. A mulher deve ter uma preocupação se irá conseguir engravidar, já que a doença pode atrapalhar a fertilidade. É importante não adiar muito o momento da gestação, pois após os 35 anos a fertilidade já diminui naturalmente.

Eu tenho endometriose, e sinto que a doença não é tão bem compreendida até pelas mulheres, que acham que sentir dores agudas é “normal” e que “a mulher foi feita pra suportar isso”. Como o Sr. enxerga que a doença é vista na sociedade? 

MA – De fato, a doença ainda é muito mal compreendida. As pessoas entendem bem quando o diagnóstico é de câncer, mas a endometriose é uma doença benigna que tem a dor como principal sintoma.

Na medida em que a dor é subjetiva, fica mais difícil para que as outras pessoas entendam a real magnitude de sofrimento da mulher portadora. Por isso, não são raras as vezes em que a mulher é taxada de fresca ou acusada de fazer “corpo mole” no trabalho.

Conheço mulheres que, mesmo indo ao ginecologista assiduamente, demoraram anos para ser diagnosticadas com endometriose e sofreram com a doença durante todo esse tempo, uma, inclusive, teve perda de uma parte do intestino. O Sr. considera que a classe médica, em geral, dá a devida atenção a esta condição? É uma doença que pode ser facilmente confundida com outras ou mesmo passar despercebida?

MA – A endometriose demora, em todo o planeta, entre 7 e 10 anos para ser diagnosticada. Uma possível causa é que tanto a sociedade, de um modo geral, quanto os profissionais de saúde consideram que toda cólica menstrual faz parte da vida da mulher. Por conta disso, não param para ouvi-las e deixam de diferenciar a cólica “normal” daquela característica da endometriose. É fundamental garantir que a paciente possa realizar um bom exame ginecológico, exame de sangue e de imagem sempre que necessário.

Marco Aurélio finaliza declarando que o passo mais importante que deve ser tomado atualmente para a saúde das mulheres com endometriose depende mais das pessoas a sua volta: não cogite que as dores menstruais são psicológicas ou frescura. Valorize os sintomas, pois a endometriose demora de 8 a 10 anos pra ser diagnosticada. Os próprios médicos precisam estar mais atentos aos sinais de suas pacientes, e as pacientes conscientes de que estão em seu direito ao questioná-los e exigirem a atenção devida ao seu quadro. A sociedade de uma forma geral precisa estar consciente que as mulheres que sentem muita dor precisam ser apoiadas e respeitadas, é preciso ter em mente que o que elas estão sentindo é verdadeiro e bastante grave. E que o preço da incompreensão e silenciamento cometidos no presente pode custar caro demais no futuro.

Iane Filgueiras
  • Colaboradora de Saúde

Iane Filgueiras, 25 anos, de São Gonçalo - RJ, é mestranda em mídia, com pesquisa voltada para comunicação e saúde. Tem vários desejos, pouco dinheiro, e muito trabalho. Sentimental, faladeira e ansiosa até o último fio de cabelo. Prefere um bom filme/série na TV com balde de pipoca e edredom a quase qualquer coisa. Tem gostos ~~infantis~~, mas é com eles que se sente mais feliz. Sonha em ir à Disney, mas nunca quis ser princesa.

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